Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Nem sombras disso! Meio milhão acho que neste mundo só o tem as pessoas reais. Quer vossemecê saber outra? Já desde que meu mano chegou, duas vezes os governos do Porto lhe escreveram para ele ser barão. Vossemecê bem sabe que barão é isto de ser grande e maioral do reino, e fica-se logo fidalgo. Pois saberá que o meu irmão não quis até agora, porque lhe pediam cinco contos pela fidalgaria, e ele ofereceu metade. Estamos a ver se se arranjará o negócio; mas, ponto é querer a fidalga que ele seja barão, que isso manda ele logo aos governos do Porto pagar os cinco contos. Conte-lhe vossemecê tudo isto lá como coisa sua. E olhe que, se o casamento se chega a fazer, vossemecê também há de apanhar uma boa pechincha. Eu cá de mm dou-lhe um cordão de vinte moedas, e meu irmão é capaz de lhe comprar uma casa p’rá sua velhice.
― Velha estou eu, Sr.ª Ritinha – atalhou Vitorina – e, se Deus quiser, hei de morrer na casa onde viver a minha ama.
― Pois isto é um modo de falar; que vossemecê há de ficar sempre conosco enquanto for viva.
Pouco depois, Ângela escutava a exposição de Rita fielmente reproduzida pela criada, tirante as ridiculezas que a sagaz Vitorina omitiu como desconvenientes à gravidade do assunto.
Não obstante a compostura da velha, Ângela sorria-se e duas vezes abafou os froixos da gargalhada. Finda a relação, a filha de D. Maria d’Antas reconcentrou-se, apanhou as fontes nas mimosas mãos e murmurou:
― Qual virá a ser o meu destino?...
Esta pergunta era o epílogo de mil confusas idéias que se lhe embaralhavam na alma, umas sublimes, outras baixas até ao vilíssimo lodo que originariamente foi costela de homem. Com a qual costela bem podem dar-nos na cara as malfadadas a quem frechamos de sátiras, quando uns fumos iriados do prestígio, que lhes doira a nossa poesia, se rarefazem.
― Qual virá a ser o meu destino?
Que interrogação!
É a mulher sem parentes que a faz.
É a mulher que conheceu a pobreza.
E o desamparo.
E o desprezo dos seus.
E as injúrias caluniosas, sem que Deus ou a sociedade a vingassem e a ilibassem.
É a mulher que não vê aurora de melhor dia;
Que um mês antes quase esmolara o custo da passagem dum albergue de caridade para outro; Que se despenhara das canduras dum primeiro amor à mais rasa, à mais estranha e imprevista miséria. ― Qual virá a ser o meu destino?
Há neste interrogar-se uma abdicação, um alienar direitos de dispor do que quer que seja aspirações a felicidade.
Porque é tudo escuridade e amargura em sua alma. Amargura, se se recorda; escuridade, se olha adiante.
A riqueza, que se lhe oferece, não é a que ela desejava. O meio milhão deste homem não servirá a resgatar da pobreza a família do homem assassinado por sua tia. Mas Vitorina...
(Ó costela do homem! Ó oiro que a baba da serpente converteu em lama!...)
Mas Vitorina repisara naquelas palavras de Rita: ora diga-me vossemecê: Não era melhor que esta riqueza ficasse à Sr.ª D. Ângelazinha?
E Ângela de Noronha, interrogando o silêncio da sua alma, pôs os olhos lagrimosos em Vitorina e disse:
― Se tu pedisses a Deus que me levasse deste mundo!...
― Por que, minha senhora? Por que quer morrer?
― Porque me julgam tão sem amparo que já me aconselham o casar-me com este homem... E, na verdade, eu sei que sou muito, muito infeliz! Não tenho nada, não sei trabalhar, não tenho outras amigas senão tu, e esta mulher a quem devo benefícios que me colocaram inferior a ela... Quem sou eu, afinal? Uma grande senhora que não pode guardar a independência de sua alma à custa dos mais rudes trabalhos... Até hoje, a minha pureza foi tão-somente manchada pela calúnia de minhas tias; mas amanhã em que posição me colocará a Providência? Toda a gente terá direito de me considerar ou perdida, ou no transe de me perder... E, depois, Vitorina? Quando sairmos daqui, onde iremos? Se, ao menos, meu pai me mandasse entregar já as jóias de minha mãe... ainda teríamos com que viver, e eu iria trabalhando nos bordados...
― Os bordados... – murmurou Vitorina.
― Sim...
― Os bordados, minha senhora... – tornou a criada, sorrindo amargamente. – Vossa excelência sabe quanto eu recebia de cada bordado em que a menina gastava as horas todas do dia e algumas da noite? Era conforme. Uns regulavam o tostão por dia e noite. Outros a seis vinténs. E mais diziam que era por favor, porque tinham melhor e mais barato...
Saltaram-lhe as lágrimas dos olhos.
― Ó minha mãe, se tu me visse chorar!... – exclamou a filha do general inclinando a face para o seio arquejante.
XVI POR CAUSA DO FÍGADO
Escreveu Ângela a João Pedro perguntado-lhe se o pai respondera. Teve resposta negativa. Que o fidalgo tivesse piorado supunha o escudeiro por ter lido numa gazeta de Lisboa que o bravo general Noronha estava em Paris sofrendo, além de antigos achaques, os graves incômodos de uma oftalmia, que o ameaçava de cegueira.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.