Por Eça de Queirós (1887)
De tarde, na caleche de chita com o nosso doutíssimo Topsius, dávamos lentos, amorosos passeios à beira do Canal Mamudiê. Sob as frondosas árvores, rente aos muros de jardins de serralho, eu sentia o aroma perturbador de magnólias, e outros cálidos perfumes que não conhecia. Por vezes uma leve flor roxa ou branca caía-me sobre o regaço; com um suspiro eu roçava a barba pelo rosto macio da minha Maricoquinhas; ela, sensível, estremecia. Na água jaziam as barcas pesadas que sobem o Nilo, sagrado e benfazejo, ancorando junto às ruínas dos templos, costeando as ilhas verdes onde dormem os crocodilos. Pouco a pouco a tarde caia. Vagarosamente, rolávamos na sombra olorosa. Topsius murmurava versos de Goethe. E as palmeiras da margem fronteira recortavam-se no poente amarelo, como feitas em relevo de bronze sobre uma lâmina de ouro.
Maricocas jantava sempre conosco no Hotel das Pirâmides; e, diante dela, Topsius desabrochava todo em flores de erudição amável. Contava-nos as tardes de festa da velha Alexandria dos Ptolomeus, no canal que levava a Canópia; ambas as margens resplandeciam de palácios e de jardins; as barcas, com toldos de seda, vogavam ao som dos alaúdes; os sacerdotes de Osíris, cobertos de peles de leopardo, dançavam sob os laranjais; e nos terraços, abrindo os véus, as damas de Alexandria bebiam à Vênus Assíria, pelo cálice da flor do lótus. Uma voluptuosidade esparsa amolecia as almas. Os filósofos mesmo eram frascários.
- E - dizia Topsius requebrando o olho - em toda a Alexandria só havia uma dama honesta, que comentava Homero e era tia de Sêneca. Só uma!
Maricoquinhas suspirava. Que encanto, viver nessa Alexandria, e navegar para Canópia, numa barca toldada de seda!
- Sem mim? - gritava eu, ciumento.
Ela jurava que, sem o seu portuguesinho valente, não queria habitar nem o céu!
Eu, regalado, pagava o champagne.
E os dias assim foram passando, leves, flácidos, gostosos, repicados de beijos - até que chegou a véspera sombria de partirmos para Jerusalém.
- O cavalheiro - dizia-me nessa manhã Alpedrinha engraxando os meus botins - o que devia era ficar aqui na Alexandriazinha, a refocilar...
Ah! se pudesse! Mas irrecusáveis eram os mandados da Titi! E, por amor do seu ouro, lá tinha de ir à negra Jerusalém, ajoelhar diante de oliveiras secas, desfiar rosários piedosos ao pé de frios sepulcros...
- Tu já estiveste em Jerusalém, Alpedrinha? - perguntei, enfiando desconsoladamente as ceroulas.
- Não senhor, mas sei... Pior que Braga!
-Irra!
A nossa ceia com Maricocas, à noite, no meu quarto, foi cortada de silêncios, de suspiros; as velas tinham a melancolia de tochas; o vinho anuviava-nos como aquele que se bebe nos funerais. Topsius ofertava consolações generosas.
- Bela dama, bela dama, o nosso Raposo há de voltar... Estou mesmo certo que trará da ardente terra da Síria, da terra da Vênus e da esposa dos Cantares, uma chama no seu coração mais fogosa e mais moça...
Eu mordia o beiço, sufocado:
- Pois está visto! - Ainda havemos de andar de caleche pelo Mamudiê... Isto é só ir rezar uns padre-nossos ao Calvário... Até me faz bem... Volto como um touro.
Depois do café fomos encostar-nos à varanda a olhar, calados, aquela suntuosa noite do Egito. As estrelas eram como uma grossa poeirada de luz que o bom Deus levantava lá em cima, passeando sozinho pelas estradas do céu. O silêncio tinha uma solenidade de sacrário. Nos escuros terraços, embaixo, uma forma branca movendo-se por vezes, de leve, mostrava que outras criaturas estavam ali, como nós, deixando a alma embeber-se mudamente no esplendor sideral; e nesta difusa religiosidade, igual à de uma multidão pasmando para os lumes de um altar-mor, eu sentia subir aos lábios, irresistivelmente, a doçura de uma ave-maria...
Ao longe o mar dormia. E, à quente irradiação dos astros, eu podia distinguir, num pontal de areia, mergulhando quase na água, uma casa deserta, pequenina, toda branca e poética entre duas palmeiras... Então comecei a pensar que, mal a Titi morresse e fosse meu o seu ouro, eu poderia comprar esse doce retiro, forrá-lo de lindas sedas, e viver ao lado da minha luveira, vestido de turco, fresco, sereno, livre de todas as inquietações da civilização. Desagravos ao Sagrado Coração de Jesus ser-me-iam tão indiferentes, como as guerras que entre si travassem os reis. Do céu só me importaria a luz anilada, que banhasse a minha vidraça; da terra só me importariam as flores abertas no meu jardim, para aromatizar a minha alegria. E passaria os dias numa fofa preguiça oriental, fumando o puro latakié, tocando viola francesa, e recebendo perpetuamente essa impressão de felicidade perfeita, que a Mary me dava só com deixar arfar o seio e chamarme "seu portuguesinho valente".
Apertei-a contra mim num desejo de a sorver. Junto à sua orelha, de uma brancura de concha branca balbuciei nomes inefáveis; disse-lhe rechonchudinha; disse-lhe riquinha. Ela estremeceu, ergueu os olhos magoados para a poeirada de ouro.
- Que de estrelas! Deus queira que amanhã o mar esteja manso!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.