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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Talvez as pessoas que me lêem creiam que isto são hipóteses fantasmagóricas. Pois bem, que me expliquem então este facto, que vários correspondentes ingleses testemunham. Há semanas dava-se num teatro de Bucareste uma representação a que assistiu grande número de oficiais. Uma actriz francesa tinha que dizer uma canção num dos actos da peça: no momento em que a orquestra preludiava e ela ia gorjear o seu couplet, uma voz gritou:

– A Marselhesa. A Marselhesa!

E imediatamente, numerosos oficiais russos, fardados, esqueceram-se, gritando com frenesi:

– A Marselhesa, A Marselhesa!

Ora justamente, A Marselhesa é proibida em Bucareste. Grande embaraço nos bastidores. A mocidade militar berrava, uivava, gania:

– A Marselhesa, A Marselhesa!

Alguns bancos começavam a perder os pés e as travessas. O chefe da orquestra, assustado, fez um sinal: A Marselhesa rompeu, a actriz segue cantando com grande vigor e os oficiais, delirantes, fazem uma ovação à cantora–e à cantiga!

No outro dia o teatro foi fechado a pedido do grão-duque Nicolau!

As câmaras encerraram-se sem ter feito nada de glorioso: e, a respeito de câmaras e de constitucionalismo, deixem-me contar-lhes o caso da eleição de Lord Burghley, que é um exemplo curioso do valor que tem em Inglaterra a representação parlamentar. E mais uma ilusão a perder sobre esta pobre Inglaterra!

O circulo de Northamptonshire fica vago pela morte do ministro da Marinha, Mr. Ward Hunt. No círculo, um dos grandes personagens é o marquês de Exeter – o qual, nesta circunstância, tratou de fazer nomear, segundo a tradição das velhas famílias inglesas, seu filho primogénito, Lord Burghley. Os influentes do circulo (os influentes conservadores, naturalmente) aplaudiram a escolha: não trataram de saber se Lord Burghley tinha aptidões, prática ou conhecimento qualquer das coisas públicas; era um lorde, filho de um pai conservador, rico, deveria possuir um dia grandes propriedades no circulo, podia votar – era o que bastava! Quer, porém, a etiqueta eleitoral que o candidato faça um discurso de profissão de fé aos seus eleitores nas vésperas de eleição. Sucede tambén que Lord Burghley é um rapaz de vinte e oito anos, foi militar e até agora a sua ocupação tem sido valsar, folgar, caçar e cumprir os deveres gentis de um janota de Londres.

Podia-se, pois, recear que o seu discurso aos eleitores não tivesse nem uma grande altura política, nem um grande valor oratório: mas, realmente, não se supunha que o mancebo pudesse juntar numa oração de um quarto de hora tantas coisas singulares. Começou este moço por dizer – «que realmente não entendia nada, mas absolutamente nada, a respeito de política! Que os seus princípios não importavam também, porque os que lhe queriam bem votariam por ele, sem fazer caso dos princípios!» Depois deste exórdio, o candidato deu a sua opinião a respeito da questão do Oriente, e exprimiu-se assim: «Enquanto à questão do Oriente e se a Inglaterra deve fazer guerra, parece-me que a maior parte dos que me escutam têm amigos no exército e não gostariam de saber que esses amigos tinham tido os narizes rachados, ou as orelhas cortadas; por mim», exclamou, «se há uma coisa a que eu ponha objecção é a que me esborrachem o nariz ou que me cortem as orelhas»» Que lhes parece»? Mas aí vai o melhor: Um eleitor então fez-lhe várias perguntas a respeito das suas ideias sobre a administração local: o nobre lorde fitou-o e respondeu atónito: «Administração local»? É a primeira vez que ouço falar em semelhante coisa!» Gargalhada estridente. O mancebo enfurece-se e grita «que não tem obrigação de saber nada a respeito dessa trapalhada, porque foi tomado de surpresa nesta eleição e só teve um dia para decorar alguma coisa!» – Basta! Basta! – gritaram alguns.

– Também me parece que basta, porque realmente estou farto da maçada! – exclamou o elegante lorde»

No dia seguinte, os influentes do círculo publicaram a seguinte extraordinária declaração, de que dou um resumo:

«Que sentiam muito ter aconselhado Lord Burghley a fazer um discurso, porque, tendo sua senhoria tido muito pouco tempo para se preparar para discussões políticas, não pudera responder decentemente às perguntas que lhe tinham sido dirigidas pelos principais eleitores. Mas que afirmavam que sua senhoria daria um excelente deputado!».

Isto parece fantástico.

(continua...)

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