Por Eça de Queirós (1870)
consequências,arrancando a tal mistério a secreta verdade que ele envolve, dirija-se a mim, colaboraremos juntos nessa obra, que tenho por meritória e por honrada. Eu aceitarei clara e abertamentepara todas as consequências e para todos os efeitos a responsabilidade que daí pro venha, e terei meio de salvar o seu nome, a sua pessoa e a sua hon ra de qualquer suspeita que o ensombre ou o macule.Quanto a ti, meu querido e meu honrado F.., não creio que seja vítima de uma emboscada traiçoeira e indigna! O teu único peri go está, a meu ver, no teu impacientemelindre, nos teus delicados escrúpulos, no teu valor, finalmente, e no teu brio.
Que te matassem cobardemente no cárcere clandestino que há pouco tempo ainda tu iluminavas com a tua pachorra e a tua ale gria, não pode ser. Que a esta hora tenhas sidoobrigado a jogar a tua vida trocando em desagravo de honra uma estocada ou um ti ro com algum dos teus misteriosos comensais, isso acho lógico, e é possível.Punge-me não sei que vago e triste pressentimento... Meu po bre F...! Se estará destinado que não nos tornemos a ver! Se o dia fatal em que regressámos ambos de Sintra, descuidados, conten tes, suspirando com as nossas alegrias, sorrindo com os nossos in-fortúnios, terá acaso de ser o último dessa doce convivência que por tanto tempo nos juntou!...E são as amarguras alheias, são as desgraças dos outros que nos arrastam envolvidos num turbilhão implacável e terrível da crua solidariedade humana!
Que remédio?! Se a vida é isto, aceitemo-la corajosamente como ela é, e avan te! Aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se ser feliz!
SEGUNDA CARTA DE Z. Senhor redactor. — Acabo de ver publicada na sua folha de ho je uma carta em que odoutor ***, com uma insistência malévola, torna a inculcar, como cúmplice no atentado de que ele se fez o his toriador voluntário, o meu pobre amigo A. M. C.Disse-lhe na minha primeira carta, senhor redactor, que eu ia, com o auxílio único da minha coragem e da minha astúcia, pôr-me ao serviço da curiosidade de todos, procurandopenetrar e dssfiar a tenebrosa história que, há mais de uma semana, vem todos os dias sucessivamente, no folhetim do seu jornal, apresentar dian te de um público atónito um quadro misterioso e lúgubre.Não pude, porém, descobrir nada: indagações, interrogatórios, visitas aos lugares, tudo foi inútil. A história perde-se cada vez mais numa névoa que a afoga: e o meu pobre M. C. láesta ainda — não sei se num retiro voluntário, se numa sequestração forçada. Na impossibilidade de descobrir, fisicamente, por essas ruas, a verdade, resolvi vir buscá-la às mesmas cartas do doutor. Ana lisei-as, decompu-las palavra por palavra. E sem contar osprocessos, apresento os resultados.
O Mistério da Estrada de Sintra é uma invenção: não uma invenção literária, como aoprincípio supus, mas uma invenção criminosa, com um fim determinado. Eis aqui o que pude deduzir sobre os motivos desta invenção:
Há um crime; é indubitável; é claro. Um dos cúmplices deste crime é o doutor *** Eleestá envolvido no anónimo; não tenho por isso dúvida em apresentar esta acusação formal.
Se o seu nome fos se conhecido, se as suas cart as estivessem assinadas, eu, só com provas judiciárias, me atreveria a escrever esta grave afirmativa.Sim, o doutor *** é o cúmplice de um crime: o meu pobre ami go M. C. é um desgraçado incauto, sobre quem se querem fazer re cair as suspeitas que se poss am ter já, e asprovas que mais tarde venham ajuntar-se. Este crime, que existe, aparece-nos envolvi do nas roupas literárias de um mistério de teatro. As cartas do doutor *** são um romance pueril. Vejamos.É possível que numa cidade pequena como Lisboa, em que todos são vizinhos, amigos de tu, e parentes, o doutor ***, que parece ser um homem notado na sociedade, vivendonela, frequentando as suas salas e os seus teatros, não conhecesse nenhum destes quatro mascarados, que pelas suas indicações pertencem a essa mesma sociedade, se sentam nos mesmos sofás, escutam a mesma música nos mesmos salões e nos mesmos teatros?Uma máscara de veludo preto não basta para disfarçar um co nhecido. O seu cabelo, o seu olhar, a sua estatura, a sua figura, a sua voz, as sus mãos, a sua toilette, são bastantespara revelar, trair o indivíduo. O doutor *** pois nunca os tinha visto? O quê? Pois eram tão elegantes, tão distintos, governam tão bem as suas parelhas, falam tão bem as línguas, pareciam tão ricos, e o doutor um médico, um homem relacionado, um velho diletante de S.Carlos, nunca os viu, nunca os percebeu, nesta terra, em que toda a vida se concentra nos doze palmos de lama do Chiado! E F... tem um amigo íntimo entre os mascarados, diante desi, na carruagem, joelho com joelho, e não o reconhece, pelas mãos, pelos olhos, pe lo corpo, pelo silêncio até. Comédia!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.