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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Acendeu um charuto, voltou à livraria. E, imediatamente, releu o final magnífico: "De mal com o Reino e como Rei, mas de bem com a honra e comigo!" - Ah! como ali gritava a alma inteira do velho português, no seu amor religioso da palavra e da honra! E, com a tira de almaço entre os dedos, junto da varanda, considerou um momento a Torre, as poeirentas frestas engradadas de ferro, as resistentes ameias, ainda inteiras, onde agora adejava um bando de pombas... Quantas manhãs, às frescas horas da alva, o velho Tructesindo se encostara àquelas ameias, então novas e brancas! Toda a terra em redor, semeada ou bravia, decerto pertencia ao poderoso Rico-homem. E o Pereira, nesse tempo colono ou servo, só abordava a seu Senhor de joelhos e tremendo! Mas não lhe pagava um conto cento e cinqüenta mil réis de sonora moeda do Reino. Também, que diabo, o vovô Tructesindo não precisava... Quando as sacos rareavam nas arcas, e as acostados rosnavam por tardança de soldo, o leal Rico-homem, para se prover, tinha as tulhas e as adegas dos Concelhos mal defendidos - ou então, numa volta de estrada, o ovençal voltando de recolher as rendas reais, o bufarinheiro genovês com os machos ajoujados de trouxas. Por baixo da Torre (como lhe contara o papá) ainda negrejava a masmorra feudal, meio atulhada, mas com restos de correntes chumbadas aos pilares, e na abóbada a argola de onde pendia a polé, e no lajedo os buracos em que se escorava o potro. E, nessa surda e úmida cova, ovençal, bufarinheiro, Clérigos e mesmo burgueses de foro uivavam sob o açoite ou no torniquete, até largarem agonizando o derradeiro morabitino. Ah! a romântica Torre, cantada tão meigamente ao luar pelo Videirinha, quantos tormentos abafara!...

E de repente, com um berro, Gonçalo agarrou de sobre a mesa um volume de Walter Scott, que atirou sem piedade, como uma pedra, contra a tronco de uma faia. É que descortinara a gato da Rosa cozinheira, trepado, de unhas fincadas num ramo, arqueando a espinha, para assaltar um ninho de melros.

Quando nessa tarde o Fidalgo da Torre, airoso no seu fato novo de montar, polainas de couro polido, luvas de camurça branca, parou a égua ao portão da Feitosa - um velho todo esfarrapado, com longos cabelos caídos pelos ombros e imensas barbas espalhadas pelo peito, imediatamente se ergueu do banco de pedra onde comia rodelas de chouriço, bebendo de uma cabaça, para o avisar que o Sr. Sanches Lucena e a Sra. D. Ana andavam por fora, de carruagem. Gonçalo pediu ao velho que puxasse o ferro da sineta. E, entregando um cartão ao moço, que entreabrira a rica grade dourada, com um S e um L entrelaçados sob uma coroa de conde:

- O Sr. Sanches Lucena, bem?

- O Sr. Conselheiro, agora, um pouquinho melhor...

- O quê? Esteve doente?

- Pois o Sr. Conselheiro, aqui há três ou quatro semanas, andou muito agoniado...

- Oh! Sinto muito... Diga ao Sr. Conselheiro que sinto muitíssimo!

Chamou o velho que repicara a sineta para o recompensar com um tostão. E, interessado por aquelas barbaças e melenas de mendigo de Melodrama:

- Vossemecê pede esmola por estes sítios?

O homem ergueu para ele os olhos sujos, avermelhados da poeira e da sal, mas risonhos, quase contentes:

- Também me chego pela Torre, meu Fidalgo. E, graças a Deus, lá me fazem muito bem.

- Então quando lá voltar diga ao Bento... Você conhece o Bento?

Se conhecia! E a Sra. Rosa...

- Pois diga ao Bento que lhe dê umas calças, homem! Você assim, com essas calças, não andadecente.

O velho riu, num riso lento e desdentado, mirando com gosto os sórdidos farrapos que lhe trapejavam nas canelas, mais denegridas e secas que galhos de inverno:

- Rotinhas, rotinhas... Mas o se Dr. Júlio diz que me ficam assim bem. O Sr. Dr. Júlio, quando lápassa, sempre me tira o retrato na máquina. Ainda na semana passada... Até com uns pedaços de grilhões dependuradas do pulso, e uma espada erguida na mão... Parece que para mostrar ao Governo.

Gonçalo, rindo, picou a égua. Pensava agora em alongar por Valverde: depois recolheria por Vila-Clara, e tentaria o Gouveia a partilhar na Torre um cabrito assado no espeto de cerejeira, para que ele na véspera, na Assembléia, convidara o Manuel Duarte e o Titó. Mas ao atravessar a "Cruz das Almas", onde a estrada de Corinde, tão linda, com as suas filas de álamos, cruza a ladeira de Valverde, parou - notando ao fundo, para o lado de Corinde, como o confuso esbarro de uma carrada de lenha, e uma carriola de açougue, e uma mulher de lenço escarlate bracejando sobre a albarda dum burro, e dois lavradores de enxada às costas. E, de repente, todo o encalhe se despegou - a mulher trotando no seu burrinho, logo sumida numa volta de arvoredo; a carriola solavancando num rolo leve de poeira; o carro avançando para a "Cruz das Almas" a chiar tardamente; os cavadores descendo para uma chã através das leiras de feno... Na estrada só restou, como desamparado, um homem de jaqueta ao ombro, que se arrastava penosamente, coxeando. Gonçalo trotou, com curiosidade:

- Que foi?... Vossemecê que tem?

(continua...)

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