Por Eça de Queirós (1901)
Para outra terra! Com outra porca!... Vazio, negramente vazio de todo o pensar, de todo o sentir, de todo o querer – botei aos tombos, como um tonel vazio, na corrente açodada do Boulevard, até que encalhei num banco da Praça da Madalena, onde tapei com as mãos, a que não sentia a febre, os olhos a que não sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando já se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, de entre todas estas confusas ruínas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas as ruínas – a idéia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos entorpecidos dum ressuscitado. E, numa recordação que me escaldava a alma, encomendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o colarinho, ensopado pelo ardor daquela tarde de Julho, entre a poeira da Madalena, pensei com desconforto: - “Santíssimo Nome de Deus! Que imensa sede me fez esta desgraça!...” De manso acenei ao moço: - “Antes do Borgonha, uma garrafa de Champanhe, com muito gelo, e um grande copo!...” Creio que aquele Champanhe se engarrafara no Céu onde corre perenemente a fresca fonte da Consolação, e que na garrafa bendita que me coube penetrara, antes de arrolhada, um jorro largo dessa fonte inefável. Jesus! que transcendente regalo, o daquele nobre copo, embaciado, nevado, a espumar, a picar, num brilho de ouro! E depois, garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Conhaque! E depois Hortelã-Pimenta granitada em gelo! E depois um desejo arquejante de espancar, com o meu rijo marmeleiro de Guiães, a porca que fugira com outra porca! Dentro da tipóia fechada, que me transportou num galope ao 202, não sufoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde via, furiosamente via a mata imensa de pêlo amarelo, em que a minha alma uma tarde se perdera, e três meses se debatera, e para sempre se emporcalhara! Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava tão desesperadamente a besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dois moços acudiram e me sustiveram, recebendo pelos ombros, sobre as nucas servis, os restos cansados da minha cólera.
Em cima, repeli a solicitude do Grilo que tentava impor ao siô Zé Fernandes, a Zé Fernandes de Guiães, a imensa indignidade dum chá de macela! E estirado no leito de D.Galião, com as botas sobre o travesseiro, o chapéu alto sobre os olhos, ri, num doloroso riso, deste Mundo burlesco e sórdido de Jacintos e de Colombes! E de repente senti uma angústia horrenda. Era ela! Era a Madame Colombe, que esfuziara da chama da vela, e saltara sobre o meu leito, e desabotoara o meu colete, e arrombara as minhas costelas, e toda ela, com as saias sujas, mergulhara dentro do meu peito e abocara o meu coração, e chupava a sorvos lentos, como na rua do Hélder, o sangue do meu coração! Então, certo da Morte, ganindo pela tia Vicência, pendi do leito para mergulhar na minha sepultura, que, através da névoa final, eu distinguia sobre o tapete – redondinha, vidrada, de porcelana e com asa. E, sobre a minha sepultura, que tão irreverentemente se assemelhava ao meu vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, num esforço ultra-humano, com um rugido, sentindo que, não somente toda a entranha, mas a alma se esvaziava toda, vomitei Madame Colombe! Recaí sobre o leito de Galião...Recarreguei o chapéu sobre os olhos para não sentir os raios do Sol... Era um sol novo, um sol espiritual, que se erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma criancinha docemente embalada num berço de verga pelo Anjo da guarda.
De manhã, lavei a pele num banho profundo, perfumado com todos os aromas do 202, desde folhas de limonete da Índia até essência de jasmim de França; e lavei a alma com uma rica carta da tia Vicência, em letra farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da compota de ginja que nunca lhe saíra tão fina, e da alegre fogueira do pátio em noite de S. João, e da menininha muito gorda e cabeluda que viera do Céu para a minha afilhada Joaninha. Depois, à janela, bem limpo de alma e de corpo, numa quinzena de sedinha branca, tomando chá de Naïpò, respirando os rosais do jardim revividos pela chuva da madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me emporcalhara, na rua do Hélder, com um estardalho muito magro e muito tisnado! E concluí que padecera duma longa sezão, sezão da carne, sezão da imaginação, apanhada num charco de Paris – nesses charcos que se formam através da Cidade com as águas mortas, os limos, os lixos, os tortulhos e os vermes duma Civilização que apodrece.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.