Por Camilo Castelo Branco (1864)
- Lê, e no fim falaremos - disse Afonso. E eu li:
Não respondas. A vil, a abjecta, a desgraçada, é generosa. Não respondas. Ri e escuta.
Abandonada por ti, enganada, não sei por que nem com que fim, por tua mãe, acheime fraca para cruzar os braços e esperar a morte. À borda do abismo. vi uma tábua de salvação. Sabia que, segurando-me nela, as mãos se rasgariam em chagas incuráveis.
Sabia-o; mas agarrei-me à tábua de salvação. Escutei a desgraça; que não tinha outro anjo, nem outro demónio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ela me deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos ouvidos, e do seio, onde me roía a serpente da soledade e do desabrigo.
Vi árvores, vi estrelas, ouvi os cânticos da Terra e os amorosos murmúrios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a única mulher sem mãe, sem pai, sem amigo, sem coração que se abrisse às cinzas do meu. Não importa. Via o Sol no firmamento; e, para além do Sol, a infinita luz dos que bem-disseram a mão do Senhor, que, à sua vontade, desdobra um crepe de trevas sobre os corações, que, em inocência, não ousam interrogá-lo como Job!
- Demais a mais - reflecti eu -, lida nos livros sagrados!... Posso, sem indiscrição, perguntar se a autora desta carta morreu ou vive escorreitamente? - Espera que a concatenação dos factos te elucide - respondeu Afonso.
Prossegui, lendo, com espanto maior que o meu costume, se acerto de topar coisas escritas por pessoas de juizo duvidoso: Transbordou um dia a amargura de minha alma. Não sabia onde me levava a vertigem. Corri léguas. As árvores que gemiam um som, as fontes que tinham uma voz, os trovões que estalavam do céu de bronze, as catadupas que bramiam no despenhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se sentavam; orei à cruz de pedra que está na quebrada da serra. E não te vi. Dois meses te procurei, sem balbuciar o teu nome. E,. quando há um ano te avistei encostado ao ombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de desgraçada disse-me: se ela quiser que tu te percas por ele, amanhã não terás honra, nem família, nem marido, nem criatura sobre a Terra que te não insulte.
E escrevi-te, Afonso! Aquele papel era uma renunciação, aquelas palavras queriam dizer dá-me a perdição como salvamento; dá-me a infâmia como glória; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que ele me aclama virtuosa; todas as devassas me julgarão indigna delas; eu, contente da minha desonra, estenderei benignamente a mão a todas as miseráveis que ma cuspirem.
E tu, Afonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do cadáver, puseste-lhe sobre o peito um pé, calcaste, viste-lhe nos lábios o sangue do coração, e escarraste-lhe!
Voltei do outro mundo. A mulher que viste há pouco era um fantasma. Os cabelos negros que adornaste com três flores naqueles formosos quinze anos caíram-te aos pés.
As flores vêm aradas do fogo do inferno. O fantasma voltou às suas labaredas, para nunca mais te crestar o riso dos lábios com as chamas dos seus olhos. Vai tu ao Céu e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe que me dê eternidade para a expiação e eternidade para o amor Adeus."
Não sei bem dizer de onde me vieram as lágrimas. Sei que terminei a leitura da carta já quando os olhos mal discriminavam as letras.
Como a gente, às vezes, chora!...
Era o estilo!
XI
Sorriu Afonso do meu melindroso sentimentalismo, retorceu distraidamente os longos bigodes por sobre a barba listrada de fascículos brancos, afogueou o seu cachimbo de barro negro e continuou:
"Eu é que verdadeiramente chorava, quando acabei de ler esse papel. Ficas sabendo a impressão que em mim fez a carta de Teodora. Não há vergonha que eu omita nesta confissão geral. Sou o juiz do homem que fui. Julguei-me e condenei-me ao opróbrio de levantar da lama o coração velho e mostrá-lo com náusea ao enojo dos que vão passando..."
- Mas eu não vejo aí coisa indecorosa de que te envergonhes!... - atalhei. - Vês, pelo menos, a baixeza do meu espirito, senão antes a crassa sandice de pensar que as acusações de Teodora estavam justificadas por essa frandulagem de palavras sonoras e apóstrofes melodramáticas. O castigo da minha misérrima estupidez virá depois... Lá chegaremos.
"Li terceira vez a carta e abri a janela do meu quarto. O vento ramalhava nas carvalheiras e o céu daquela noite não tinha uma estrela. Apeteci embrenhar-me na escuridão do arvoredo. Abri de manso a porta do meu quarto e, pé ante pé, ganhei a varanda, de onde era fácil o saltar à rua. Acabava eu de saltar, quando do escuro de uma janela contígua à varanda me surdiu a voz de Mafalda. "Não tinhas necessidade de saltar, primo", disse ela. "Chamasses, que se te abriam as portas.
""Estás a pé ainda, minha prima?", perguntei eu corrido da surpresa e algum tanto contrariado da espionagem. "Nunca me deito mais cedo", respondeu ela com brandura.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.