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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Mas tu d'esse casamento não tinhas a menor indicação, a menor suspeita?

- Nenhuma... Soube-o de repente pela carta d'ella em Sevilha.

E era esta a formidavel nova annunciada por Carlos, a nova que elle logo contára de madrugada ao Ega, depois dos primeiros abraços, em Santa Apolonia. Maria Eduarda ia casar.

Assim o annunciára ella a Carlos n'uma carta muito simples, que elle recebera na quinta dos VillaMedina. Ia casar. E não parecia ser uma resolução tomada arrebatadamente sob um impulso do coração; mas antes um proposito lento, longamente amadurecido. Ella

alludia n'essa carta a ter «pensado muito, reflectido muito...» De resto o noivo devia ir perto dos cincoenta annos. E Carlos portanto via alli a união de dois sêres desilludidos da vida, maltratados por ella, cansados ou assustados do seu isolamento, que, sentindo um no outro qualidades sérias de coração e de espirito, punham em commum o seu resto de calor, d'alegria e de coragem para affrontar juntos a velhice...

- Que idade tem ella?

Carlos pensava que ella devia ter quarenta e um ou quarenta e dois annos. Ella dizia na carta «sou apenas mais nova que o meu noivo seis annos e tres mezes». Elle chamava-se Mr. de Trelain. E era evidentemente um homem d'espirito largo, desembaraçado de prejuizos, d'uma benevolencia quasi misericordiosa, porque quizera Maria, conhecendo bem os seus erros.

- Sabe tudo? exclamou Ega, que saltára do parapeito.

- Tudo não. Ella diz que Mr. de Trelain conhecia do seu passado «todos aquelles erros em que ella cahira inconscientemente». Isto dá a entender que não sabe tudo... Vamos andando, que se faz tarde, e quero ainda vêr os meus quartos.

Desceram ao jardim. Um momento seguiram calados pela alea onde cresciam outr'ora as roseiras de Affonso. Sob as duas olaias

ainda existia o banco de cortiça; Maria sentára-se alli, na sua visita ao Ramalhete, a atar n'um ramo flôres que ia levar como reliquia. Ao passar Ega cortou uma pequenina margarida que ainda floria solitariamente.

- Ella continúa a viver em Orléans, não é verdade?

Sim, disse Carlos, vivia ao pé d'Orléans, n'uma quinta que lá comprára, chamada Les Rosières. O noivo devia habitar nos arredores algum pequeno château. Ella chamava-lhe «visinho». E era naturalmente um gentilhomme campagnard, de familia séria, com fortuna...

Ella só tem o que tu lhe dás, está claro.

- Creio que te mandei contar tudo isso, murmurou Carlos. Emfim ella recusou-se a receber parte alguma da sua herança... E o Villaça arranjou as coisas por meio d'uma doação que lhe fiz, correspondente a doze contos de reis de renda...

- É bonito. Ella fallava de Rosa na carta?

- Sim, de passagem, que ia bem... Deve estar uma mulher.

- E bem linda!

Iam subindo a escadinha de ferro torneada que levava do jardim aos quartos de Carlos. Com a mão na porta da vidraça, Ega parou ainda, n'uma derradeira curiosidade:

- E que effeito te fez isso?

Carlos accendia o charuto. Depois atirando o phosphoro por cima da varandinha de ferro onde uma trepadeira se enlaçava:

- Um effeito de conclusão, de absoluto remate. É como se ella morresse, morrendo com ella todo o passado, e agora renascesse sob outra fórma. Já não é Maria Eduarda. É Madame de Trelain, uma senhora franceza. Sob este nome, tudo o que houve fica sumido, enterrado a mil braças, findo para sempre, sem mesmo deixar memoria... Foi o effeito que me fez. - Tu nunca encontraste em Paris o snr. Guimarães?

- Nunca. Naturalmente morreu.

Entraram no quarto. Villaça, na supposição de Carlos vir para o Ramalhete, mandára-o preparar; e todo elle regelava - com o marmore das commodas espanejado e vazio, uma vela intacta n'um castiçal solitario, a colcha de fustão vincada de dobras sobre o leito sem cortinados. Carlos pousou o chapéo e a bengaIa em cima da sua antiga mesa de trabalho. Depois, como dando um resumo:

- E aqui tens tu a vida, meu Ega! N'este quarto, durante noites, soffri a certeza de que tudo no mundo acabára para mim... Pensei em me matar. Pensei em ir para a Trappa. E tudo isto friamente, com uma conclusão logica. Por fim dez annos passaram, e aqui estou outra vez...

Parou diante do alto espelho suspenso entre as uas columnas de carvalho lavrado, deu um geito ao bigode, concluiu, sorrindo melancolicamente:

- E mais gordo!

Ega espalhava tambem pelo quarto um olhar pensativo:

- Lembras-te quando appareci aqui uma noite, n'uma agonia, vestido de Mephistopheles?

Então Carlos teve um grito. E a Rachel, é verdade! A Rachel? Que era feito da Rachel, esse lirio d'Israel? Ega encolheu os hombros:

- Para ahi anda, estuporada...

Carlos murmurou - «coitada! E foi tudo o que disseram sobre a grande paixão romantica do Ega.

Carlos no emtanto fôra examinar, junto da janella, um quadro que pousava no chão, para alli esquecido e voltado para a parede. Era o retrato do pai, de Pedro da Maia, com as suas luvas de camurça na mão, os grandes olhos arabes na face triste e pallida que o tempo amarellára mais. Collocou-o em cima d'uma commoda. E atirando-lhe uma leve sacudidella com o lenço:

(continua...)

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