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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Carlos teve uma exclamação de saudade. Pobre marquez! Fôra uma das suas fortes impressões, n'esses ultimos annos – aquella morte do marquez, sabida de repente ao almoço, n'uma banal noticia de jornal!... E através do Rocio, andando mais devagar, recordavam outros desapparecimentos: a D. Maria da Cunha, coitada, que acabára hydropica; o D. Diogo, casado por fim com a cozinheira; o bom Sequeira, morto uma noite n'uma tipoia ao sahir dos cavallinhos...

- E outra coisa, perguntou Ega. Tens visto o Craft em Londres ?

- Tenho, disse Carlos. Arranjou uma casa muito bonita ao pé de Richmond... Mas está muito avelhado, queixa-se muito do figado. E, desgraçadamente, carrega de mais nos alcools. É uma pena!

Depois perguntou pelo Taveira. Esse lindo moço, contou o Ega, tinha agora por cima mais dez annos de Secretaria e de Chiado.Mas sempre apurado, já um bocado grisalho, mettido continuamente com alguma hespanhola, dando bastante a lei em S. Carlos, e

murmurando todas as tardes na Havaneza, com um ar dôce e contente - «isto é um paiz perdido»! Emfim um bom typosinho de lisboeta fino.

- E a besta do Steinbroken?

- Ministro em Athenas, exclamou Carlos, entre as ruinas classicas!

E esta idéa do Steinbroken, na velha Grecia, divertiu-os infinitamente. Ega imaginava já o bom Steinbroken, têso nos seus altos collarinhos, affirmando a respeito de Socrates, com prudencia: «Oh,il est très fort, il est excessivement fort!» Ou ainda, a proposito da batalha das Thermopylas, rosnando, com medo de se comprometter: «C'est très grave, c'est excessivement grave!» Valia a pena ir á Grecia para vêr!

Subitamente Ega parou:

- Ora ahi tens tu essa Avenida! Hein?... Já não é mau!

N'um claro espaço rasgado, onde Carlos deixára o Passeio Publico pacato e frondoso - um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um traço côr d'assucar na vibração fina da luz de inverno: e os largos globos dos candieiros que o cercavam, batidos do

sol, brilhavam, transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar. Dos dois lados seguiam, em alturas desiguaes, os pesados predios, lisos e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde negrejavam piteiras de zinco, e pateos de

pedra, quadrilhados a branco e preto, onde guarda-portões chupavam o cigarro: e aquelles dois hirtos renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as familias que outr'ora se immobilisavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa «da uma», ouvindo a

Banda, com casimiras e sêdas, no catitismo domingueiro. Todo o lagedo reluzia como cal nova. Aqui e além um arbusto encolhia na aragem a sua folhagem pallida e rara. E ao fundo a collina verde, salpicada d'arvores, os terrenos de Valle de Pereiro, punham um brusco remate campestre áquelle curto rompante de luxo barato - que partira para transformar a velha cidade, e estacára logo, com o fôlego curto, entre montões de cascalho. Mas um ar lavado e largo circulava; o sol dourava a caliça; a divina serenidade do azul sem igual tudo cobria e adoçava. E os dois amigos sentaram-se n'um banco, junto de uma verdura que orlava a agua d'um tanque esverdinhada e molle. Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flôres na lapella, a calça apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro. Era toda uma geração nova e miuda que Carlos não conhecia. Por vezes Ega murmurava um ólá!, acenava com a bengala. E

elles iam, repassavam, com um arzinho timido e contrafeito, como mal acostumados áquelle vasto espaço, a tanta luz, ao seu proprio chic. Carlos pasmava. Que faziam ,alli, ás horas de trabalho, aquelles moços tristes, de calça esguia? Não havia mulheres. Apenas n'um banco adiante uma creatura adoentada, de lenço e chale, tomava o sol; e duas matronas, com vidrilhos no mantelete, donas de casa de hospedes, arejavam um cãosinho felpudo. O que attrahia pois alli aquella mocidade pallida? E o que sobretudo o espantava eram as botas d'esses cavalheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fóra da calça collante com pontas aguçadas e reviradas como prôas de barcos varinos...

- Isto é phantastico, Ega!

Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples fórma de botas explicava todo o Portugal contemporaneo. Via-se

(continua...)

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