Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo tambem, indifferente e esquecido.

- É verdade, Damaso... Como vai isso?

- Por aqui, n'esta semsaboria... E então com demora?

- Umas semanas.

- Estás no Ramalhete?

- No Braganza. Mas não te incommodes, eu ando sempre por fóra.

- Pois sim senhor!... Eu tambem estive em Paris, ha tres mezes, no Continental...

- Ah!... Bem, estimei vêr-te, até sempre! Adeus, rapazes. Tu estás bom, Carlos, estás com boa cara!

- É dos teus olhos, Damaso.

E nos olhos do Damaso, com effeito, parecia reviver a antiga admiração, arregalados, acompanhando Carlos, estudando-lhe por traz a sobrecasaca, o chapéo, o andar, como no tempo em que o Maia era para elle o typo supremo do seu querido chic «uma d'essas coisas que só se vêem lá fóra...»

- Sabes que o nosso Damaso casou? disse o Ega um pouco adiante, travando outra vez do braço de Carlos.

E foi um espanto para Carlos. O quê! O nosso Damaso! Casado!?... Sim, casado com uma filha dos condes d'Agueda, uma gente arruinada, com um rancho de raparigas. Tinham-lhe impingido a mais nova. E o optimo Damaso, verdadeira sorte grande para aquella distincta familia, pagava agora os vestidos das mais velhas.

- É bonita?

- Sim, bonitinha... Faz ahi a felicidade d'um rapazote sympathico, chamado Barroso.

- O quê, o Damaso, coitado...

- Sim, coitado, coitadinho, coitadissimo... Mas como vês, immensamente ditoso, até tem engordado com a perfidia!

Carlos parára. Olhava, pasmado para as varandas extraordinarias d'um primeiro andar, recobertas como em dia de procissão, de sanefas de pano vermelho onde se entrelaçavam monogrammas. E ia indagar - quando, d'entre um grupo que estacionava ao portal d'esse predio festivo, um rapaz d'ar estouvado, com a face imberbe cheia d'espinhas carnaes, atravessou rapidamente a rua para gritar ao Ega, suffocado de riso: - Se você fôr depressa ainda a encontra ahi abaixo! Corra!

- Quem?

- A Adosinda!... De vestido azul, com plumas brancas no chapéo... Vá depressa... O João Elyseu metteu-lhe a bengala entre as pernas, ia-a fazendo estatelar no chão, foi uma scena... Vá depressa, homem!

Com duas pernadas esguias o rapaz recolheu ao seu rancho - onde todos, já calados, com uma curiosidade de provincia, examinavam aquelle homem de tão alta elegancia que acompanhava o Ega e que nenhum conhecia. E Ega, no emtanto, explicava a Carlos as varandas e o grupo:

- São rapazes do Turf. É um club novo, antigo Jockey da travessa da Palha. Faz-se lá uma batotinha barata, tudo gente muito sympathica... E como vês estão sempre assim preparados, com sanefas e tudo, para se acaso passar por ahi o senhor dos Passos.

Depois, descendo para a rua Nova do Almada, contou o caso da Adosinda. Fôra no Silva, havia duas semanas, estando elle a cear com rapazes depois de S. Carlos, que lhes apparecera essa mulher inverosimil, vestida de vermelho, carregando sensatamente nos rr, mettendo rr em todas as palavras, e perguntando pelo snr. virrsconde... Qual virrsconde? Ella não sabia bem. Erra um virrsconde que encontrrárra no Crrolyseu. Senta-se, offerecem-lhe champagne, e D. Adosinda começa a revelar-se um sêr prodigioso. Fallavam

de politica, do ministerio e do deficit. D. Adosinda declara logo que conhece muito bem o deficit, e que é um bello rapaz... O deficit bello rapaz - immensa gargalhada! D. Adosinda zanga-se, exclama que já fôra com elle a Cintra, que é um perfeito cavalheiro, e empregado no Banco Inglez... O deficit empregado no Banco Inglez - gritos, uivos, urros! E não cessou esta gargalhada continua, estrondosa, phrenetica, até ás cinco da manhã em que D. Adosinda fôra rifada e sahira ao Telles!... Noite soberba!

- Com effeito, disse Carlos rindo, é uma orgia grandiosa, lembra Heliogabalo e o Conde d'Orsay...

Então Ega defendeu calorosamente a sua orgia. Onde havia melhor, na Europa, em qualquer civilisação?

Sempre queria vêr que se passasse uma noite mais alegre em Paris, na desoladora banalidade do GrandTreize, ou em Londres, n'aquella correcta e massuda semsaboria do Bristol! O que ainda tornava a vida toleravel era de vez em quando uma boa risada. Ora na Europa o homem requintado já não ri, - sorri regeladamente, lividamente. Só nós aqui, n'este canto do mundo barbaro, conservamos ainda esse dom supremo, essa coisa bemdita e consoladora - a barrigada de riso!

- Que diabo estás tu a olhar?

Era o consultorio, o antigo consultorio de Carlos - onde agora, pela taboleta, parecia existir um pequeno atelier de modista. Então bruscamente os dois amigos recahiram nas recordações do passado. Que estupidas horas Carlos alli arrastára, com a Revista dos Dois

Mundos, na espera vã dos doentes, cheio ainda de fé nas alegrias do trabalho!... E a manhã em que o Ega lá apparecera com a sua esplendida pelliça, preparando-se para transformar, n'um só inverno, todo o velho e rotineiro Portugal!

- Em que tudo ficou!

- Em que tudo ficou! Mas rimos bastante!

Lembras-te d'aquella noite em que o pobre marquez queria levar ao consultorio a Paca, para utilisar emfim o divan, movel de serralho?...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...258259260261262...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →