Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Acresce a isto que no exército russo tudo é mau, excepto o soldado e a arma. Os generais são estúpidos, a administração é corrupta. Quando o soldado se bate, é sacrificado pela inépcia dos chefes, quando se não bate, é esfomeado pela fraude do comissariado. O que se conta dos planos dos grão-duques que comandam é tão atroz como o que se diz dos administradores que fornecem. O desastre de Plevna é um erro idiota do grão-duque: mandar milhares de soldados atacar posições elevadas, entrincheiradas, ocupadas por artilharia e por um número superior de gente – é o mesmo que condenar soldados à morte em conselho de guerra. Por outro lado, deixá-los um e dois dias sem ração, sem água, ou com mantimentos podres e água insalubre, sem tendas e sem provisões – e o mesmo que espalhar voluntariamente num exército os germes de uma epidemia. Em qualquer dos casos, é crime!

O que perdeu a Rússia, nesta campanha de quatro meses, foi o excesso impaciente de ambição: quiseram fazer ao mesmo tempo muitas coisas brilhantes: atravessar o Danúbio, cercar Rustchuk, invadir a Bulgária, passar os Balcãs, investir Sistova. Para todas estas empresas tiveram que dividir o exército, fraccioná-lo, enfraquecê-lo. Em lugar de conservar na mão um grosso cacete sólido, desfizeram-no numas poucas de frágeis bandines.

Os Turcos, bons estratégicos, reuniram fortes massas e foram quebrando e destruindo uma a uma estas forças dispersas. Os Russos, reconhecendo agora o seu erro, concentram-se no Danúbio e preparam-se para uma acção mais concreta. Mas e tarde: o Inverno adianta-se, e esta campanha de Verão, com os sacrifícios que custou, os milhões que absorveu, as vidas que destruiu – está perdida: é como uma bola de sabão quebrada, que produz nada, nada, nada!

De quem é a culpa? Do regime russo, incontestavelmente do absolutismo. Num país em que nada depende do mérito e tudo depende da posição do nascimento, o resultado é este: em lugar de dar o comando a um estratégico, dá-se a um grão-duque idiota, porque é grão-duque; em lugar de confiar a administração a uma inteligência, confia-se a um príncipe, porque é príncipe. O grão-duque é batido sempre e o príncipe desorganiza tudo. É lógico. E todos os correspondentes ingleses, os mais hábeis, os mais experientes de coisas militares, são acordes em dizer que, se a administração militar continua nas mesmas mãos inábeis e se os planos da campanha continuam a ser feitos pelos grão-duques, a Rússia pode sofrer a desfeita histórica de ser posta fora dos domínios turcos, à coronhada!

Em Sampetersburgo começa-se a murmurar com muito despeito da direcção da campanha. E é bem possível que um desastre militar fosse a origem de uma transformação social. O Russo é já bastante instruído para saber perfeitamente que vive sob um regime odioso. As conspirações repetidas que, de tempos a tempos, vêm abortar nas mãos da Polícia são as explosões impacientes e extemporâneas de um forte sentimento, que trabalha surdamente a massa da nação. Esta guerra actual foi considerada sem entusiasmo: viam-se muito bem os sacrifícios que ela custava, sem se ter uma grande fé nas vantagens que ela traria.

Mas, depois de começada, naturalmente, o grande orgulho nacional exaltou-se e interessouse. Se a Rússia agora se visse derrotada pelo Turco, isto é, pelo seu inimigo de raça e de religião, pelo desprezado Turco, atribuiria logo a derrota aos erros do Governo e aos vícios do regime, e uma grande revolução seria provável.

Não é de espantar que o mesmo exército concorresse para essa revolução. O exército conhece as suas altas qualidades e está descontente pela má direcção que o leva aos desastres» Além disso, para a multidão de oficiais, moços, entusiastas, instruídos, apaixonados de ideias modernas, esta campanha é um complemento de educação liberal.

Em primeiro lugar, acostumam-se a ver de perto os vícios da administração. As falsificações dos comissariados, a vergonhosa qualidade das rações, a insuficiência dos socorros sanitários, a desorganização das ambulâncias, das pagadorias, de tudo; os hospitais apinhados, a imbecilidade visível dos generais – não são condições favoráveis para aumentar o respeito pelo regime autocrático. Além disso, o país em que operam é um ninho de republicanos, de socialistas, de descontentes. Belgrado, Bucareste, etc.», fervilham de espíritos revolucionários: o contacto com esse mundo, com a multidão de correspondentes, de jornalistas, a leitura mais assídua dos periódicos, etc., são outras tantas ocasiões de fazer no espírito dessa mocidade militar um lento trabalho de oposição ao regime que os governa tão mal! E esta classe enérgica voltaria à Rússia cheia de esperanças de emancipações e de ideias de democracia.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2425262728...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →