Por Eça de Queirós (1878)
- Está de apetite, Sra. Joana, está de apetite! - dizia Juliana, remexendo o caldo devagarinho,com gula. A cozinheira de pé, com os braços cruzados
sobre o seu peito abundante, regozijava-se:
- O que se quer é que esteja a gosto.
- Está a preceito.
Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras. - E a campainha da porta que já tinha tocado, tornou a tilintar discretamente.
Juliana não se mexeu. Bafos de aragem quente entravam; ouvia-se ferver a panela no fogão, e fora o martelar incessante da forja; às vezes o arrulhar triste de duas rolas que viviam na varanda, numa gaiola de vime, punha na tarde abrasada uma sensação de suavidade.
A campainha retilintou, sacudida com impaciência.
- Com a cabeça, burro! - disse Juliana.
Riram. Joana fora sentar-se à janela, numa cadeira baixa; estendia os seus grossos pés, calçados de chinelas de ourelo; coçava-se devagarinho, no sovaco, toda repousada.
A campainha retiniu violentamente.
- Fora, besta! - rosnou Juliana, muito tranqüila.
Mas a voz irritada de Luísa chamou debaixo:
- Juliana!
- Que nem uma pessoa pode tomar a sustância sossegada! Raio de casa! Irra!
- Juliana! - gritou Luísa.
A cozinheira voltou-se, já assustada:
- A senhora zanga-se, Sra. Juliana.
- Que a leve o diabo!
Limpou os beiços gordurosos ao avental, desceu furiosa.
- Você não ouve, mulher? Estão a bater há uma hora!
Juliana arregalou os olhos espantada; Luísa tinha vestido um roupão novo de fular cor de castanho, com pintinhas amarelas!
- "Temos novidade! Temo-la grossa!" - pensou Juliana pelo corredor.
A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao peito, um embrulho debaixo do braço, estava o "sujeito do negócio das minas!" - Aquele sujeito de ontem! - veio dizer, toda pasmada.
- Mande entrar...
- "Viva!" - pensou.
Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de júbilo:
- Está cá o peralta de ontem! Está cá outra vez! Traz um embrulho! Que lhe parece, Sra. Joana?Que lhe parece?
- Visitas... - disse a cozinheira.
Juliana teve um risinho seco. Sentou-se, acabou o seu caldo, à pressa.
Joana indiferente cantarolava pela cozinha, o arrulhar das rolas continuava langoroso e débil.
- Pois, senhores, isto vai rico! - disse Juliana.
Esteve um momento a limpar os dentes com a língua, o olhar fixo, refletindo. Sacudiu o avental, e desceu ao quarto de Luísa; o seu olhar esquadrinhador avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas da despensa; podia subir, beber um trago de bom vinho, engolir dois ladrilhos de marmelada... Mas possuía-a uma curiosidade urgente, e, em bicos de pés, foi agachar-se à porta que dava para a sala, espreitou. O reposteiro estava corrido por dentro; podia apenas sentir a voz grossa e jovial do sujeito. Foi de volta, pelo corredor, à outra porta, ao pé da escada; pôs o olho à fechadura, colou o ouvido à frincha. O reposteiro dentro estava também cerrado.
- "Os diabos calafetaram-se!" - pensou.
Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois que se fechava uma vidraça. Os olhos faiscavam-lhe. Uma risada de Luísa sobressaiu; em seguida um silêncio; e as vozes recomeçaram num tom sereno e contínuo. De repente o sujeito ergueu a fala, e entre as palavras que dizia, de pé decerto, passeando, Juliana ouviu claramente: "Tu, foste tu!" - Oh, que bêbeda!
Um tilintlim tímido da campainha, ao lado, assustou-a. Foi abrir. Era Sebastião muito vermelho do sol, com as botas cheias de pó.
- Está? - perguntou, limpando a testa suada.
- Está com uma visita, Sr. Sebastião!
E cerrando a porta sobre si, mas baixo:
- Um rapaz novo que já cá esteve ontem, um janota! Quer que vá dizer?
- Não, não, obrigado, adeus.
Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se à porta, a orelha contra a madeira, as mãos atrás das costas; mas a conversação, sem saliência de vozes; tinha um rumor tranqüilo e indistinto. Subiu à cozinha.
- Tratam-se por tu! - exclamou. - Tratam-se por tu, Sra. Joana! E muito excitada:
- Isto vai à vela! Cáspite! Assim é que eu gosto delas!
O sujeito saiu às cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a porta, veio a correr; viu Luísa no patamar, debruçada no corrimão, dizendo para baixo, com muita intimidade:
- Bem, não falto. Adeus.
Ficou então tomada de uma curiosidade que a alterava como uma febre. Toda a tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Luísa com olhares de lado. Mas Luísa, com um roupão de linho mais velho, parecia serena, muito indiferente.
- "Que sonsa!"
Aquela naturalidade despertava a sua bisbilhotice.
- "Eu hei de te apanhar, desavergonhada!" - calculava.
Afigurou-se-lhe que Luísa tinha os olhos um pouco pisados. Estudava-lhe as posições, os tons de voz. Viu-a repetir o assado - pensou logo:
- "Abriu-lhe o apetite"!
E quando Luísa ao fim do jantar se estendeu na voltaire com um ar quebrado.
- "Ficou derreada".
Luísa que nunca tomava café, quis nessa tarde "meia chávena, mas forte, muito forte".
- Quer café! - veio ela dizer à cozinheira, toda excitada. - Tudo à grande. E do forte. Quer doforte! Ora o diabo!
Estava furiosa.
- Todas o mesmo! Uma récua de cabras!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.