Por Eça de Queirós (1870)
Se eu comunicasse à polícia o desaparecimento do meu amigo, é quase seguro que elaencontraria meio de o descobrir. Mas não equivaleria isto denunciar simultaneamente como criminosos O mascarado alto e os seus companheiros, que eu todavia considero inocentes?
A carta de F..., apesar da revelação que encerra sobre o desa parecimento das 2300libras, confirma por outro lado a convicção em que eu me acho.
Na carta de F... encontra-se o seguinte período: «Ocorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era efec tivamente ou se não eraum amigo íntimo que eu tinha ao meu la do: arrancar-lhe o relógio: bastar-me-ia apalpá-lo, ainda como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o indivíduo que eu supunha, a caixa dorelógio teria a lisura do esmalte e no centro a saliência de um brasão.»
Ora o relógio a que nestas linhas se alude, se bem lembrado está, é exactamente o mesmo que descrevi na segunda carta que enviei a esse periódico, o mesmo que usava omascarado que ia sentado defronte de mim na carruagem, e que eu lhe vi por algum tempo fora da algibeira do colete, suspenso na corrente. Logo, o mascarado que conduziu F... aoquarto em que ele se acha preso, é efectivamente um amigo dele, intimo e particular.
Posso eu, sem semear remorsos que mais tarde entenebre cerão talvez a minha vida com uma sombra eterna, denunciar à polícia uma particularidade, um nome, umacircunstância positiva, que a ponha no encalço deste crime e no descobrimento das pessoas, inocentes ou culpadas, que circulam fatalmente em tor no dele?As mesmas notícias que lhe tenho dado, as cartas que preci pitadamente comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anónimo, me vejo na obrigação moral de concluir e de senlaçar, não serão já perante a severidade incorruptível, despreo cupada e friados homens de bem, uma traição aos imprescritíveis deveres da amizade, um agravo à inviolabilidade do sigilo, uma ofensa a esse culto intimo que se baseia na delicadeza, nomelindre, no primor — culto que para as almas honradas constitui uma parte dos princípios supremos da primeira das religiões — a religião do carácter?
Mas podia também calar-me? Ficar mudo, impassível, inerte, neutro, diante destesucesso obscuro mas tremendo? Podia acaso aceitar na impassibilidade e no silêncio a responsabilidade terrível de um homicídio tenebroso, do qual sou eu a única testemunha cominiciativa, com liberdade, com faculdade de acção?...
Decidam-no as pessoas que por um momento quiserem imagi nar-se nas circunstâncias excepcionais e únicas em que eu estou. Na onda de conjecturas, de planos, de determinações, de obstáculos em que me achei envolvido, assoberbado, só, escondido, inquieto, nervoso, sem um único momento que perder, uma só coisa me ocorreu, possível, clara, solvente: publicar anonimamente o que mesucedera, entregar por este modo à sociedade a história da minha situação e esperar dos outros, do público, a solução do problema que eu não sabia resolver por mim.
Nem uma palavra de conselho, de análise, de crítica!Estou profundamente triste, abatido, doente. Preciso de ar, de espaço, de liberdade.
Não posso ficar eternamente imóvel, como um condenado, como pesado fuzil de um segredosoldado a um pé.
Dois dias depois de receber esta minha carta, senhor redactor, terei partido para fora do país. As ambulâncias do exército francês precisam de cirurgiões. Vou alistar-me comofacultativo. O meu país dispensa-me, e eu, como todo um homem na presença dos infortúnios irremediáveis, sinto a doce necessidade de ser útil. Fica sabendo o meu destino.Um dia saberá o meu nome.
Despedindo-me — seguramente para sempre — dos seus lei tores, cuja atenção tenho largamente prendido com a narrativa deste caso lúgubre, seja-me permitido acrescentar umaderradeira palavra:
A. M. C., cujo nome não ouso delatar escrevendo-o por exten so nesta página, A. M.C., que eu não incriminei nem denunciei, apesar de tudo quanto em contrário quis alegar o amigo dele que sob a letra Z. veio defendê-lo neste mesmo lugar, A. M. C., quais quer que sejam as causas que o levaram a intervir nas circunstân cias que rodeiam o crime, conheceointeriormente, tem o fio do trama que eu debalde procurei achar.
Se estas linhas chegarem aos olhos desse moço, uma coisa lhe peço em nome da sua honra e da sua dignidade, em nome da hon ra e da dignidade das pessoas envolvidas em tãoestranho sucesso. Procure no correio uma carta que lhe dirijo nesta mesma data. Nessa carta verá quem eu sou, onde poderá enviar as suas cartas ou ver-me e falar-me pessoalmente. Sea sua idade, se as condi ções da sua posição na sociedade, se os interesses da sua carreira, a tranquilidade da sua família, a incompetência da sua autorida de, ou outra qualquer razão o impedirem de acompanhar este acontecimento até à última das suas
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.