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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

O Pereira baixou a cabeça. Também era verdade!... Pois, nesse caso, ele abria a sua tenção, claramente. E, como conhecia a propriedade, e apurara o seu cálculo - oferecia ao Fidalgo um conto cento e cinqüenta mil réis, sem porco. Mas não dava para a família nem leite, nem hortaliça, nem fruta. O Fidalgo, homem só, pouco se aproveitava. A Torre, porém, casa antiga, enxameava de gentes e de aderentes. Todos apanhavam, todos abusavam... Enfim, esse era o seu princípio. E de resto, para a mesa do Fidalgo e mesmo dos criados, bastavam o pomar e a horta de regalo... Que horta e pomar necessitavam trato mais jeitoso; mas ele, por amor do Fidalgo, e gosto seu, por lá passaria e tudo luziria... E quanto às outras condições, aceitava as do antigo arrendamento. E escritura assinada para a outra semana, no sábado... Estava feito?

Gonçalo, depois de um momento em que pestanejou nervosa e tremulamente, estendeu a mão aberta ao Pereira:

- Toque! Agora sim! Agora fica palavra dada!

- E Nosso Senhor lhe ponha virtude - concluiu o Pereira, firmado no imenso guarda-sol para seerguer. - Então no sábado, em Oliveira, para a escritura... Assina V. Exa. ou o Sr. Padre Soeiro? Mas o Fidalgo calculava:

- Não, homem, não pode ser! No sábado, com efeito, estou em Oliveira, mas são os anos damana Maria da Graça...

O Pereira destapou de novo os maus dentes, num riso de estima:

- Ah! e como vai a Sra. D. Maria da Graça? Há que idades a não vejo! Desde o ano passado, na procissão de Passos, em Oliveira... Muito boa senhora! Muito dada! E o Sr. José Barrolo? Pessoa excelente também, a valer, o Sr. José Barrolo... E que terra a dele, a Ribeirinha! A melhor propriedade destas vinte léguas em redor. Linda propriedade! A do André Cavaleiro que lhe está pegada, a Biscaia, não se lhe compara - e como cardo ao pé de couve.

O Fidalgo da Torre descascava um pêssego, sorrindo:

- Do André Cavaleiro nada presta, Pereira! Nem tenra nem alma!

O lavrador pareceu surpreendido. Ele imaginava que o Fidalgo e o Cavaleiro continuavam chegados e amigos... Não em Política! Mas particularmente, como cavalheiros...

- O quê? Eu e o Cavaleiro? Nem como cavalheiro nem como político. Que ele nem é cavalheiro nem político. É apenas cavalo, e ressabiado.

O Pereira ficou silencioso, com os olhos na toalha. Depois, resumindo:

- Então está entendido, no sábado, na cidade. E, se não faz transtorno ao Fidalgo, passamospelo Tabelião Guedes, e fica o feito arrumado. O Fidalgo, naturalmente, vai para casa da senhora sua mana...

- Sempre. Apareça você às três horas. Lá conversamos com o Padre Soeiro!

- Também há que idades não encontro o Sr. Padre Soeiro!

- Oh! esse ingrato, agora, raramente aparece na Torre. Sempre em Oliveira, com a mana Graça,que é a menina dos seus encantos... Então nem um cálice de vinho do Porto, Pereira?... Bem, até sábado. Não esqueça o beijinho para o neto.

- Cá me vai no coração, meu Fidalgo... Ora essa! Pois consentia eu que V. Exa. se levantasse?Sei perfeitamente a escada, e ainda passo pela cozinha para debicar com a tia Rosa. Já desde o tempo do paizinho de V. Exa., que Deus haja, conheço bem a Torre!... E sempre me esperancei de trazer nesta quinta uma lavoura a meu gosto, de consolar!

Durante o café, esquecido dos jornais, Gonçalo gozou a excelência daquele negócio. Duzentos mil réis mais de renda. E a Torre tratada pelo Pereira, com aquele amor da terra e saber de lavra que transformara o chavascal do Monte-Agra numa maravilha de seara, vinha e horta!... Além disso, homem abastado, capaz de um adiantamento. E eis aí mais uma evidência do valor da Torre, esse afinco do Pereira em a arrendar, ele tão apertado, tão seguro... Quase se arrependia de lhe não ter arrancado um conto e duzentos. Enfim, a manhã fora fecunda! E, realmente, nenhum acordo firmado o colava ao Casco. Entre eles apenas se esboçara uma conversa, sobre um arrendamento possível da Torre, a debater depois miudamente, numa base nova de novecentos e cinqüenta mil réis... E que insensatez se ele, por escrupuloso respeito dessa conversa esboçada, recusasse o Pereira, retivesse o Casco, lavrador de rotina - dos que raspam a terra para comer, e a deixam cada ano deperecendo, mais cansada e chupada!...

- Bento, traze charutos! E o Joaquim que tenha a égua selada das cinco para as cinco e meia.Sempre vou à Feitosa... Hoje é o dia!

(continua...)

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