Por Eça de Queirós (1901)
E eu (miserável Zé Fernandes!) também me senti muito sério, trespassado pôr uma emoção grave, como se nos envolvesse, naquela alcova de Café, a majestade dum Sacramento. À porta, empurrada levemente, o criado avançou a face nédia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentões, e Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a boca, todo a tremer, num beijo profundo e terrível, em que deixei a alma, entre saliva e gosto de pimentão! Depois, numa tipóia aberta, sob um bafo mole de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos Elísios. Em frente à grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo: - “Moro ali, todo o ano!...” E como ao mirar o Palacete, debruçada, ela roçara a mata fulva do pêlo crespo pela minha barba – berrei desesperadamente ao cocheiro que galopasse, para a rua do Hélder, nº.16, quarto andar, pôr à esquerda!
Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um bode ama uma cabra. Era estúpida, era triste. Eu deliciosamente apagava a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com inefável gosto afundava a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas semanas perdi a consciência da minha personalidade de Zé Fernandes – Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me afigurava ser um pedaço de cera que se derretia, com horrenda delícia, num forno rubro e rugidor; ora me parecia ser uma faminta fogueira onde flamejava, estalava e se consumia um molho de galhos secos. Desses dias de sublime sordidez só conservo a impressão duma alcova forrada de cretones sujos, duma bata de lã cor de lilás com sotaches negros, de vagas garrafas de cerveja no mármore dum lavatório, e dum corpo tisnado que rangia e tinha cabelos no peito. E também me resta a sensação de incessantemente e com arroubado deleite me despojar, arremessar para um regaço, que se cavava entre um ventre sumido e uns joelhos agudos, o meu relógio, os meus berloques, os meus anéis, os meus botões de safira, e as cento e noventa e sete libras de ouro que eu trouxera de Guiães numa cinta de camurça. Do sólido, decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcaça errando através dum sonho, com gâmbias moles e a barba a escorrer.
Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do Hélder, encontrei a porta fechada – e arrancado da ombreira aquele cartão de Madame Colombe que eu lia sempre tão devotamente e que era a sua tabuleta... Tudo no meu ser tremeu como se o chão de Paris tremesse! Aquela era a porta do Mundo que ante mim se fechara! Para além estavam as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho, naquele patamar do Nãoser, fora da porta que se fechara, único ser fora do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoerência duma pedra, até ao cubículo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas em ditosa pachorra, como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado o Universo!
-Madame Colombe?
A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
-Já não mora... Abalou esta manhã, para outra terra com outra porca!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.