Por Camilo Castelo Branco (1862)
Não sei que mais lhe ouvi, que parecia aumentar o sentimento de abominação agravado pelas súplicas depois do insulto. Afastei-me e escrevi-lhe, a despedir-me. Devia de ser-lhe nova e aflitiva surpresa quando viu a minha carta escrita com boa letra e rancorosa eloquência com que eu lhe atirava ao rosto a desestima em que o tinha, já convertida em desprezo.
Dum arremesso, entrou no meu quarto. Trazia um par de pistolas aperradas: tive-lhe medo e horror quando ele gritou: ‘Uma para te matar e outra para mim!’ ‘Que mal fiz eu para morrer?!, exclamei com ânsia de quem quer e pede a vida.
V
- Menti-lhe para me livrar das baixezas suplicantes e das ameaças. Prometi deixar Augusto e ficar na companhia do barão. Pediu-me que escrevesse uma carta ao caixeiro, segundo ele ma ditasse. Recusei. Ameaçou-me de novo; vendo-me, porém, resistente e já disposta a morrer, tornou às branduras e desistiu da carta, como coisa inútil depois da minha promessa.
No mesmo dia, brindou-me com um alfinete de diamantes e mandou-me preparar para irmos viajar. O meu plano estava formado: respondi a tudo que sim.
Quando veio a mestra, dei-lhe uma carta para Augusto, avisando-o do meu projeto de fuga e pedindo-lhe que me recebesse assim pobre, que eu já sabia trabalhar e nunca lhe seria pesada.
A mestra estava já vendida ao barão, que foi logo senhor da carta. Se eu fosse esperta, adivinhara a perfídia da medianeira na alteração de rosto com que me recebeu a carta. Estava-se acusando a vil criatura; mas eu não podia julgá-la. Parece-me que só os infames podem julgar bem os infames.
Vi entrar o barão no meu quarto com terrível contractação de rosto. Sem me encarar, pediu-me uma a uma todas as minhas jóias: dei-lhas. Pediu-me todos os meus vestidos, todos, nomeando-os um a um pelas suas cores e estofos: dei-lhos; e perguntei se devia despir o que tinha vestido. ‘Veremos’, disse ele. E, depois de atirar com os vestidos a pontapés para o interior do seu quarto e guardar as jóias, acrescentou: ‘agora, vá quando quiser, que vai como veio. ‘Não vou como vim’, respondi eu. ‘Era pura quando entrei nesta casa, Sr. Barão.’ Replicou-me com um insulto sem nome e saiu.
Esperei que anoitecesse, e no entanto pensei para onde iria. O coração impelia-me para Augusto; mas eu ignorava a residência dele. Lembrou-me ir pedir agasalho a minha irmã, e de casa dela indagar a morada de Augusto. Lembrou-me de relance minha mãe; mas suposto me sorrissem as minhas irmãzinhas, fechei logo os olhos a esta horrorosa visão. Prevaleceu o único refúgio, que era minha irmã, muito menos desgraçada do que eu.
Escureceu; saí do quarto e desci as escadas. Ia assim como estou agora. Não levava comigo cinco réis, nem valor algum além dum vestido de casa que tinha no corpo. A meio das escadas, saiu-me o barão duma sobreloja, travou-me pelo braço com mais amor que força e disse-me: ‘Onde vais, desgraçada?! Pensa bem no passo que vais dar. Contas com o caixeiro? Esse miserável é tão pobre como tu. Desde que saiu da minha casa, já me mandou pedir um empréstimo, que eu lhe dei como esmola. Nenhuma casa comercial o aceita sem as minhas informações; e eu, a quem mas pede, respondo que ele aniquilou a minha felicidade e desgraçou para sempre duas famílias. Serve-te assim o homem? Cuidas que o caixeiro irá pedir esmola para te sustentar? Irá; mas quem é que lha dá? E quando ele, cansado de humilhações e desonras, friamente olhar para ti e te julgar a causa de sua desgraça, há-de aborrecer-te, odiar-te, e abandonar-te, e fugir de ti como quem foge do maior inimigo. Medita nisto, Marcolina. Perdoo-te o mal que me fizeste, esqueço tudo, peço-te mesmo perdão do que fiz hoje, alucinado pelo amor que te tenho. Ficas, Marcolina?
‘Não fico’, respondi, ‘nem vou procurar Augusto. Para desgraça, basta a minha. Vou ter com minha irmã e de lá procurarei uma casa onde sirva.’
Lançou-se-me aos pés o barão, abraçou-me pela cintura abafado pelos soluços; disse-me até, no seu desvario, que iríamos para a França, e lá casaria comigo. Causou-me riso e compaixão este desatino!... Cedi, deixei-me ir quase nos braços dele até ao meu quarto. Parecia louco de alegria o pobre homem! Trouxe-me as jóias, tirou do dedo um grande brilhante, que ele chamou anel de casamento, e quis à força que eu o pusesse entre outros, posto que podia abranger três dos meus dedos.
- Era uma pulseira! - interrompi eu com ambições de graça. - O barão, excepto os dedos, parece-me um bom sujeito!
- Era - tornou Marcolina -, era um coração como poucos. As ameaças das pistolas, os insultos, a requisição das jóias e dos vestidos, tudo isto, que parece vilania, era nele uma sublime maneira de exprimir o seu muito ciúme e paixão.
Nunca mais vi a mestra, nem tive pessoa que me falasse de Augusto. Naturalmente o fui esquecendo, o forçoso era esquecê-lo em Paris e Londres, para onde o barão me levou, sem me dar tempo a cismar uma hora no meu passado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.