Por Camilo Castelo Branco (1864)
"Ia depor as madeixas no cofre, receoso de alguma surpresa, e então vi um papel dobrado no fundo da caixinha. Era uma cana. Escondi-a sofregamente. fechei os cabelos, escondi o cofre e as minhas canas no saco de noite e, palpitante de comoção, saí do meu quarto e fui respirar no escuro de uma varanda, onde presumia não encontrar alguém.
"Apenas sorvi um hausto de ar, que me chegou ao coração impregnado das auras balsâmicas da minha mocidade, ouvi um respirar alto e tremente.
"Fui à extrema da varanda e vi minha prima, com as faces entre as mãos, repuxando ao seio os soluços com ansiada violência. Chamei-a carinhosamente. Interroguei-a. Quando bem a compreendi, não sei dizer-te que entranhado compungimento me cortou a alma! Caíram-me nas mãos as lágrimas de Mafalda... Perguntei-lhe porque chorava. Respondeu-me: "São as primeiras lágrimas: é por ti que as choro, meu primo. Deus deixate perder - -. Não há ninguém que te possa salvar daquela mulher." E, desprendendo-se das minhas mãos, fugiu a soluçar.
"Eu levantei os olhos ao Céu e disse, em meu espirito, com tenor quase infantil: "Não deixeis que eu me despenhe no mesmo abismo de onde a Vossa misericórdia não tem querido salvar-me!"
"E cuidei que o Céu se abria à minha oração com um milagre. "A imagem de Teodora passou ante mim; via-a repulsiva, abjecta, vilíssima e prostituída. Súbito, num disco luminoso, desenhou-se-me o vulto angelical de Mafalda, com a face em lágrimas, humilde como uma santa e ao mesmo tempo altiva como a virtude sem nódoa.
"Amei então minha prima; todas as estrelas do céu ma estavam bem-fadando para mim; todos os rumores da noite diziam comigo um hino ao Senhor que me descativara das ciladas da mulher fatal, que no descaro mesmo da sua audácia me fascinara e com aqueles cabelos tecera o baraço de estrangulação da minha dignidade.
"Fui, fervoroso de ternura, em busca de minha prima. Encontrei-a à cabeceira do leito de seu pai. Chamou-me o tio para os pés da sua cama. Sentei-me com inquieta alegria. O velho achou-me outro em olhar, em tom de voz, em ar de rosto. Queria saber o segredo da transformação. Perguntava a Mafalda se o sabia. A menina sorria com aquela distinta angústia que lacera a alma sorrindo, porque as lágrimas só servem para exprimir os sofrimentos comuns.
"Assisti ao chá de meu tio, pedi-lhe a bênção e recolhi-me ao meu quarto. Minha prima despediu-se de mim sem me fitar no rosto. A sua natural altivez sofria, depois que a surpreendera chorando, provavelmente. Este resguardo aumentou a divinização de Mafalda.
"Fechado na minha alcova, abri a cana de Teodora. Está neste maço lacrado, há catorze anos. Quebre-se o lacre, por amor da autenticidade da história... Aqui tens. Lê tu, enquanto eu dou folga aos pulmões. Há muito ano que não falei tanto tempo!"
Li a carta de Teodora, cujo traslado segue: Quem te disse a ti que eu tinha caído diante de mim mesma, Afonso? Quando te dei eu direito de supor que o teu silêncio, em resposta a um grito do coração, me esmagaria os brios de mulher, que, de um sopro, faz saltar de suas vestes a lama do teu desprezo? Quando eu te apareci magnífica dedicação, fizeste-te mesquinho tu. As minhas lágrimas figuraram-se-te o pus de um coração corrompido; e eram soro do mais nobre sangue.
Não pudeste chegar com a fronte à altura da minha, e apedrejaste-ma! Quem cuidas tu que és, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua escrava. e não sabes sequer usar a misericórdia de dizer à mulher que te ama que não seja infame, amando-te?! Neste ponto suspendi eu a leitura, tomei a respiração e disse:
- Esta senhora tem estilo, ou eu não entendo nada de estilos! Que interrogatório!
- Podes rir, que eu também cá estou mordendo os beiços para não espirrar uma casquinada na cara do antigo Afonso de Teive - disse o meu amigo.
- Mas o estilo - tornei sinceramente agradado da leitura -, o estilo aqui não pode ser a mulher: aqui há, pelo menos, a triple inteligência de três escritores de melenas sacudidas aos quatro ventos da inspiração! Por Hércules! Isto, sim, que é mulher... e "aqui há que ver", como diz o Garrett.
- E que ler - ajuntou Afonso de Teive. - Continua, se queres. Perfilei as minhas faculdades inteligentes, e segui a leitura. A contas, homem de ferro, que endureceste o teu frágil barro de outro tempo ao fogo de baixas paixões, a contas com a mulher desprezível!
Que fazias tu quando eu me estorcia de saudades de ti e dores do meu cativeiro, dentro das grades das Ursulinas?
Quando soubeste que a tirania me fechava a sete chaves numa cela e me media os átomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para resgatar os quinze anos de uma mulher que queria o sol das flores, das aves, dos mendigos, do último ver-me que se arrasta e cumpre o seu destino debaixo dos olhos de Deus?!
- Parece-me - reflecti eu - que esta senhora arredonda ambiciosamente os períodos, meu caro Afonso; e, se me dás licença, direi que há estilo de mais neste período!... Estou mono por te perguntar que impressão te fazia isto há quinze anos!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.