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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Sim, senhor... Como está ela?

― Rita como um pêro. Ela aí vem a quatro pés!... A mulher é sua amiga como nunca vi!...

― Também eu dela.

Rita abraçou Ângela pelos joelhos, e levantou-a, exclamando:

― Pilhei-a! pilhei-a! não torna a sair daqui a Sr.ª D. Ângela, senão para a companhia dos anjos, que não são tão lindos!

E com estes e outros sinceros encarecimentos entraram nas vastas salas, onde o brasileiro tinha recolhido as espigas do milhão a monte, de mistura com as cebolas, e as nozes e as castanhas.

Passado este lanço da casa, que havia sido convento de ordem rica, no ângulo formado pela vasta quadra, as salas e quartos estavam decorados com luxuoso e atrapalhado mau gosto.

― Aqui é a parte da casa que pertence à fidalga e à nossa Vitorina - disse Rita, com aprovação de Hermenegildo, manifestada por um sorriso.

― Como tudo isto é bonito! – exclamou sinceramente Ângela. – Uma princesa ficaria contente...

― A nossa princesa é vossa excelência – tornou Rita.

― Princesas que as leve a breca! – interveio Fialho num lerdo assomo de republicanismo. – O que eu quero em minha casa são pessoas amigas, que não obrigam a “intequetas” nem outras aquelas.

― Se me recebem com cerimonias – acudiu a filha do general – poucas horas estaria contente neste paraíso. ― Toca a saber o essencial – disse o brasileiro. – A senhora jantou? São cinco horas.

― Não jantamos, nem temos vontade.

Hão de comer do que houver. Rita, carne assada, fiambre, salame, e peixe frito p’ra mesa. O café hei de ir fazê-lo eu. Aqui, quem quiser estar em minha casa, há de comer e beber, passear e dormir. Divertimentos não nos há, a não ser alguma chulata cá dos labrostes da terra. A gente aqui passa três meses na chácara, e depois vai em a cidade passar o Inverno, que eu tenciono lá abrir escritório de consignações, e fazer dois ou três navios p’ra me entreter, que graças a Deus não preciso, sou solteiro, e os meus parentes, não falando cá na Rita, são os dentes, diz lá o ditado.

Hermenegildo era loquacíssimo deste feitio, e de certo modo pitoresco na linguagem.

Ângela engraçava com aquela rudeza indicativa de bom feito de bruto. O sorriso dela não era mordente, nem o lance de olhos observador. A novidade do tipo, o plebeísmo do dizer, a redondeza da pessoa, a cara espirando alegria e uma saúde oleosa, tudo isto que aceraria a sátira da mulher dum alfaiate de Lisboa, produzia na fidalga bem condicionada uma inofensiva hilaridade, com a qual o brasileiro se comprazia.

Dobaram-se dias bonançosos para Ângela. Esses seriam porventura, os mais quietos de sua vida, se, a reveses, lhe não enublasse o espírito o incerto destino de Joana e seu irmão.

Rita, sem ser rogada, mandara lançar inculcas no Porto sobre descobrir se ali viviam os dois irmãos. Não colhera indício algum. Apenas soubera que Francisco José da Costa começara a freqüentar em 1839 o primeiro ano da escola médico-cirúrgica, e abandonara os estudos em meio do ano. Quanto a Joana, vestígio nenhum levou os indagadores ao sótão da Rua-escura. Vitorina estava sempre encontrando com judiciosas reflexões o cuidado que dava a sua ama o destino da família do merceeiro, a fim de a ir desatando de recordações prejudiciais a reconciliar-se com o general. Neste louvável desígnio pedia a Rita que, se descobrisse a paragem de Joana, se calasse com o segredo para afastar novos dissabores, e a pior das calamidades, que seria fidalga casar com Francisco.

― Credo! – exclamou a irmã de Hermenegildo, dois meses antes cozinheira da abadessa. – Credo! Anjo da guarda! Pois uma fidalga assim, filha dum general, e linda como os amores, havia de casar com um pobretão?! Não me diga isso, Sr.ª Vitorina! Esta senhora, se quiser casar, encontra marido que mede o dinheiro às rasas, e tem quintas e palácios, e tudo quanto cobre a rosa do sol, e que se pode comprar com dinheiro. Vossemecê não me entende?

Vitorina parecia não entender.

― Pois vossemecê não me entende?! – tornou Rita aconchegando-se dela. – Então eu lhe conto o que se passa, e vossemecê vai ficar espantada. Faz hoje três semanas que chegou, não faz?

― É verdade.

(continua...)

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