Por Eça de Queirós (1888)
em Bemfica, com a sua grande gravata de setim, aquella cara nobre de portuguez d'outr'ora... E lá vai! E o meu pobre Pedro tambem... Caramba, até se me faz a alma negra! Os olhos ennevoavam-se-lhe, deu um immenso sorvo ao cognac.
Ega, depois de beber um gole de café, voltára ao escriptorio, onde o cheiro d'incenso espalhava uma melancolia de capella. D. Diogo, estirado no sofá, resonava; Sequeira defronte dormitaVa tambem, descahido sobre os braços cruzados, com todo o sangue na
face. Ega despertou-os de leve. Os dois velhos amigos, depois d'um abraço a Carlos, partiram na mesma carruagem, com os charutos accêsos. Os outros, pouco a pouco, iam tambem abraçar Carlos, enfiavam os paletots. O ultimo a sahir foi Alencar, que, no pateo, beijou o Ega, n'um impulso d'emoção, lamentando ainda o passado, os companheiros desapparecidos:
- O que me vale agora são vocês, rapazes, a gente nova. Não me deitem á margem! Senão, caramba, quando quizer fazer uma visita tenho d'ir ao cemiterio. Adeus, não apanhes frio!
O enterro foi ao outro dia, á uma hora. O Ega, o marquez, o Craft, o Sequeira levaram o caixão até á porta, seguidos pelo grupo d'amigos, onde destacava o conde de Gouvarinho, solemnissimo, de gran-cruz. O conde de Steinbroken, com o seu secretario, trazia na mão uma corôa de violetas. Na calçada estreita os trens apertavam-se, n'uma longa fila que subia, se perdia pelas outras ruas, pelas travessas: em todas as janellas do bairro se apinhava gente: os polícias berravam com os cocheiros. Por fim o carro, muito simples, rodou, seguido por duas carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos véos de crepe que pendiam. Atraz, um a um, desfilaram os trens da Companhia com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam os vidros contra a friagem do dia ennevoado. O Darque e o Vargas iam no mesmo coupé. O correio do Gouvarinho passou choutando na sua pileca branca. E, sobre a rua deserta, cerrou-se finalmente para um grande luto o portão do Ramalhete.
Quando Ega voltou do cemiterio encontrou Carlos no quarto, rasgando papeis, emquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava uma mala de couro. E como Ega, pallido e arrepiado de frio, esfregava as mãos, Carlos fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que fossem para o fumoir onde havia lume.
Apenas lá entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega:
- Tens duvida em lhe ir fallar, a ella?
- Não. Para que?... Para lhe dizer o que? - Tudo.
Ega rolou uma poltrona para junto da chaminé, despertou as brazas. E Carlos, ao lado, proseguiu devagar, olhando o lume:
- Além d'isso, desejo que ella parta, que parta já para Paris... Seria absurdo ficar em Lisboa... Emquanto se não liquidar o que lhe pertence, hade-se-lhe estabelecer uma mezada, uma larga mezada... Villaça vem d'aqui a bocado para fallar d'esses detalhes... Em todo o caso, ámanhã, para ella partir, levas-lhe quinhentas libras.
Ega murmurou:
- Talvez para essas questões de dinheiro fosse melhor ir lá o Villaça...
- Não, pelo amor de Deus! Para que se ha de fazer córar a pobre creatura diante do Villaça?...
Houve um silencio. Ambos olhavam a chamma clara que bailava.
- Custa-te muito, não é verdade, meu pobre Ega?...
- Não... Começo a estar embotado. É fechar os olhos, tragar mais essa má hora, e depois descansar. Quando voltas tu de Santa Olavia?
Carlos não sabia. Contava que Ega, terminada essa missão á rua de S. Francisco, fosse aborrecer-se uns dias com elle a Santa Olavia. Mais tarde era necessario trasladar para lá o corpo do avô...
- E passado isso, vou viajar... Vou á America, vou ao Japão, vou fazer esta coisa estupida e sempre efficaz que se chama distrahir...
Encolheu os hombros, foi devagar até á janella, onde morria pallidamente um raio de sol na tarde que clareára. Depois voltando para o Ega, que de novo remexia os carvões:
Eu, está claro, não me atrevo a dizer-te que venhas, Ega... Desejava bem, mas não me atrevo!
Ega pousou devagar as tenazes, ergueu-se, abriu os braços para Carlos, commovido: - Atreve, que diabo... Porque não?
- Então vem!
Carlos puzera n'isto toda a sua alma. E ao abraçar o Ega corriam-lhe na face duas grandes lagrimas.
Então Ega reflectiu. Antes de ir a Santa Olavia precisava fazer uma romagem á quinta de Celorico. O Oriente era caro. Urgia pois arrancar á mãi algumas letras de credito... E como Carlos pretendia ter «bastante para o luxo d'ambos», Ega atalhou muito sério:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.