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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

E os melhores amigos da Turquia calavam-se, receando bem que esta profecia atrevida se realizasse em quatro semanas...

Com efeito, uma invasão preparada, de há muito apregoada, ornada de proclamações e coberta de bênçãos, começa a mover-se e, como um rio que se bifurca, corre de um lado sobre a Ásia, do outro sobre o Danúbio. E a profecia começa sinistramente a realizar-se! Em quatro semanas o exército russo, com uma tranquilidade de parada e, por assim dizer, a divertir-se, quase que conquista a Arménia. E os entusiastas da Rússia a gritar logo: «Que lhes dizíamos nós? Lá devorámos a Arménia.»

As igrejas de Sampetersburgo ressoavam de te Deum, e o czar começava a fazer a lista dos funcionários que deviam ir administrar a nova conquista e levar às populações arménias as doçuras da tirania russa.

De repente, zás! Sem se saber como, de manhã para a noite, Muktar Paxá aparece – e os Russos vitoriosos, os Russos conquistadores, começam a recuar, a perder terreno, a abandonar posições, a levantar os cercos começados; a retirada transforma-se em debandada; Muktar Paxá, sempre, sem se saber muito bem como, vai-os levando, de derrota em derrota, até os sacudir, com o sabre sobre a ilharga, para lá da fronteira persa! E a Arménia estava livre!

Os entusiastas da Rússia mordiam um pouco o beiço; mas, com o seu aplomb ordinário, recomeçavam: «É verdade, é uma derrota. Mas também, a falar verdade, nós não queríamos a Arménia para nada. A campanha da Arménia era uma diversão. O verdadeiro fim, o objecto da guerra é Constantinopla. A verdadeira luta é aqui no Danúbio, na Bulgária. Vão ver. Vão ver como em duas semanas nós estamos em Constantinopla!»

E os apaixonados da Turquia, ainda os mais ingénuos, pensavam com terror que era bem possível que assim fosse. A Turquia estava tão pobre! O seu exército tão mal comandado! A sua administração tão corrupta! O seu armamento tão incompleto! A sua vitalidade tão debilitada!... Com efeito, a Rússia põe-se em movimento, e a nova profecia começa a ter uma realização maravilhosa. Em duas semanas os Russos atravessam o Danúbio, estabelecem-se na Bulgária, dirigem-se para os Balcãs, passam os Balcãs como numa mágica e começam a preparar a marcha triunfal sobre Constantinopla. «Que lhes dizíamos nós?», exclamam os russófilos. «Lá vão eles. Além de amanhã, o estandarte russo flutuará em Santa Sofia!»

Sampetersburgo recomeçava os seus te Deum, o czar reescrevia as suas listas de funcionários, a Europa estremecia. Pensava-se em intervir. Positivamente, santo Deus!, o fim da Turquia chegou!... A Áustria, assustada com o novo vizinho que se instala, começa a mobilizar: a Inglaterra manda três mil homens para Malta e fala em ocupar Galípoli: a Grécia agita-se, como um abutre que esvoaça sobre um ferido que vai morrer, e o sultão faz à pressa as suas malas, para passar para a Ásia, de volta aos lugares originários da sua raça – com o Alcorão, o serralho, o estandarte do Profeta e o seu cozinheiro francês!

De repente, sem se saber como também, os Russos sofrem o desastre medonho de Plevna; no dia seguinte, são batidos em Lotcha; no outro dia, em Osman Bazar. Osman Paxá acossaos contra o Danúbio; o general Gurko, que passava os Balcãs, é derrotado; o exército que ocupava a Bulgária tem de evacuar aos pedaços; cercos importantes são levantados, campos formidáveis desfeitos. E o que se tinha passado na Arménia repetiu-se no Danúbio! A invasão que falhou na Ásia, falhou na Europa! Sampetersburgo engole os seus te Deum, o czar rasga as listas, a Áustria respira e desmobiliza, o sultão desfaz as malas – e os Turcos, espantados, olhando em roda de si, acham-se vitoriosos na Ásia e na Europa!

A que se deve esta prodigiosa aventura? A muitas causas, creio eu. Mas a primeira, a principal, a causa-mãe, é que os Russos desprezaram os Turcos de mais: não lhes supunham – nem coragem, nem estratégia, nem armamento, nem dinheiro, nem actividade, nem dedicação. Entenderam que um punhado de russos podia ir e comer províncias como bagos de uvas. Portanto mandavam forças incompletas, dividiam-nas, dispersavam-nas, iam para diante, à tonta, com uma bravura de guerrilha e uma imprudência de estudantes quando de repente se encontraram diante de exércitos mais numerosos, com generais mais hábeis, planos mais definidos; o resultado é a derrota!

(continua...)

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