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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

O desgraçado que jaz aí dentro podia ter sido vítima de um ho micídio, premeditadocom o intuito de roubar-lhe a quantia que ele trazia consigo.

Ocorre uma contradição: na sugerida hipótese para que foram buscar um médico? Explicamno as palavras que ouvi. Os crimi nosos, que tinham propinado ópio à sua vítimacom o intuito de a roubarem, encontram iludido este projecto com o desaparecimen to das notas que lhe supunham na algibeira. Nesta conjuntura sobrevém-lhes, naturalmente, a ideiade tentar um recurso extremo: procurar um médico que não possa denunciar o crime, mostrar-lhe o ópio, e quererem por esta prova de zelo, de solicitude, de confian ça na sua inocência, afastar de si a presunção do crime, e criar as dificuldades de um mistério! Épossível que eu não atinja exactamente a verdade do que se passou. O indubitável, porém, é que o desaparecimento já constatado da soma que o assassinado trazia consigo não podeadunar-se dentro desta casa com a probidade e com a honra.

Depois disto, é quase escusado dizer-te qual é a determinação que vou tomar. O meu vizinho prussiano é um homem um tanto fantástico, mas parece-me sincero e honrado. Voufechar esta car ta, sobrescritá-la e pedir-lhe que a lance no correio. Acharei facil mente meio de a passar para o quarto dele. Se conseguir arrombar completamente, sem que mepressintam, o tapamento que serve de fundo ao armário, passarei eu em vez de expedir a carta. No ca so contrário, apenas se abrir aquela porta, precipito-me sobre a pessoa ou pessoas que me embargarem o passo, e abrirei o meu caminho como todo o homem de bemque em sua consciência delibera passar por cima de meia dúzia de miseráveis.

Se te achas aqui, encarcerado como eu, por Deus juro-te que nos veremos amanhã. Se estás solto, se receberes esta carta, e vinte e quatro horas depois não souberes de mim,escreve a Frede rico Friedlann, posta restante, Lisboa. Ele te procurará no lugar que lhe indicares e te dirá onde estou. — Adeus. — F...

NOTA — Juntamente com a carta publicada ontem achavam-se as seguintes folhas de papel escritas pela mesma letra das cartas do médico, anteriormente publicadas nesta folha:

F... não apareceu. No mesmo dia, dois dias e três noites depois de haver recebido aextensa carta que ele me dirigiu e de que enviei logo a primeira parte, depois as seguintes, a essa redacção, procurei por todos os meios ter notícias dele. Foram inúteis todos os esforços que empreguei. Escrevi a Frederico Friedlann. Não houve resposta. Mandei ao correio esoube que ainda ali se acha va a carta que lhe dirigi e na qual lhe aprazava uma entrevista.

Estou vivamente inquieto, sobressaltado, cuidadoso.F... é um homem arrebatado, irascível, pundonoroso até o de lírio. Receio do seu carácter e da violência das suas determinações. uma explosão que teria podido talvez ser-lhe fatal. Apresso-me, porém, a declarar-lhe, senhor redactor, que dis cordo completamente da opinião dele quanto à qualidade moral das pessoas com quem estivemos reunidos na casaonde encontrámos o cadáver.

O mascarado alto, com quem tive ocasião de falar por mais tempo, não pode ser um assassino cobarde. F... demorou-se pouco tempo connosco, não pôde atentar nos indivíduosque o rodeavam. Ouviu apenas uma frase, que para mim próprio é ainda inexplicá vel e terrível, e baseou nela a sua indignação e o seu ódio.Eu tratei apenas com um desses homens — o mais alto — mas com este falei incessantemente durante todo o espaço de uma noite. Não podia estudar-lhe os movimentos da fisionomia, mas via-lhe os olhos grandes, luminosos, cintilantes. Ouvia-lhe a voz metálica, pura, clara, vibrante, obedecendo naturalmente, na mo dulação das inflexões, ao fluxo e ao refluxo dos sentimentos.

Nas discussões que tivemos, na conversação que travámos, nos diversos incidentesque acompanharam o inquérito de A. M. C., es cutei-lhe sempre com interesse, com simpatia, algumas vezes com admiração, a palavra sincera, fácil, despresumida, espontânea, original, pitoresca sem literatismo, eloquente sem propósitos ora tórios — límpido espelho de umaalma enérgica, integra, perspicaz e sensível. Tinha arrebatamentos, indignações convictas, concentrações melancólicas, que se via provirem desse fundo de lágrimas, que todas asnaturezas privilegiadamente boas e honestas têm no Intimo da sua essência. Pareceu-me, finalmente, um coração leal e honrado, e não é fácil enganar-se por este modo, depois de uma provação suprema e definitiva como aquela em que nos achámos, um homem com aminha experiência do mundo e a minha prática dos fingimentos humanos. Estas são, senhor redactor, as principais considerações que do princípio logo me impediram de tornar públicoo nome do meu amigo violentamente retido em cárcere privado. F.. é um homem conhecido, é quase um homem célebre; em Lisboa ninguém há que não conheça o seu nome entre os escritores mais aplaudidos, ninguém que não distinga a sua figura alti va, esmerada, picante,entre os vultos extremamente uniformes dos passeios, das salas e dos teatros.

(continua...)

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