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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Bem! - atalhou o Fidalgo. - Isso é honroso para o Sanches Lucena. Gente que engordou, quetrepou... E eu concordo, Pereira, o círculo deve mandar a Lisboa um homem como o Sanches Lucena, que tenha nele terra, raízes, interesses, nome... Mas é preciso que seja também homem com talento, com arrojo. Um deputado, que, nas grandes questões, nas crises, se erga, transporte a Câmara!... E depois, Pereira amigo, em Política quem mais grita mais arranja. Olhe a estrada da Riosa! Ainda em papel, a lápis vermelho... E, se o Sanches Lucena fosse homem de berrar em S. Bento, já o Pereira trazia por lá os seus carros a chiar.

O Pereira abanou a cabeça, com tristeza:

- Aí talvez o Fidalgo acerte... Para essa estradinha da Riosa sempre faltou quem gritasse. Aítalvez o Fidalgo acerte!

Mas o Fidalgo emudecera, embebido na cheirosa sopa, dentro duma caçoila nova, com raminhos de hortelã. E então o Pereira, acercando mais a cadeira, cruzou no rebordo da mesa as mãos, que meio século de trabalho na terra tornara negras e duras como raízes - e declarou que se atrevera a incomodar o Fidalgo, àquelas horas do almocinho, porque nessa semana começava um corte de madeiras para os lados de Sandim, e desejava, antes que surgissem outros arranjos, conversar com S. Exa. sobre o arrendamento da Torre...

Gonçalo reteve a colher, num pasmo risonho:

- Você queria arrendar a Torre, Pereira?

- Queria conversar com V. Exa.. Como o Relho está despedido...

- Mas eu já tratei como Casco, o José Casco dos Bravais! Ficamos meio apalavrados, há dias...Há mais de uma semana.

O Pereira coçou arrastadamente a barba rala. Pois era pena, grande pena... Ele só no sábado se inteirara da desavença com o Relho. E, se o Fidalgo não ressalvava o segredo, por quanto ficara o arrendamento?

- Não ressalvo, não, homem! Novecentos e cinqüenta mil réis.

O Pereira tirou da algibeira do colete a caixa de tartaruga, e sorveu detidamente uma pitada, com o carão pendido para a esteira. Pois maior pena, mesmo para o Fidalgo. Enfim! depois de palavra trocada... Mas era pena, porque ele gostava da propriedade; já pelo S. João pensara em abeirar o Fidalgo; e apesar dos tempos correrem escassos, não andaria longe de oferecer um conto e cinqüenta, mesmo um conto cento e cinqüenta!

Gonçalo esqueceu a sopa, numa emoção que lhe afogueou a face fina, ante um tal acréscimo de renda - e a excelência de tal rendeiro, homem abastado, com metal no banco, e o mais fino amanhador de terras de todas as cercanias!

- Isso é sério, ó Pereira?

O velho lavrador pousou a caixa de rapé sobre a toalha, com decisão:

- Meu Fidalgo, eu não era homem que entrasse na Torre para caçoar com V Exa.! Proposta avaler, escritura a fazer... Mas se o arrendamento está tratado...

Recolheu a caixa, apoiava a mão larga na mesa para se erguer, quando Gonçalo acudiu, nervoso, empurrando o prato:

- Escute, homem!... Eu não contei por miúdo o caso do Casco. Você compreende, sabe comoessas coisas passam... O Casco veio, conversamos; eu pedi novecentos e cinqüenta mil réis e porco pelo Natal. Primeiramente concordou, que sim; logo adiante emendou, que não... Voltou com o compadre; depois, com a mulher e o compadre, e o afilhado, e o cão! Depois só. Andou aí pela quinta, a medir, a cheirar a terra; acho até que a provou. Aquelas rabulices do Casco!... Por fim, uma tarde, lá gemeu, lá aceitou os novecentos e cinqüenta mil réis, sem porco. Cedi do porco. Aperto de mão, copo de vinho. Ficou de aparecer para combinar, tratar da escritura. Não o avistei mais, há quase duas semanas! Naturalmente já virou, já se arrependeu... Para resumir, não tenho com o Casco contrato firme. Foi uma conversa em que apenas estabelecemos, como base, a renda de novecentos e cinqüenta. E eu, que detesto coisas vagas, já andava pensando em encontrar melhor homem!

Mas o Pereira coçava o queixo, desconfiado. Ele, em negócios, gostava de lisura. Sempre se entendera bem com o Casco. Nem por um condado se atravessaria nos arranjos do Casco, homem violento, assomado. De modo que desejava as coisas claras, para não surgir desgosto rijo. Não se lavrara escritura, bem! Mas ficara, ou não, palavra dada entre o Fidalgo e o Casco?

Gonçalo Mendes Ramires, que findara apressadamente a sopa e enchia um copo de vinho verde para se acalmar, fitou o lavrador, quase severamente:

- Homem, essa pergunta!... Pois se eu tivesse confirmado ao Casco decisivamente a palavra deGonçalo Ramires, estava agora aqui a tratar, ou sequer a conversar consigo, Pereira, sobre o arrendamento da Torre?

(continua...)

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