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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

"Confiei na juventude, na vontade de viver, e ergui-me. Saí de Coimbra para o Porto. Tentei o meu espirito, animando-me a procurar as montanhas saudosas, os meus queridos pinheirais de Ruivães, os regatos cristalinos, orlados de verduras, em que minha mãe me via criança, a colher boninas para lhas entretecer nos cabelos. A minha alma amava então estas coisas com o transporte arroubado e sereno dos tísicos; é que o invólucro já lhe não empecia o filtrar-se nela o calor da luz ideal, aquele calmo ambiente em que se degela o sangue coalhado no coração.

"Venceu o desejo da vida. Isto que, um ano antes, se me antolhou feio e inabitável aformoseou-mo então o anelo de viver. Até a cor do céu, de onde me choveram as alegrias dos dezasseis anos, me sorria e chamava. Nem já o temor de me encontrar com Teodora pôde conter-me. Que importava? Eu cuidei que a porção de minha essência, cativa do amor dela, se tinha caldeado e vaporado ao fogo, de onde eu saíra refundido, e muito estranho ao homem do outro tempo.

"Surpreendi minha mãe, sentada à sombra da carvalheira da porta, relendo as minhas últimas cartas, escritas com a ternura da alma alumiada pela alva de um melhor dia. Ao contacto do peito da virtuosa, senti exuberância de saúde, de alegria e de unção religiosa. Então me considerei estreado em nova existência.

"Esperava eu que se abrisse a Universidade para ir a Coimbra repetir o 2º ano, cujas disciplinas nem sequer as tinha visto no índice dos compêndios. Minha mãe dissuadia-me de voltar a Coimbra, dando como desnecessária a formatura a quem não havia de ganhar a vida por ela. Eu, porém, desejava instruir-me; dava-me como necessário recolher ideias que ao depois me aligeirassem no estudo os anos de toda a vida, que eu designara passar na casa onde meu pai tinha vivido a sua, com todas as. ditas da paz. Minha boa mãe transigiu. A doce criatura, acusando-se sempre de motora da minha desgraça, obrigara-se a expiar pela abnegação e condescendência. E, demais, ela temia que, alguma hora, me reaparecesse a visão de Leça.

"Que pressentimento! "Dias antes da minha destinada partida, fui às Taipas despedir-me de meu tio Fernão, que estava em Caldas. Ao entardecer saí com minha prima Mafalda a passear na carvalheira. Já era escuro quando nos fizemos na volta de casa. Ao atravessarmos a alameda dos banhos, acercou-se de nós um vulto de mulher rebuçado numa capa alvacenta. Mafalda apertou-me o braço convulsivamente. O vulto parou em frente de nós, e disse num tom irónico: "Consintam que os contemple na sua felicidade: é um prazer dos felizes verem-se admirados."

"Reconheci a voz de Teodora. Mafalda sentiu o tremor de meu braço e reconheceua também de instinto. "Desviei-me do caminho trilhado para seguir avante. Teodora deixou cair a dobra da capa, em que ocultava meio rosto, e disse num tom arrogante: "Veja, Sr. Afonso de Teive! Veja, que ainda sou formosa! O coração está esmagado; mas a face ainda conserva as graças que poderiam arrebatar maior alma que a sua."

"Deteve-se alguns segundos arquejantes; eu ouvia-lhe o latejar do alto seio no frémito de seda do comete. Depois, com um gesto de arremesso, lançou-me aos pés um volume e afastou-se a passo rápido. "Levantei o objecto arremessado e conheci que eram papéis e um objecto de mais solidez; deviam de ser as minhas canas. O restante que seria?!

"Mafalda ia murmurando: "Que mulher, Santo Deus! Que ousadia!... Eu bem desconfiava que era ela. Quando tu estavas a dormir esta tarde, vi passar esta mesma criatura, assim encapotada sobre um grande cavalo, com um criado de farda. Tua mãe tinha-me dito como a vira em Leça, e meu pai descreveu-ma tão pelo miúdo, que a adivinhei. Não to disse, e pedi a Deus que te levasse depressa daqui...." "Não receies, minha boa prima", disse eu a Mafalda, "que esta mulher na minha vida, já agora, apenas pode ser um estorvo de três minutos, quando eu passeio nas Caídas." Minha prima replicou: "Não te iludas, meu primo: esta mulher é a tua sina maldita."

"Sorri-me e fui examinar o pacote. Eram as cartas cintadas com uma fita preta, e desta fita pendia uma pequena chave; era também uma caixinha de tartaruga fechada. Entendi que a chave pertencia à caixa. Abri-a; e vi uma trança de cabelos, com três flores ressequidas compostas entre as madeixas, como se as estivessem enfeitando. Reconheci as três flores: tinha-lhas eu levado do jardim de minha mãe, em dia dos seus anos. "Tirei a trança e, insensivelmente, a contemplá-la, achei que a tinha perto dos lábios. Circunvaguei os olhos, a examinar que me não vissem. Estava sozinho e fechado... Beijei os cabelos de Teodora, meu amigo! Peço-te desculpa de não corar agora: consinto, porém, que, se alguma vez escreveres esta história, ponhas seis pontos de admiração, quando chegares aqui, e discorras o melhor que souberes e puderes acerca da miséria do bruto que chora, e beija tranças de cabelos, do bruto que ri de seu mesmo vilipêndio, do bruto, enfim, chamado homem.

(continua...)

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