Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Amanhã! Pois vossa excelência ainda há pouco parecia resolvida a ficar esperando que o senhor general...
― É verdade; mas resolvi outro passo menos desonroso. Amanhã iremos para Barrosas, Vitorina. Aceitaremos o bem-fazer da mulher humilde. Ela foi pobre; será por isso mais compadecida.
― Estou às aranhas, minha senhora! – exclamou João Pedro. – Faça-me o favor de mudar de idéias, e queira desculpar o meu atrevimento. A senhora tenha prudência. Já que veio, fique; que seu pai, quer queira quer não, para fora de casa não a manda...
― Manda – afirmou Ângela com veemência. – Diga-me uma coisa, Sr. João: nunca ouviu falar de mim ao Sr.
general?
― Nunca: eu não sei mentir.
― Quem supõe vossemecê que seja herdeiro do senhor general?
― Os irmãos da mulher com quem ele casou quando tinha dezasseis anos, uns homens de pé descalço, que nunca vieram a esta casa. Eu desconfio, minha senhora, que seu pai está doente da cabeça, há coisa de quatro anos. Os médicos não atinam com a cura por que lhe procuram a doença no peito, e ele tem-na nos miolos; salvo tal lugar. É por isso que eu desejava que ele visse aqui vossa excelência, porque, se a visse, parece-me que atremaria outra vez.
― E, se ele morresse em Paris, eu seria expulsa desta casa pelos homens de pé descalço, não é verdade? – perguntou Ângela.
― Seria o que fosse. Eu, e mais os criados todos, iríamos jurar que seu pai não regulava do juízo quando fez o testamento; e p’ra prova basta dizer que ele mandou trazer da capela do Paço de Gondar o esqueleto da tal Josefa Salgueira com quem foi casado, e tem-no debaixo da cama num caixão de pau de alcânfora. Que-lo mais doido ao pobrezinho do velho?
― Respeite-se a sua dor, embora seja um desatino – disse Ângela. – Então ele amou muito essa mulher?
― Lá isso muito. Ela morreu de aflição, quando o viu ferido em Amarante.
― Já sabia isso. Era uma sublime alma! Conheceu-a?
― Se conheci! Andava ela com o rebanho das ovelhas, quando eu era rapazola de quinze anos. Era muito linda, isso era!
― E de minha mãe, lembra-se?
― Da senhora D. Maria d’Antas?... pois não lembro! Isso foi ontem! Fui criado dela dez anos... como hei de eu não me lembrar?
― A Vitorina diz que era muito formosa...
― Era vossa excelência sem tirar nem pôr. Estou a vê-la. Só era um poucachinho mais alta e corada. ― Lembra-se se ela era muito minha amiga?
― Parece-me que sim...
― Por quê?
― Foi ela quem a criou: não quis ama, como todas as mães que tem de seu.
― Lembra-se da morte dela?
João Pedro respondeu tardamente e tartamudo:
Não me recordo bem... Eu estava então na quinta de Santo Amaro... Lá é que me chegou a notícia de ter morrido a fidalga... E, quando voltei, o Sr. Simão de Noronha já estava fora de Portugal...
― Mas o Sr. general não mandou buscar os ossos de minha mãe? – perguntou Ângela, chorando no sorriso.
O velho não respondeu.
― Vamos deitar, Vitorina. Até amanhã, Sr. João Pedro.
― Muito bem passe a noite, fidalga.
Ao alvorejar da manhã, Ângela, que velara a noite ao pé do leito de Vitorina, foi sentar-se à banca de seu pai, e escreveu uma breve carta, que sobrescritou ao general Simão de Noronha, pedindo-lhe que perdoasse ao seu criado a caridade de a ter recebido, e lhe ter dado uma cama por uma noite, e lhe haver ainda esmolado dinheiro com que ela e sua criada pudessem chegar a outra porta caritativa. Em seguida, chamou João Pedro ao escritório de seu pai, abriu o cofre das jóias, leu-lhe a declaração do general, e ajuntou:
― É quase certo que, por morte do Sr. Simão de Noronha, me sejam entregues as jóias de minha mãe. Sobre este penhor, peço eu a vossemecê que me empreste uma moeda para eu poder ir daqui a uma terra chamada Barrosas.
Não tenho outro penhor que lhe oferecer.
― Pois eu tenho mais que uma moeda para dar a vossa excelência. Tenho cinqüenta.
― Uma me basta.
― Torno a pedir-lhe que não vá, fidalga.
― Hei de ir forçosamente.
― Faça-se a sua vontade. Irei então alugar cavalgaduras; e entretanto Vitorina fará o almoço.
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― Aqui tem esta carta: mande-a a meu pai – concluiu Ângela saindo com a face altiva e enxuta.
XV
MEIO MILHÃO!
Ao cabo de onze léguas de jornada, encontraram a quinta dos Choupos, residência de Rita de Barrosas, que os do sítio chamavam a Sr.ª D. Rita brasileira.
Quando apearam, Hermenegildo estava no espaçoso pátio vigiando os pedreiros que derruíam uma antiga torre de arquitetura manuelina para construir nos alicerces dela uma capoeira.
Fialho, habituado a ouvir repetidas descrições da formosa fidalga, reconheceu Ângela. Apertou o cós das ceroulas, abotoou o colete amarelo, deu um jeito ao colarinho desengravatado, e foi ao portão receber a hóspeda, mandando chamar a irmã.
― Faça favor de desculpar este desarranjo, minha senhora... – disse ele referindo-se às mouras verdes acalcanhadas, onde os pés jubilavam em pleno desafogo dos joanetes. – Vossa... vossa excelência é a Sr.ª D. Ângela, amiga cá da Rita?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.