Por Eça de Queirós (1888)
Carlos tirara as luvas, lentamente, retomado de novo por uma inquietação ante aquelle recolhimento adormecido. E de repente Rosa correu de dentro, rindo, pulando, com os cabellos soltos nos hombros, os braços abertos para elle. Carlos levantou-a ao ar, dizendo como costumava: «Lá vem a cabrita!... »
Mas então, quando a tinha assim suspensa, batendo os pésinhos - atravessou-o a idéa de que aquella criança era sua sobrinha e tinha o seu nome!... Largou-a, quasi a deixou cahir - assombrado para ella, como se pela vez primeira visse essa facesinha eburnea e fina onde corria o seu sangue...
- Que estás tu a olhar para mim? murmurou ella, recuando e serrindo, com as mãosinhas cruzadas atraz das saias que tufavam.
Elle não sabia, parecia-lhe outra Rosa: e á sua perturbação misturava-se uma saudade pela antiga Rosa, a outra, a que era filha de Madame MacGren, a quem elle contava historias de Joanna d'Arc, a quem balouçava na Toca sob as acacias em flôr. Ella no emtanto sorria mais, com um brilho nos dentinhos miudos, uma ternura nos bellos olhos azues, vendo-o assim tão grave e tão mudo, pensando que elle ia brincar, fazer «voz de Carlos Magno». Tinha o mesmo sorriso da mãi, com a mesma covinha no queixo. Carlos viu n'ella de repente toda a graça de Maria, todo o encanto de Maria. E arrebatou-a de novo nos braços, tão violentamente, com beijos tão bruscos no cabello e nas faces, que Rosa estrebuchou, assustada e com um grito. Soltou-a logo, n'um receio de não ter sido casto... Depois, muito sério:
- Onde está a mamã?
Rosa coçava o braço, com a testasinha franzida:
- Apre!... Magoaste-me.
Carlos passou-lhe pelos cabellos a mão que ainda tremia.
- Vá, não sejas piegas, a mamã não gosta. Onde está ella?
A pequena, aplacada, já contente, pulava em redor, agarrando nos pulsos de Carlos para que elle saltasse tambem...
- A mamã foi deitar-se... Diz que está muito cansada, depois chama-me a mim preguiçosa... Vá, salta tambem. Não sejas mono!...
N'esse instante, do corredor, miss Sarah chamou:
- Mademoiselle!...
Rosa pôz o dedinho na bôca cheia de riso:
- Dize-lhe que não estou aqui! A vêr... Para a fazer zangar!... Dize!
Miss Sarah erguera o reposteiro; e descobriu-a logo escondida, sumida por traz de Carlos, na pontinha dos pés, fazendo-se pequenina. Teve um sorriso benevolo, murmurou «good night, sir». Depois lembrou que eram quasi nove e meia, mademoiselle tinha estado um pouco constipada e devia recolher-se. Então Carlos puxou brandamente pelo braço de Rosa, acariciou-a ainda para que ella obedecesse a miss Sarah.
Mas Rosa sacudia-o, indignada d'aquella traição.
- Tambem nunca fazes nada!... Semsaborão! Pois olha, nem te digo adeus!
Atravessou a sala, amuada, esquivou-se com um repellão á governante que sorria e lhe estendia a mão - e pelo corredor rompeu n'um chôro despeitado e pêrro. Miss Sarah risonhamente desculpou mademoiselle. Era a constipação que a tornava impertinente. Mas se fosse diante da mamã não fazia aquillo, não!
- Good night, sir.
- Good night, miss Sarah...
Só, Carlos errou alguns momentos pela sala. Por fim ergueu o pedaço de tapeçaria que cerrava o estreito gabinete onde Maria se vestiu. Ahi, na escuridão, um brilho pallido d'espelho tremia, batido por um longo raio do candieiro da rua. Muito de leve empurrou a porta do quarto.
- Maria!... Estás a dormir?
Não havia luz; mas o mesmo candieiro da rua, através do transparente erguido, tirava das trevas a brancura vaga do cortinado que envolvia o leito. E foi d'ahi que ella murmurou, mal acordada:
- Entra! Vim-me deitar, estava muito cansada... Que horas são?
Carlos não se movera, ainda com a mão na porta:
- É tarde, e eu preciso sahir já a procurar o Villaça... Vinha dizer-te que tenho talvez de ir a Santa Olavia, além d'ámanhã, por dois ou tres dias...
Um movimento, entre os cortinados, fez ranger o leito.
- Para Santa Olavia?... Ora essa, porque? E assim de repente... Entra!... Vem cá!
Então Carlos deu um passo no tapete, sem rumor. Ainda sentia o ranger molle do leito. E já todo aquelle aroma d'ella que tão bem conhecia, esparso na sombra tepida, o envolvia, lhe entrava n'alma com uma seducção inesperada de carícia nova, que o perturbava estranhamente. Mas ia balbuciando, insistindo na sua pressa de encontrar essa noite o Villaça.
- É uma massada, por causa d'uns feitores, d'umas aguas....
Tocou no leito; e sentou-se muito á beira, n'uma fadiga que de repente o enleára, lhe tirava a força para continuar essas invenções d'aguas e de feitores, como se ellas fossem montanhas de ferro a mover.
O grande e bello corpo de Maria, embrulhado n'um roupão branco de sêda, movia-se, espreguiçava-se languidamente sobre o leito brando.
- Achei-me tão cansada, depois de jantar, veio-me uma preguiça... Mas então partires assim de repente!... Que sécca! D'á cá a mão!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.