Por Eça de Queirós (1888)
- Tambem eu, disse o Ega espreguiçando-se. E já não adiantamos nada, atolamo-nos mais na confusão. O melhor é serenar... Eu vou-me estirar um bocado na cama. - Até logo!
Ega subiu ao quarto, deitou-se por cima da roupa; e no seu immenso cansaço bem depressa adormeceu. Acordou tarde a um rumor da porta. Era Carlos que entrava, raspando um phosphoro. Anoitecera, em baixo tocava a campainha para o jantar.
- Demais a mais esta massada do jantar! dizia Carlos accendendo as velas no toucador. Não termos um pretexto para irmos fóra, a uma taverna, conversar em socego! Ainda por cima convidei hontem o Steinbroken.
Depois voltando-se:
- Ó Ega, tu achas que o avô sabe tudo?
O outro saltára da cama, e diante do lavatorio arregaçava as mangas:
- Eu te digo... Parece-me que teu avô desconfia... O caso fez-lhe a impressão de uma catastrophe... E, se não suspeitasse o que ha, devia-lhe causar simplesmente a surpreza de quem descobre uma neta perdida.
Carlos teve um lento suspiro. D'ahi a um instante desciam para o jantar.
Em baixo encontraram, além de Steinbroken e D. Diogo - o Craft, que viera «pedir as sopas». E em tôrno áquella mesa, sempre alegre, coberta de flôres e de luzes, uma melancolia fluctuava n'essa tarde através d'uma conversa dormente sobre doenças, - o Sequeira que tinha rheumatismo, o pobre marquez peorára.
De resto Affonso, no escriptorio, queixára-se d'uma forte dôr de cabeça, que justificava o seu ar consumido e pallido. Carlos, a quem Steinbroken achára «má cara», explicou tambem que passára uma noite abominavel. Então Ega, para desanuviar o jantar, pediu ao amigo Steinbroken as suas impressões sobre o grande orador do sarau da Trindade, o Rufino. O diplomata hesitou. Surprehendera-o bastante saber que o Rufino era um politico, um parlamentar... Aquelles gestos, o bocado da camisa a vêr-se-lhe no estomago, a pera, a grenha, as botas, não lhe pareciam realmente d'um Homem d'Estado:
- Mais cependant, cependant... Dans ce genre à, dans le genre sublime, dans le genre de Demosthènes, il m'a paru très fort... Oh, il m'a paru excessivement fort! - E você, Craft?
Craft, no sarau, só gostára do Alencar. Ega encolheu violentamente os hombros. Ora historias! Nada podia haver mais comico que a democracia romantica do Alencar, aquella Republica meiga e loura, vestida de branco como Ophelia, orando no prado, sob o olhar
de Deus... Mas Craft justamente achava tudo isso excellente por ser sincero. O que feria sempre nas exhibições da litteratura portugueza? A escandalosa falta de sinceridade Ninguem, em verso ou prosa, parecia jámais acreditar n'aquillo que declamava com ardor, esmurrando o peito. E assim fôra na vespera. Nem o Rufino parecia acreditar na influencia da religião; nem o homem da barba bicuda no heroismo dos Castros e dos Albuquerques; nem mesmo o poeta dos olhinhos bonitos na bonitice dos olhinhos... Tudo contrafeito e postiço! Com o Alencar, que differença! Esse tinha uma fé real no que cantava, na Fraternidade dos povos, no Christo republicano, na Democracia devota e coroada d'estrellas...
- Já deve ser bem velho esse Alencar, observou D. Diogo que rolava bolinhas de pão entre os longos dedos pallidos.
Carlos, ao lado, emergiu emfim do seu silencio:
- O Alencar deve ter bons cincoenta annos.
Ega jurou pelo menos sessenta. Já em 1836 o Alencar publicava coisas delirantes, e chamava pela morte, no remorso de tantas virgens que seduzira...
- Ha que annos, com effeito, murmurou lentamente Affonso, eu ouvi fallar d'esse homem! D. Diogo, que levára os labios ao copo, voltou-se para Carlos:
- O Alencar tem a idade que havia de ter teu pai... Eram intimos, d'essa roda distinguée d'então. O Alencar ia muito a Arroios com o pobre D. João da Cunha, que Deus haja, e com os outros. Era tudo uma fina flôr, e regulavam pela mesma idade... Já nada resta, já nada resta!
- Carlos baixára os olhos: todos por acaso emmudeceram: um ar de tristeza passou entre as flôres e as luzes como vinda do fundo d'esse passado, cheio de sepulturas e dôres.
- E o pobre Cruges, coitado, que fiasco! exclamou Ega, para sacudir aquella nevoa.
Craft achava o fiasco justo. Para que fôra elle dar Beethoven a uma gente educada pela chulice de Offenbach? Mas Ega não admittia esse desdem por Offenbach, uma das mais finas manifestações modernas do scepticismo e da ironia! Steinbroken accusou Offenbach de não saber contra-ponto. Durante um momento discutiu-se musica. Ega acabou por sustentar que nada havia em arte tão bello como o fado. E appellou para Affonso, para o despertar.
- Pois não é verdade, snr. Affonso da Maia? V. exc.ª tambem é como eu, um dos fieis ao fado, á nossa grande creação nacional.
- Sim, com effeito, murmurou o velho, levando a mão á testa, como a justificar o seu modo desinteressado e murcho. Ha muita poesia no fado...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.