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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Devo dar nesta correspondência, como fez a rainha no discurso de encerramento das câmaras, o lugar proeminente à preocupação do dia – a fome na Índia. Uma calamidade, a maior decerto por que tem passado a Índia desde que a Inglaterra a governa e que pode arrastar graves consequências políticas, ameaça o vasto território da presidência de Madras. Dezoito milhões de habitantes têm fome!

O ano passado as colheitas da Índia do Sul falharam, mas então os celeiros estavam bem providos, a população tinha economias, o gado de transporte abundava, o tesouro do Governo não se esvaziava e a catástrofe combateu-se com vantagem; depois, calculava-se que a colheita deste ano seria imensa, e a escassez de que se sofria seria compensada» pela abundância de que se ia gozar. Quando viesse a monção do sudoeste, a chuva cairia, a colheita seria rica, podia-se esperar!

Sucede, porém, que a monção falha, a chuva não vem, a colheita perde-se e a fome declarase. A grande fome é sucedida por uma fome maior, e diante da calamidade os celeiros achamse vazios, as economias da população exaustas, o tesouro do Governo gasto e a esperança perdida. E o que é mais: o ano de sofrimento, com uma alimentação escassa, enfraqueceu a população moralmente e fisicamente; a nova fome encontra os corpos alquebrados e as almas sucumbidas. Isto explica porque já têm morrido nas primeiras semanas de escassez quinhentas mil pessoas!

A presidência de Madras é um vasto território cheio de aldeias: o número dos proletários, dos que não têm nenhuma espécie de propriedade, sobe a cinco milhões: esta parte da população é a primeira, naturalmente, a sucumbir à necessidade. Os que possuem, isto é, os que têm uma pouca de terra ou gado, poderão durante algum tempo fazer face à escassez, sobretudo vendendo as suas jóias, que são na Índia o emprego natural das economias; mas, findo este recurso, morto todo o gado pela falta de pastos, tendo os preços duplicado – estes doze milhões de homens ficam no mesmo estado de miséria que os cinco milhões de proletários, e toda a população, ou tem de ser sustentada pelo Governo ou de morrer irremediavelmente. Mas pode o Governo realmente alimentar dezoito milhões de habitantes com cereal importado? E como há-de transportá-lo para o interior de um território largo como três ou quatro vezes Portugal»? Não há caminhos de ferro, quase todo o transporte é feito em carros de bois, mas, se os homens morrem por falta de pão, os bois estão morrendo rapidamente por falta de pastos. Os transportes escasseiam como o alimento. De sorte que, em certas partes mais retiradas do território, a população – dizem os jornais – tem «fatalmente de ser abandonada à fome». Isto é horrível.

As descrições que começam a chegar do aspecto do distrito fazem estremecer: a perder de vista, a terra seca, exausta, tem uma cor quase negra; não se descobre nenhuma verdura. A água dos poços, salobra e infecta, dá doenças terríveis aos que a bebem. Só se vê gente lívida, de uma magreza de esqueleto, com o tremor da febre, em andrajos. O colmo, que forma os tectos das casas, foi por toda a parte tirado para substituir a forragem do gado de todos os pontos. Milhares e milhares de pessoas vêm emigrando acossadas pela fome, implorando desesperadamente socorro dos empregados do Governo. E começa a aparecer uma doença própria da fome, que é a formação de pústulas na pele!

Nesta crise o governador do estado, o duque de Buckingham, presidiu a um grande meeting em Madras, onde se resolveu pedir auxílio à Inglaterra; a organização administrativa, que obriga cada estado da Índia a prover às suas próprias necessidades, não pode ser respeitada nesta desgraça. E necessário recorrer ao resto da Índia, à Inglaterra, a todo o vasto Império Britânico, e, se for necessário, estender a mão à caridade do mundo»

É justo dizer-se que a imprensa inglesa pede com grande energia que todos os recursos da Inglaterra sejam postos em acção para fornecimento rápido de alimento, ainda que se gastem milhões. Reclama-se que se encham de cereal os depósitos; que se estabeleçam caminhos de ferro de campanha, para levar socorro aos pontos mais remotos; que se formem serviços de transporte de carros puxados por homens; que se promova um vasto sistema de poços artesianos; que se levantem grandes acampamentos-asilos – onde os esfomeados recebam rações; que se inste fortemente com a caridade de todo o império – e, enfim, que se faça tudo o que pode dar o dinheiro! Se a calamidade se pode combater com libras esterlinas, diz-se que se empenhe a luta. Libras esterlinas não faltam!

E que me dizem à campanha do Danúbio? Positivamente, os Turcos são um povo de surpresas. Há dois meses, entusiastas da Rússia diziam-nos: «Vão ver, vão ver, o que é uma guerra rápida e uma lição tremenda! A Rússia vai mandar dois exércitos: um à Ásia, outro ao Danúbio; um conquista a Arménia, outra entra em Constantinopla; e o Império Otomano esfarela-se como um torrão seco!»

(continua...)

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