Por Eça de Queirós (1912)
Deixando escorregar dos ombros o molho de troncos, que tombou esmigalhando a sebe, Cristóvão ergueu a face, alargou os braços: - e durante um momento o espanto fez tão feia a sua face, que o bando recuou, as mulheres fugiram alçando os braços. Mas o frade, com o crucifixo trêmulo no ar, acumulava os exorcismos; o balio, com a vara, acirrava a multidão – e as pedras partiram, arremessadas com tanto medo, que todas se perderam no mato, em redor. Então, sem temor, Cristóvão deu um passo lento. Os seus olhos esbugalhados sondavam a turba ruidosa: viu ali, gritando contra ele, todos os que auxiliara: o moleiro, a quem servira de alimária, e carregara os fardos, brandia contra ele um cajado; a viúva do ferreiro, a quem soprara a forja, tinha duas pedras nas mãos; - e as crianças, que ele acariciara no adro, gritavam: “Aos corvos! Aos corvos!” Então uma grande dor varou o seu coração simples. A aldeia não o queria mais. Como um bicho malfazejo, como um lobo, ele era escorraçado. Duas lágrimas enevoavam as suas vastas pupilas, que reluziam: e baixando a cabeça, com humildade, Cristóvão desceu o caminho. Então a multidão ganhou ânimo. As pedras, voando, bateram nas suas espáduas, cansadas de todos os fardos; uma seta entranhou-se na sua guedelha hirsuta. Cristóvão desapareceu.
Diante dele estava a serra: para a serra subiu lentamente. E uma só dúvida tumultuava seu coração: - por que o tinham perseguido? que fizera ele? Amava a todos, servia a todos. Era o que o seu trabalho não parecia bastante útil? Ele não podia tirar mais força dos seus músculos, nem fazer que, para a labutação, os dias fossem maiores. Por que o apedrejavam então? E uma recordação entrou na sua alma, a memória de Jesus, que só fizera o bem, e que os homens tinham flagelado contra uma coluna de pedra. Ele era, pois, como o Senhor, um perseguido. E um amor maior crescia na sua alma por Jesus, sentindo confusamente que houvera entre os seus destinos uma igualdade de sofrimento... Os seus braços erguiam-se para a Lua que subia. Ali, nas alturas, estava o Senhor. E mesmo vendo a Lua tão brilhante e triste, ele pensava se não seria essa a face do Senhor!
Assim pensava, sentado numa rocha. Os olhos de um lobo luziram entre o mato. Ele pensou que talvez, esfomeado,o lobo descesse à aldeia. E erguido, deu um bardo, espantou a fera para os altos, para longe dos caminhos que desciam à aldeia. Ele viaos, esses caminhos, por entre os pinheiros. E, em baixo, as luzes mortiças, mais longe o Pego da Dona, brilhando como um disco de prata. Aí era o casebre onde, a essa hora, Joana dormia. Nunca mais ele a veria deitada na sua canastra, coberta com o mantéu negro da mãe. Nunca mais as suas mãozinhas lhe arrepelariam as barbas. E uma tristeza imensa tomava-o, uma vontade de se deitar para sempre na serra, e ficar ali até que os seus ossos brancos se não distinguissem mais das rochas brancas. Mas quem faria rir Joana, como ele, quando a erguia nos braços até a rama dos mais altos pinheiros? E quem lavraria o campo da viúva? Essa, decerto, lamentava a sua saída da aldeia. Nela sempre encontrara doçura, e um rosto que sorria na sua tristeza. Se ela o visse, decerto diria: “Cristóvão, olha o gado: Cristóvão olha a lenha!...” Se os outros o perseguiam, ela ao menos o acolheria. E agora Cristóvão esperava a madrugada para descer ao casebre de Joana.
Tênue e fresca, a madrugada nasceu por fim na serra. Rastejando entre os arvoredos, agachado para que a sua cabeça não fosse vista acima das árvores, rodeou a terra, veio ao casebre da viúva. A cancela estava fechada. O galo cacarejava, sobre o monte de mato. Já decerto o lume se acendera dentro, porque da telha vã saía fumo: e as cotovias cantavam muito alto no céu claro. Cristóvão apareceu por trás, defronte da porta do aido. Um grito assustado cortou o ar. A viúva vira Cristóvão, e arrebatando Joana, que brincava no chão, fugiu para dentro do casebre, gritando como o padre:
Abrenuntio!
Cristóvão ficou imóvel. Também ela, pois, o temia, não o queria mais! Não havia em toda a aldeia já um coração que lembrasse. As crianças fugiam dele. Por que? lentamente afastou os passos, tão triste que o canto das cotovias quase o fazia chorar. Ao lado o pego da Dona rebrilhava, como um espelho redondo. Debruçado sobre ele, olhou a sua face. Então, pela primeira vez, sentiu a sua fealdade. Decerto o repeliam por ser disforme. Esse era o seu pecado. E carregado com o peso da sua fealdade, Cristóvão para sempre deixou os lugares onde nascera.
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(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.