Por Eça de Queirós (1870)
Nesta casa, debaixo destes mesmos tectos, está morto um homem, moço, elegante e belo, que entrara aqui, cheio talvez de es peranças, de alegrias, de projectos no futuro, e quede repente caiu para todo o sempre envenenado por mão misteriosa, ignorado, des conhecido, só, longe de uma mulher amada que o espera talvez a esta hora, longe da família que oacarinhou em pequeno, longe dos lugares saudosos que o viram nascer, da mãe lacrimosa que lhe cerrasse os olhos, do pai angustiado que em nome da humanidade lhe lançasse a derradeira bênção.Desventurado rapaz! Quem sabe as torturas por que passou o teu espírito para se desprender violentamente da terra, deixando na sociedade o teu corpo inerte, impassível,mudo como a interro gação de um enigma posto anonimamente no meio de uma págin a branca? Quem sabe os pensamentos que a morte imobilizou no teu cérebro? Quem sabe os afectos que ela enregelou no teu coração, onde há pouco tempo ainda golfava abundantemente a fecunda seiva dessa mocidade esterilizada e extinta agora para sempre? Pobre moço! Tão digno de lástima como és, merecedor talvez de profundas saudades, aí estás adormecido no teu sono eterno, vestido de baile, coberto com uma manta de viagem,estirado num sofá, insensível para sempre às alegria se às amarguras desta vida miserável; e não haverá, porventura, uma só lágrima que come more, na história breve da tua passagem na terra, este prazo tão pungentemente melancólico em que os mortos estão esperando dosvivos o derradeiro e supremo favor que a humanidade pode dispen sar àqueles que mais preza e que mais ama: a doação da cova em que reside o esquecimento!Os olhos daqueles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados talvez pelo sono tranquilo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem querida; estão, porventura, fitos no conhecido caminho por onde esperam sentir-te chegar, conhecer-te o passoretardado, ouvir-te a voz cantarolando a última valsa que o baile te deixou no ouvido, ver-te finalmente aparecer, descuidado, risonho e feliz.Coitados!... Os passos daquele que ainda hoje talvez se despe diu de vós contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois, não tornarão a medir o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais à voz que o chame; os seus olhos nunca mais seembeberão nos olhos que o fitavam; os seus lábios não voltarão outra vez a aproximar-se dos lábios que se colavam nos dele!Eu não choro a tua memória, porque não te conheço, porque nunca nos encontrámos, porque não sei quem és. Mas não quero in sultar a dor que adeja sobre a tua morte, deixandome dormir na mesma casa em que jazes insepulto, enquanto alguém te espera vi vo nomundo.
Foi impelido por estes sentimentos, meu querido amigo, que eu me levantei da cama em que me estendera e vim para a mesa em que ceei, passar a noite escrevendo-te estaslongas páginas, que decerto estimaremos ler um dia, em disposição de espírito bem di ferente daquela em que ambos nos achamos hoje.Tinha em pouco mais de meio a narração que te estou fazendo, quando o silêncio que me envolvia, cortado apenas pelo frémito da minha pena no papel, foi interrompido pelas vozes dos mascarados falando baixo no aposento que atravessei antes de entrar naquele emque estou. Tinha terminado o parágrafo anterior a este, quan do o mesmo rumor se repetiu, e tive então curiosidade de escutar o que se dizia. Aproximei-me da porta e colei o ouvido aoburaco da fechadura, pelo qual nada via. Não sendo natural que os nossos aprisionadores estejam às escuras, é provável que haja um corre dor, uma passagem ou um pequeno quarto entre aquele em que eu me acho e o quarto próximo em que eles falam. Não podia percebero que diziam. Apenas de quando em quando alguma palavra solta e destacada me chegava ao ouvido. Dispunha-me a vir continuar a escrever ou a terminar esta carta, quando umlevantou mais a voz e eu ouvi distintamente estas palavras:
— Mas as notas de banco, 2300 libras em notas! Não as trazia ele? — Sei que as trazia — dizia outra voz.- É atroz, então!
Estas palavras, únicas que ouvi, fizeram-me a impressão que podes calcular!É provado para mim que a casa a que fomos trazidos não é um simples ninho consagrado a entrevistas de amor, como eu primeiro supus. Das hipóteses do prussiano é absolutamente necessário aceitar uma: isto ou é uma casa de jogo ou uma loja maçónica.Assim o provam convincentemente os ruídos que se ouviam na morada contígua. Num retiro de paixões temas não se escancaram risadas a horas mortas ao som do dinheiro que tilintanas mesas. A referência dos vultos misteriosos feita pela vizinhança permite a suspeita de reuniões secretas. O tinir do ouro, as risadas, o mes mo aspecto do boudoir em que estivemos não consentem duvidar-se que esta casa é uma caverna de jogo e de orgia. As palavras que há pouco ouvi sugerem-me sobre estas supo sições a mais tenebrosa suspeita.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.