Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Novelas#Literatura Portuguesa

O Mandarim

Por Eça de Queirós (1880)

Às primeiras linhas da sua carta ficamos consternados! Mas logo as seguintes nos deram um grato alívio, por nos certificar que estava com esses santos padres da missão cristã.... Eu partia para o yamen imperial a fazer uma severa reclamação ao príncipe Tong, sobre o escândalo de Tien-Hó. Sua Excelência mostrou um júbilo desordenado! Porque, se lamenta como particular a ofensa, o roubo e as pedradas que o meu hóspede sofreu, como ministro do Império vê a doce oportunidade de extorquir à vila de Tien-Hó, em multa, em castigo da injúria feita a um estrangeiro, a vantajosa soma de trezentos mil francos, ou, segundo os cálculos do nosso sagaz Meriskoff, cinqüenta e quatro contos de réis na moeda do seu belo país! É, como disse Meriskoff, um excelente resultado para o Erário imperial, e fica assim a sua orelha copiosamente vingada ... Aqui, começam a picar os primeiros frios, e já estamos usando peles. O bom Meriskoff lá vai sofrendo do fígado, mas a dor não lhe altera o critério filosófico nem a sábia verbosidade... Tivemos um grande desgosto: o lindo cãozinho da boa Madame Tagarieff, a esposa do nosso amado secretário, o adorável «Tu-Tu», desapareceu na manhã de 15... Fiz, na polícia, instâncias urgentes: mas o «Tu-Tu» não nos foi restituído – e o sentimento é tanto maior, quanto é sabido que a populaça de Pequim aprecia extremamente esses cãezinhos, guisados em calda de açúcar... Deu-se aqui um fato abominável e de consequências funestas: a ministra de França, essa petulante Madame Grijon, esse «galho seco» (como diz o nosso Meriskoff), no último jantar da Legação, deu, em desprezo de todas as regras internacionais, o braço, o seu descarnado braço, e a sua direita à mesa a um simples adido inglês, Lord Gordon! Que me diz a isto? É crível? É racional? É destruir a ordem social! O braço, a direita, a um adido, um escocês cor de tijolo, de vidro entalado no olho, quando havia presentes todos os embaixadores, os ministros, e eu! Isto tem causado, no corpo diplomático, uma sensação inenarrável... Esperamos instruções dos nossos governos. Como diz Meriskoff, oscilando tristemente a cabeça – é grave... é muito grave! – O que prova (e ninguém o duvida) que Lord Gordon é o benjamim do «galho seco». Que podridão! Que lodo!... A generala não tem passado bem, desde a sua partida para a malfadada Tien-Hó; o doutor Pagloff não lhe percebe o mal; é uma languidez, um murchar, uma saudosa indolência que a conserva horas e horas imóvel sobre o sofá, no Pavilhão do Repouso Discreto, com o olhar vago e o lábio cheio de suspiros... Eu não me iludo: sei perfeitamente o que a mina: é a desgraçada doença de bexiga, que lhe veio das más águas, quando estivemos na Legação de Madrid... Seja feita a vontade do Senhor!... Ela pede-me para lhe mandar un petit bonjour, e deseja que o meu hóspede apenas chegue a Paris, se for a Paris, lhe remeta pela mala da Embaixada para São Petersburgo (daí virá a Pequim), duas dúzias de luvas de doze botões, número cinco e três quartos, da marca «Sol», dos Armazéns do Louvre; assim como os últimos romances de Zola, «Mademoiselle de Maupin», de Gautier; e uma caixa de frascos de «Opoponax»... Esquecia-me dizer-lhe que mudamos de padeiro: fornecemo-mos agora da padaria da Embaixada inglesa: deixamos a da Embaixada francesa, para não ter comunicações com o «galho seco»... Aí estão os inconvenientes de não termos aqui na Embaixada russa uma padaria – apesar de tantos relatórios, tantas reclamações que, sobre esse ponto, tenho feito para a Chancelaria de São Petersburgo! Eles sabem bem que em Pequim não há padarias, que cada legação tem a sua própria, como um elemento de instalação e de influência. Mas quê! Na corte imperial desatendem-se os mais sérios interesses da civilização russa!... Creio que é tudo o que há de novo em Pequim e nas legações. Meriskoff recomenda-se, e todos desta Embaixada; e também o condezinho Arthur, o Zizi da Legação espanhola, o «Focinho Caído», e o Lulu; enfim todos; eu mais que ninguém, que me assino com saudade e afeição

General Camilloff

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2223242526...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →