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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

O Bento, que espalhara outro repique desesperado, escancarou a porta da livraria:

- E o Pereira... Está lá embaixo no pátio o Pereira que quer falar ao Sr. Doutor.

Gonçalo Mendes franziu a testa, com impaciência, assim repuxado daquelas alturas onde respirava os nobres espíritos da sua raça:

- Que maçada!... O Pereira... Que Pereira?

- O Pereira; o Manuel Pereira, da Riosa; o Pereira Brasileiro.

Era um lavrador, com casal na Riosa, chamado Brasileiro por ter herdado vinte contos de um tio, regatão no Pará. Comprara então terras, trazia arrendada a Cortiga, a falada propriedade dos condes de Monte-Agra, envergava aos domingos uma sobrecasaca de pano fino, e dispunha de sessenta votos na Freguesia.

- Ah! Dize ao Pereira que suba, que conversamos enquanto almoço... E põe outro talher.

A sala de jantar da Torre, que abria por três portas envidraçadas para uma funda varanda alpendrada, conservava, do tempo do avô Damião (o tradutor de Valerius Flaccus), dois formosos panos de Arras representando a Expedição dos Argonautas. Louças da Índia e do Japão, desirmanadas e preciosas, recheavam um imenso armário de mogno. E sobre o mármore dos aparadores rebrilhavam os restos, ainda ricos, das pratas famosas dos Ramires que o Bento constantemente areava e polia com amor. Mas Gonçalo, sobretudo de verão, sempre almoçava e jantava na varanda luminosa e fresca, bem esteirada, revestida até meio muro por finos azulejos do século XVIII, e oferecendo a um canto, para as preguiças do charuto, um profundo canapé de palhinha com almofadas de damasco.

Quando lá entrou, com os jornais da manhã que não abrira, o Pereira esperava, encostado a um grosso guarda-sol de paninho escarlate, considerando pensativamente a quinta que, dali, se abrangia até os álamos da ribeira do Coice e aos outeiros suaves de Valverde. Era um velho esgalgado e rijo, todo ossos, com um carão moreno, de olhos miudinhos e azulados, e uma barbicha rala, já branca, entre dois enormes colarinhos presos por botões de ouro. Homem de propriedade, acostumado à Cidade e ao trato das Autoridades, estendeu largamente a mão ao Fidalgo da Torre, e aceitou, sem embaraço, a cadeira que ele lhe empurrara para a mesa - onde dominavam, com os seus ricos lavores, duas altas infusas de cristal antigo, uma cheia de açucenas e a outra de vinho verde.

- Então, que bom vento o traz pela Torre, Pereira amigo? Não o vejo desde abril!

- É verdade, meu Fidalgo, desde o sábado em que caiu a grande trovoada, na véspera daeleição! - confirmou o Pereira afagando o cabo do guarda-sol que conservara entre os joelhos.

Gonçalo, numa esfaimada pressa do almoço, repicou a campainha de prata. Depois rindo:

- E os seus votos, Pereira amigo, segundo o costume, lá foram para o eterno Sanches Lucena,direitinhos, como os rios vão para o mar!

O Pereira também riu, com um riso agradado que lhe descobria os maus dentes. Pois o círculo era uma propriedade do Sr. Sanches Lucena! Cavalheiro de fortuna, homem de bem, conhecedor, serviçal... E então, quando lhe calhava como em abril o apoio do Governo, nem Nosso Senhor Jesus Cristo que voltasse à Terra e se propusesse por Vila-Clara desalojava o patrão da Feitosa!

O Bento, vagaroso, de jaqueta de lustrina preta sobre o avental resplandecente, entrava com um prato de ovos estrelados, quando o Fidalgo, que desdobrara o guardanapo, o amarrotou, arremessou com nojo:

- Este guardanapo já serviu! Eu estou farto de gritar. Não me importa guardanapo roto, ou com passagens, ou com remendos... Mas branquinho, fresquinho cada manhã, a cheirar a alfazema!

E reparando no Pereira, que discretamente arredava a cadeira:

- O quê! Você não almoça, Pereira?...

Não, agradecia muito ao Fidalgo, mas nessa tarde comia as sopas com o genro nos Bravais, que era festa pelos anos do netinho.

- Bravo! Parabéns, Pereira amigo! Dê lá um beijo meu ao netinho... Mas então ao menos umcopo de vinho verde.

- Entre as comidas, meu Fidalgo, nem água nem vinho.

Gonçalo farejara, arredara os ovos. E reclamou o "jantar da família", sempre muito farto e saboroso na Torre, e começando por essas pesadas sopas de pão, presunto e legumes, que ele desde criança adorava e chamava as palanganas. Depois, barrando de manteiga uma bolacha:

- Pois francamente, Pereira, esse seu Sanches Lucena não faz honra ao círculo! Homemexcelente, decerto, respeitável, obsequiador... Mas mudo, Pereira! Inteiramente mudo!

O lavrador roçou vagarosamente pelas ventas cabeludas o lenço vermelho, enrolado em bola:

- Sabe as coisas, pensa com acerto...

- Sim! mas pensamento e acerto não lhe saem de dentro do crânio! Depois está muito velho,Pereira! Que idade terá ele? Sessenta?

- Sessenta e cinco. Mas de gente muito rija, meu Fidalgo. O avô durou até os cem anos. E aindao conheci na loja...

- Como, na loja?

Então o Pereira, enrolando mais o lenço, estranhou que o Fidalgo não soubesse a história do Sanches Lucena. Pois o avô, o Manuel Sanches, era um linheiro do Porto, da rua das Hortas. E casado também com uma moça muito vistosa, muito farfalhuda...

(continua...)

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