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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Fez-me uma mudança espantosa no meu espírito, quando tal ouvi. Não hesitei. Subi as escadas, e minha mãe sentou-se no banco do pátio. Entrei numa sala muito rica e sentei-me à espera. Tinha o rosto banhado de lágrimas. Chegou o barão, e veio ao pé de mim, com ar muito alegre e meigo. ‘Quem a trouxe aqui, Marcolina?’, disse ele. ‘Foi minha mãe, com um recado; mas eu venho dizer-lhe outra coisa.’

Faltou-me o ânimo para continuar; mas, instada pelo barão, e com a odiosa imagem de minha mãe a instigar-me, cobrei forças e pude dizer-lhe que me tirasse da companhia de minha mãe e se compadecesse do meu infortúnio. ‘Agora mesmo’, disse ele. E saiu da sala para entrar noutra, onde mandou chamar minha mãe. Soube, depois, que nessa ocasião se realizou o contrato, com muita generosidade da parte dele no pagamento e pronta anuência dela no separarmo-nos. Neste intervalo, chorei com saudades da minha irmãzinha mais nova, que tinha cinco anos e meio e era linda como um anjo.

Passados quinze dias, a minha guarda-roupa estava cheia de cetins e veludos. Tinha brilhantes que faziam invejável a minha desonra. Tinha uma mestra, que me ensinava as atitudes senhoris nos camarotes e recebia dessa mesma lições para entrar na carruagem, apanhando a cauda dos vestidos com elegância, e saltando dela garbosamente para o banco almofadado que me oferecia o lacaio. Numa das minhas primeiras idas a S. Carlos, vi minha irmã num camarote com mais duas senhoras. Dei um grito de surpreendida e indiquei-a ao barão. ‘Não olhes para lá, disse-me ele, ‘tua irmã, se é aquela, deve ser o que são as companheiras: são três prostitutas que ali estão.’ Baixei os olhos, como obrigados pelo peso das lágrimas e da vergonha. Vergonha e lágrimas! Que mais valia eu que minha irmã, e quem era mais digna de lágrimas que eu!

Um dia recebi um bilhete de minha irmã, dando-me os parabéns da minha felicidade e pedindo-me que a não desprezasse por ter sido menos feliz que eu na carreira que a mãe nos dera a ambas. Mostrei esta carta ao barão, e ele, com soberba irritação exclamou: ‘Não lhe respondas; proibo-to, sob pena de ficarmos mal.’ - Começa o barão... - atalhei eu. - Começa o segundo acto da minha tragédia - disse Marcolina.

IV

- Fui um dia ao Campo Grande: ia sozinha na carruagem. Apeei para passear entre as árvores e vi ao longe duas senhoras correndo para mim. Conheci minha irmã e corri para ela. Abraçámo-nos a chorar. Contoume em breves palavras a sua vida. Era a minha, com a diferença das pompas. Vivia com um mercador de panos, que aborrecia; mas sujeitava-se por não ver outro caminho por onde achasse mais honesto modo de vida. Praguejou contra a mãe, analisando ao mesmo tempo os meus anéis e pulseiras com olhos cobiçosos.

Quando assim estávamos entretidas, apareceu de súbito o barão; encarou-me com desabrimento e disseme: ‘Já para casa!’ Não repliquei, nem mesmo olhei para minha irmã. O barão arguiu-me severamente; e, dizendo-lhe eu que a minha vida não era mais honesta que a da outra desgraçada, mostrou-se muito ofendido com ser comparado ao mercador de panos. Arrependi-me de dizer tal, porque ouvi insultos da sua vaidade ferida com tão pouco. Desde esse dia, comecei a sentir os espinhos da minha posição. Caí numa modorra de tristeza, mais dolorosa que a miséria. Se ia ao teatro, era violentada: se me vestia, a capricho do barão, fazia-o tão contrariada que ele rompia em desatinos contra mim, dizendo-me que eu já o não amava... como se eu o tivesse amado algum dia! O ódio a minha mãe recrescia, quanto mais eu entrava na consciência da minha perdição e no preço das galas com que eu insultava a virtude honesta. A minha grande desgraça, senhor, era eu não poder destruir os sentimentos da dignidade, talvez herdados de meu pai, que fora honrado. As mulheres na minha posição começam a ser felizes quando se enterram de todo no charco das torpezas.

Um dia, estava eu à janela, e vi passar minha mãe com a filha mais nova. Retirei-me, quando ela me ia acenar com a mão; mas ficaram-me os olhos na criança, e escondi-me a chorar. O barão encontrou-me a enxugar as lágrimas; contei-lhe a causa; e ele, querendo consolar-me, disse-me que minha mãe e irmãs estavam vivendo fartas e com decência à minha sombra, e ajuntou que, enquanto eu me portasse bem, não lhes faltaria nada. Pedilhe que me deixasse ter na minha companhia a mais nova de minhas irmãs. Não quis, nem mesmo concedeu que ela me visitasse alguma vez. Ora isto, e muitas outras contradições que fazem o desgosto da vida íntima, conseguiram desvanecer pouco e pouco a amizade que eu cheguei a dar-lhe, mais por amor da piedade com que me tratou na minha pobre casa que pela opulência com que me tinha na sua. Entrei a pensar no modo de me resgatar do cativeiro; porém, não via nenhum que não fosse aumentar o meu infortúnio.

(continua...)

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