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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

"Caminhámos para casa e não trocámos palavra. Entrei no meu quarto, lancei-me sobre a cama, abafei o rosto nas almofadas e vinguei-me do meu infortúnio a chorar. Chorei e senti-me desoprimido. Fui ao quarto de minha mãe e achei-a de joelhos orando. Quais lágrimas me deram alivio? Seriam as dela ou as minhas? As dela, que o homem, quando chora, desafoga uma paixão e abafa noutra: a do ódio. Prantos que salvam são os da dor imerecida, os apelos das iniquidades do mundo para o tribunal da Providência. E eu, quando chorava, amaldiçoava e pedia vingança.

"No dia seguinte fui para Coimbra. "Concentrei-me com a visão da ponte de Leça. Não me deixou aquele adorado demónio recair na minha miséria da embriaguez. Para quê - dizia eu -, se tenho de voltar à razão para encontrá-la com a tenaz ardente da tortura?

"Quinze dias depois da minha chegada, abri uma carta marcada em Braga. Oscilaram-me as pernas, e cuidei ouvir dentro do peito o despegar-se-me o coração, uma dor que eu não sei se é comum de todas as organizações, dor que eu tenho tantas vezes experimentado, que já a considero aleijão dos vasos sanguíneos. A carta era de Teodora, as linhas muito poucas, e assim, se bem me lembro: Foi o mau anjo da minha vida que me levou para onde tu estavas, Afonso.”

Faltava-me o inferno de hoje. Não bastava o remorso: era necessária a fatalidade do amor, da paixão. Daqui por diante há-de rasgar-me o peito a desesperação dos réprobos, que Deus lançou de si. Arrasto-me a teus pés a pedir perdão. Não me amaldiçoes tu de hoje em diante. Se tens padecido. perdoa, e Deus te dê o triunfo na bem-aventurança; se te esqueceste, escarnece-me. Que vingança maior? Adeus. Alegrate, que eu desejo a morte e ela virá salvar a minha pobre alma deste miserável corpo.

"Que luta, meu amigo! As horas daquele dia e daquela noite foram uma continuada alternativa de alegria doida e de excruciante agonia! Começava a escreverlhe, e rasgava logo as cartas, envergonhando-me diante de minha própria consciência. A paixão ia tocando as extremas onde principia a perversão moral. Já me queria parecer que não era indignidade nenhuma responder-lhe eu, quer insultando-a, quer atirando-lhe aos pés com o meu coração infame. Ultrajá-la e adorá-la era então a despótica necessidade da minha cabeça alucinada.

"Eu carecia de um amigo, e não tinha nenhum a quem mostrasse as secretas dores, que escondera de todos. Tive ânsias de uma alma que me escutasse. Lembraram-me todos os que mais tinham convivido comigo. Sem excepção de um só, eram todos fúteis e incapazes de me pouparem à sua zombaria, se me vissem chorar. Sufoquei-me, atirei-me aos braços da minha algoz fantasia, deixei-me dilacerar pelo abutre da soberba, soberba de não ser ridículo em nenhuma das minhas desgraças.. "Passaram três dias. Na minha banca estavam três cartas fechadas e fragmentos de outras, que eu destinara a Teodora. Abri as canas, reli-as, tive pejo e tédio de mim, rasguei-as e fui embriagar-me.

"Porquê? Porque não havia eu de ser o que seria todo o homem abrasado de amor, ou sequioso de vingança? Que tinha que eu, condoendo-me ou escarnecendo-a, lhe perdoasse? Se alguém se rira de mim abandonado dela, que maior vitória queria eu senão a de fazer risível o marido da mulher castigada por sua mesma abjecção? Esta filosofia hedionda, com que se pavoneia a filáucia de muitos sujeitos, celebrados pela inveja e admiração de outros miseráveis do mesmo formato, quem me privou de a seguir, e aproveitar num caso de vida, em que a minha cura não podia esperar-se da religião, da moral, ou da volubilidade de meu carácter? Não lhe respondi; é o que sei dizer do meu inflexível pundonor dos dezanove anos. Era uma feroz vingança que me infligia à conta do cobarde quebranto em que me deixara a aparição da mulher vil, arreiada com as pompas da felicidade.

"O meu segundo ano de Coimbra foi um continuado suicídio. Desbaratei a saúde em toda a espécie de desregramento e libertinagem. Não dei nos olhos da academia, porque, naquele ano de 1846, a fermentação da guerra civil absorvia os espíritos alvorotados dos académicos. Fechou-se a Universidade em Maio, quando eu, extenuado de insónias e empeçonhado de bebidas estimulantes, caí de cama, com o sincero desejo e alegre esperança de que me não levantaria mais.

"Escondi de minha mãe aquele estado enquanto me não assaltou o remorso de a não chamar ao meu leito e confessar-me da vileza de alma que me levara a destruir a minha vida por meios tão ignominiosos. Foi esta vergonha que me salvou. Pedi com ânsia e lágrimas aos médicos que me salvassem. Disseram-me que fosse para a Madeira recobrar vigor e viajasse depois um ano nos países temperados e arborizados. A meu ver, a ciência queria dizer no seu receituário que eu estava em vésperas de encetar uma viagem barreiras adentro da eternidade.

(continua...)

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