Por Eça de Queirós (1888)
Acordou ao outro dia ás nove horas, ao lado da Carmen Philosopha, n'um quarto de grandes janellas rasgadas por onde entrava toda a melancolia da escura manhã de chuva. E, emquanto não vinha a tipoia fechada que a servente correra a chamar, o pobre Ega enojado, vexado, com a lingua pastosa, os pés nús sobre o tapete, reunindo o fato espalhado, tinha só uma idéa clara - fugir d'alli para um grande banho, bem perfumado e bem fresco, onde se purificasse n'uma sensação viscosa de Carmen e d'orgia que o arrepiava. Esse banho lustral foi tomal-o ao Hotel Braganza, para se encontrar com Carlos e com Villaça ás onze horas já lavado e preparado. Mas precisou esperar pela roupa branca que o cocheiro, com um bilhete para o Baptista, voára a buscar ao Ramalhete: depois almoçou: e já batera meio dia quando se apeou á porta particular dos quartos de Carlos, com a roupa suja n'uma trouxa.
Justamente Baptista atravessva o patamar com camelias n'um açafate.
- O Villaça já veio? Perguntou-lhe Ega baixo, andando em pontas de pés.
- O snr. Villaça já lá está dentro ha bocado. V. exc.ª recebeu a roupa branca?... Eu tambem mandei um fato, porque n'esses casos sempre dá mais frescura...
- Obrigado, Baptista, obrigado!
E Ega pensava: - «Bem, Carlos já sabe tudo, o barranco está passado!» Mas demorou-se ainda, tirando as luvas e o paletot com uma lentidão cobarde. Por fim, sentindo bater alto o coração, puxou o reposteiro de velludo. Na ante-camara pesava um silencio; a chuva grossa fustigava a porta envidraçada, por onde se viam as arvores do jardim esfumadas na nevoa. Ega levantou o outro reposteiro que tinha bordadas as armas dos Maias.
- Ah! és tu? exclamou Carlos, erguendo-se da mesa de trabalho com uns papeis na mão.
Parecia ter conservado um animo viril e firme: apenas os olhos lhe rebrilhavam, com um fulgor sêcco, anciosos e mais largos na pallidez que o cobria. Villaça, sentado defronte, passava vagarosamente pela testa, n'um movimento cansado, o lenço de sêda da India. Sobre a mesa alastravam-se os papeis da Monforte. - Que diabo de embrulhada é esta que me vem contar o Villaça? rompeu Carlos, cruzando os braços diante do Ega, n'uma voz que apenas de leve tremia.
Ega balbuciou:
- Eu não tive coragem de te dizer...
- Mas tenho eu para ouvir!... Que diabo te contou esse homem?
Villaça ergueu-se immediatamente. Ergueu-se com a pressa d'um galucho timido que é rendido n'um posto arriscado, pediu licença, se não precisavam d'elle, para voltar ao escriptorio. Os amigos decerto preferiam conversar mais livremente. De resto, alli ficaram os papeis da snr.ª D. Maria Monforte. E se elle fosse necessario um recado encontrava-o na rua da Prata ou em casa...
- E v. exc.ª comprehende, acrescentou elle enrolando nas mãos o lenço de sêda, eu tomei a iniciativa de vir fallar, por ser o meu dever, como amigo confidencial da casa... Foi essa tambem a opinião do nosso Ega...
- Perfeitamente, Villaça, obrigado! acudiu Corlos. Se fôr necessario lá mando...
O procurador, com o lenço na mão, lançou em redor um olhar lento. Depois espreitou debaixo da mesa. Parecia muito surprehendido. E Carlos seguia com impaciencia os passos timidos que elle dava pelo quarto, procurando... - Que é, homem?
- O meu chapéo. Imaginei que o tinha posto aqui... Naturalmente ficou lá fóra... Bem, se fôr necessario alguma coisa...
Mal elle sahiu, atirando ainda os olhos inquietos pelos cantos, Carlos fechou violentamente o reposteiro. E voltando para o Ega, cahindo pesadamente n'uma cadeira:
- Dize lá!
Ega, sentado no sofá, começou por contar o encontro com o snr. Guimarães, em baixo no botequim da Trindade, depois de ter fallado o Rufino. O homem queria explicações sobre a carta do Damaso, sobre a bebedeira hereditaria... Tudo se aclarára, ficando d'ahi entre elles um começo de familiaridade...
Mas o reposteiro mexeu de leve - e surdiu de novo a face do Villaça:
- Peço desculpa, mas é o meu chapéo... Não o acho, havia de jurar que o deixei aqui...
Carlos conteve uma praga. Então Ega procurou tambem, por traz do sofá, no vão da janella. Carlos, desesperado, para findar, foi vêr entre os cortinados da cama. E Villaça, escarlate, afflicto, esquadrinhava até a alcova do banho...
-Um sumiço assim! Emfim, talvez me esquecesse na ante-camara!... Vou vêr outra vez... O que peço é desculpa.
Os dois ficaram sós. E Ega recomeçou, detalhando como Guimarães, duas ou tres vezes nos intervallos, lhe viera fallar de coisas indifferentes, do sarau, de politica, do papá Hugo, etc. Depois elle procurára Carlos para irem um bocado ao Gremio. Terminára por
sahir com o Cruges. E passavam defronte do Alliança...
Novamente o reposteiro franziu, Baptista pediu perdão a suas excellencias:
- É o snr. Villaça que não acha o chapéo, diz que o deixou aqui...
Carlos ergueu-se furioso, agarrando a cadeira pelas costas como para despachar o Baptista. - Vai para o diabo tu e o snr. Villaça!... Que sáia sem chapéo! Dá-lhe o meu! Irra!
Baptista recuou, muito grave.
Vá, acaba lá! exclamou Carlos, recahindo no assento, mais pallido.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.