Por Eça de Queirós (1888)
E pouco a pouco, sob o tepido conchêgo dos cobertores em que se atabafára, começou a afigurar-se-lhe menos urgente, e menos util, essa correria estremunhada a casa do Villaça... De que servia procurar o Villaça? Não se tratava alli de dinheiro, nem de demandas, nem de legalidade - de nada que reclamasse a experiencia d'um procurador. Era apenas introduzir um burguez mais n'um segredo tão terrivelmente delicado que elle mesmo se assustava de o saber. E acochado mais sob a roupa, apenas com o nariz ao frio, murmurava comsigo: «É uma tolice ir ao Villaça!»
De resto não poderia elle ajuntar em si bastante coragem para contar tudo a Carlos, logo, n'essa manhã, claramente, virilmente? Era por fim aquelle caso tão pavoroso como lhe parecera na vespera - um irreparavel desabamento d'uma vida de homem?... Ao pé da
quinta da mãe, em Celorico, no logar de Vouzeias, houvera um successo parecido, dois irmãos que innocentemente iam casar. Tudo se aclarou ao reunirem-se os papeis para os banhos. Os noivos ficaram uns dias «embatucados», como dizia o padre Seraphim; mas por
fim já riam, muito amigos, muito divertidos, quando se tratavam de «manos». O noivo, um rapagão bonito, contava depois «que ia havendo uma mixordia na familia». Aqui o engano seguira mais longe, as sensibilidades eram mais requintadas; mas os seus corações permaneciam livres de toda a culpa, innocentes absolutamente. Porque ficaria pois a existencia de Carlos para sempre estragada? A inconsciencia impediu-lhe o remorso: e passado o primeiro horror, de que lhe podia, na realidade, vir a definitiva dôr? Sómente do prazer ter findado. Era então como outro qualquer desgosto d'amor. Bem menos atroz do que se Maria o tivesse trahido com o Damaso!
De repente a porta abriu-se, Carlos appareceu exclamando:
- Então que madrugada foi esta? Disse-me agora lá em baixo o Baptista... É aventura? duello?
Trazia o paletot todo abotoado, com a gola erguida, escondendo ainda a gravata branca da vespera; e decerto chegára da rua de S. Francisco na tipoia que havia instantes Ega sentira parar na calçada.
Elle sentára-se bruscamente na cama; e estendendo a mão para os cigarros, sobre a mesa ao lado, murmurou, bocejando, que na vespera combinára uma ida a Cintra com o Taveira... Por precaução mandárase chamar... Mas não sabia, acordára cansado...
- Que tal está o dia?
Justamente Carlos fôra correr o transparente da janella. Ahi, na mesa de trabalho, collocada em plena luz, ficára a caixa da Monforte embrulhada no Rappel. E Ega pensou n'um relance: - «Se elle repara, se pergunta, digo tudo!» - O seu pobre coração pôz-se a bater anciosamente no terror d'aquella decisão. Mas o transparente um pouco pêrro subiu, uma facha de sol banhou a mesa - e Carlos voltou sem reparar no cofre. Foi um immenso allivio para o Ega.
- Então, Cintra? disse Carlos, sentando-se aos pés da cama. Com effeito não é má idéa... A Maria ainda hontem esteve tambem a fallar d'ir a Cintra... Espera! Podiamos fazer a patuscada juntos... Iamos no break, a quatro!
E olhava já o relogio, calculando o tempo para atrellar, avisar Maria.
- O peor, acudiu o Ega atrapalhado, tomando de sobre a mesa o monoculo, é que o Taveira fallou em irmos com umas raparigas...
Carlos encolheu os hombros com horror. Que sordidez, ir com mulheres para Cintra, de dia!... De noite, nas trevas, por bebedeira, vá... Mas á luz do Senhor! Talvez com a Lola gorda, hein?...
Ega embrulhou-se n'uma complicada historia, limpando o monoculo á ponta do lençol. Não eram hespanholas... Pelo contrario, umas costureiras, raparigas sérias... Elle tinha um compromisso antigo d'ir a Cintra com uma d'ellas, filha d'um Simões, um estofador que fallira... Gente muito séria!...
Perante estes compromissos, tanta seriedade, Carlos desistiu logo da idéa de Cintra.
- Bem, acabou-se!... Vou então tomar banho e depois a negocios... E tu, se fôres, traze-me umas queijadas para a Rosa, que ella gosta!...
Apenas Carlos sahiu, Ega cruzou os braços desanimado, descorçoado, sentindo bem que não teria coragem nunca de «dizer tudo». Que havia de fazer?... E de novo, insensivelmente, se refugiou na idéa de procurar o Villaça, entregar-lhe o cofre da Monforte. Não havia homem mais honesto, nem mais pratico; e, pela mesma mediocridade do seu espirito burguez, quem melhor para encarar aquella catastrophe sem paixão e sem nervos?... E esta falta de nervos do Villaça fixou-o definitivamente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.