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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

A grande novidade em Londres é a chegada de um hóspede ilustre – o Sr. Pongo. Quem é o Sr. Pongo? É uma personagem em que todo o mundo fala, por quem as mulheres andam entusiasmadas, cuja fotografia se vende a cada canto e cujas acções mais insignificantes são registadas em tipo graúdo pelos jornais mais sérios.

O Sr. Pongo não é um príncipe, nem um general, nem um escritor, nem um descobridor, nem sequer um rabequista – é simplesmente um macaco! Mas que macaco! É um gorilha: o primeiro, o único que tem vindo à Europa!

Este ilustre hóspede, que esteve primeiro em Berlim, que deu lugar a troca de notas diplomáticas entre o Governo inglês e o alemão a respeito da sua posse, chegou a Londres, onde é objecto de um fanatismo insensato. O Sr. Pongo (é assim que é geralmente conhecido) tem quatro anos de idade, ainda não entrou no período de dentição, já tem três pés e três quartos de altura e os seus músculos são de uma extrema força e agilidade. Comia ordinariamente farináceos e frutas, mas ultimamente o seu guarda, tendo-lhe dado um pedaço de bife, notou que Pongo o devorava com singular apetite. Começaram a dar-lhe carne e água; come tudo o que come um gentleman: o seu almoço é como o de qualquer de nos – ovos e costeletas ou beefsteak.

Ao princípio só bebia água, mas veio-se à conclusão que poderia beber tudo – desde Bordéus até Moet et Chandon; a sua bebida favorita, porém, é a cerveja. Depois dos repastos dão-lhe um charuto, que ele fuma, deitando o fumo pelo nariz. A sua fisionomia e tão inteligente, tão viva, que, sem falar, compreende-se tudo o que ele quer dizer, pela vivacidade brilhante do olhar e pelo movimento dos beiços.

Apesar de não se exprimir, parece compreender certas expressões humanas: assim, quando ouve uma boa gargalhada, exalta-se, aplaude com as mãos, ri e parece cheio de júbilo. Mas o que há nele de mais humano é o instinto, próprio de crianças, de levar tudo à boca: assim, se lhe dão um lápis, antes de tratas de escrevinhar, leva o lápis à boca – como um baby.

O gorilha é, como sabem, o animal do qual o homem provém directamente, segundo as teorias modernas. Até aqui nunca fora possível caçar um vivo – e explica-se o interesse fanático que excita em Londres a presença deste nosso venerável antepassado.

Milhares de pessoas afluem a admirar esta espécie de homem primitivo, que há alguns mil anos era o que havia de mais perfeito na superfície da Terra e era então o rei da Criação! Quem sabe se daqui a alguns mil anos, quando a raça humana, tal qual é hoje, tiver quase desaparecido para dar lugar a uma forma humana mais perfeita, um sábio então não encontrará, nos desertos ou nos bosques, um último homem e não virá expô-lo, em triunfo, nalguma Londres dessa época? E os seres mais perfeitos de então virão contemplar com espanto o seu antepassado, o homem, como nós contemplamos hoje o nosso antepassado, o gorilha!

Segundo os especialistas, o que há de mais extraordinário neste gorilha é que não tem pêlo, o que prova, creio, que a sua raça é justamente a imediata antes do homem...

Realmente, a não ser a sua cor escura, nada o distingue de um homem feio, com uma barba por baixo do queixo. O Sr. Pongo, naturalmente, não está preso: vive num pequeno parque (no Aquário de Westminster) que lhe foi destinado.

A multidão não parece importuná-lo: de resto, todas as medidas estão tomadas para que o não molestem. O sentimento geral, quando a gente o vê, é de pasmo e de melancolia. A sua face, a sua figura, os seus gestos, a maneira de se sentar, de passear encostado à bengala, são tão humanos – ia quase a dizer, tão modernos – que sentimos uma espécie de veneração por aquele avô da raça humana e um certo desdém por nós mesmos, que há alguns mil anos éramos apenas aquilo!.

O que mais o importuna, a meu entender, são as mulheres. As inglesas, que positivamente são doidas, estão apaixonadas, em massa, pelo gorilha. Um jornal, hoje, contava que ontem foi necessário arrancá-lo dos braços de uma senhora, que o devorava de beijos e não o queria largar, declarando que era encantador. O gorilha, que é ainda infante e não chegou à idade do Sentimento, parece apreciar mediocremente estes excessos de ternura. Noutro dia, encheu de bofetadas uma miss que lhe estava a «fazer olho». E esta lição de moralidade e de conveniência, dada por um macaco a uma senhora, aumentou singularmente o meu respeito pelo simpático Pongo.

O único receio do povo de Londres é que ele morra.

Receia-se o Inverno, mas, até agora, dorme bem, almoça o seu beefsteak, janta sopa, roastbeef e sobremesa, fuma três ou quatro charutos por dia, palita os dentes, dorme a sesta – e faz tudo o que faz qualquer inglês, excepto ter uma opinião sobre a questão do Oriente, o que é, penso eu, uma qualidade a seu favor!

VI

Londres, 15 de Agosto de 1877

(continua...)

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