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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

— Eu não creio nem também descreio de coisa alguma que ouço — responde-me ele. — É meu sistema admitir tudo quanto esteja para se provar ç duvidar de tudo aquilo que meapresentem como coisa positiva. É o único meio prudente de nunca nos afastarmos muito da verdade. Se escutou a conversa de há pouco, tem uma parte da história desta casa. Negueiquanto me disse o homem que esteve aqui porque me obriguei como senhorio do prédio a desvanecer com as minhas informações o anátema que pesa sobre a sua propriedade. A verdade é que tenho ouvido distintamente há duas noites consecutivas um rumor insistente eprolongado semelhante aos estalidos que produz, ao atear-se, uma fogueira de carvão, e tenho aqui sobre uma banca um busto de Allan Kardec que, sem eu poder explicar comonem porquê, se move, sem que ninguém lhe toque, do centro da mesa em que o coloquei para uma das extremi dades dela. O pó aglomerado em volta da base do busto, e que eu tenho o mais escrupuloso cuidado em não espanar nunca, vai dei xando sucessivamente sobre asuperfície da mesa o vestígio desse movimento vagaroso, lento, quase imperceptível, mas progressivo e constante. Nesta porta, ao pé da qual coloquei hoje a cama, ou ço em cadanoite, ora por duas ora por três vezes, uma argolada per feitamente clara e distinta. Abro imediatamente a porta (mudei a cama para este ponto a fim de poder fazê-lo do modo mais rápido), fica sempre inexplicável para mim a razão por que se levanta a ar gola do ferrolho ebate de per si mesma na porta!

Todas estas coisas eram asseveradas pelo prussiano com a ên fase da sinceridade e daconvicção mais profunda! — E desta casa de cá — observei-lhe eu — que tem ouvido? O que sabe? Que lhe consta? — Eu lhe digo...

— Sinceramente! — Por mim pessoalmente nada tenho ouvido, O inquilino que me precedeu conta que ouvia no silêncio da noite um rumor confu so de vozes, o estalar de risadas e o tilintar dedinheiro. Alguns vizinhos têm visto entrar vultos misteriosos. Tudo isto, porém, se ex plica do modo mais natural deste mundo.

— Qual é então o seu juízo, vejamos?- É evidentemente...

— Diga! Diga!- Presumo eu, pelo menos... — Vamos! Sem rodeios, francamente! — De duas uma: ou uma loja maçónica, ou uma casa de jogo.

IV

As palavras do alemão acabavam de lançar no meu espírito a luz súbita de uma revelação que me obrigava a meditar.O que se passava por mim, o mistério que me cercava, o cadá ver que vira, a presunção

— ainda que vaga — da concorrência de um ou mais amigos meus envolvidos nesteacontecimento, tudo is to era tão extraordinário e tão grave que eu não ousava referi-lo ao homem desconhecido que o acaso me deparava por vizinho.

Era já positivo para mim que me achava em Lisboa. Desejava naturalmente saber qualera a rua e a casa em que estava: não me ocorria, porém, um pretexto plausível para levar o alemão a dizer -mo, sem que eu o interrogasse de um modo ambíguo, que poderia levantar sobre a situação em que me acho suspeitas talvez perigo sas para a segurança das pessoascomprometidas neste negócio. Contentei-me, pois, em alegar o incómodo a que me obrigava aposição em que estava, e dei as boas-n oites ao meu vizinho. Ele des pediu-se batendo nomuro três pancadas espaçadas por pausas iguais às daquelas com que eu primeiro lhe despertara a atenção. Lembrou-me que poderia ser mação aquele homem, e que nas circunstâncias em que eu estava me serviria a protecção que lhe pedisse em nome dejuramentos recíprocos e de compromissos comuns. Dei-lhe então uma letra, ele respondeume com outra e assim construímos sucessivamente a palavra da senha:- Salut, mon fre`re! — exclamou ele.- Segredo! — disse-lhe eu baixinho, respondendo com os nós dos dedos no muro ao sinal que me dera.Fechei em seguida o armário, cheguei a cama para o lugar de onde a tinha removido, e deitei-me vestido.Não podia dormir. Principiei a pensar e a entristecer.

(continua...)

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