Por Eça de Queirós (1925)
Aquilo consolava o seu orgulho. E mostrava que era um marido rígido, e de honra – expulsando sua mulher só pôr um simples olhar trocado. Assim a sua honra estava salva, o seu coração sofria menos.
E agora invadia-o uma alegria, de sair enfim daquelas idéias violentas de morte, em que andava envolvido, e reentrar na rotina da vida, no seu negócio, nas suas relações, nos seus livros. Mas então, à idéia da rotina, da casa comercial, uma idéia tomou-o, encheu-o de perturbação.
— E o Machado? Eu não posso falar mais ao Machado!
Mas Medeiros tinha discutido esse ponto com o Nunes. E fora o Nunes que tivera uma idéia de bom senso. Aqui está o que o Nunes dissera. Desde o momento em que não há motivo para duelo, não há motivo para que se interrompam as relações comerciais...
Godofredo protestou:
— Então há-de amanhã entrar pelo escritório?
— Quem te diz amanhã, homem? Aqui está o que disse o Nunes, é o que faz o Machado. Amanhã escreve-te uma carta oficial, para que o guarda-livros veja, e o caixeiro, dizendo que vai para fora da terra, com a mãe, e que te pede que olhes pela casa, etc... Depois, ao fim de um ou dois meses, volta, vocês cumprimentamse, sentam-se cada um a sua carteira, falam no que têm que falar acerca do negócio, e acabou-se. O que não têm é relações íntimas, escusam mesmo de se tratar pôr tu.
E como Godofredo olhava o chão, refletia, os dois caíram sobre ele.
— Tapas assim a boca ao mundo – disse o Carvalho.
— Salvas-te do ridículo – disse o Medeiros.
— Manténs a firma intacta e unida...
— Livras tua mulher de má fama!...
— Conservas um sócio inteligente e trabalhador. — E talvez um amigo!
Então uma fadiga invadiu Godofredo. Os seus nervos relaxaram. Veio-lhe um desejo de não pensar mais naquele desgosto, não falar mais nisso, dormir tranqüilo; e cedeu, abandonou-se, perguntou com a voz do coração:
— Então vocês acham, em sua honra, que assim tudo fica bem? — Achamos – disseram ambos.
Godofredo apertou a mão a um, depois ao outro, comovido, quase com lágrimas:
— Obrigado, Carvalho. Obrigado, Medeiros.
Depois, para fazer logo tapar as bocas do mundo, foram ao Passeio Público – onde havia essa noite iluminação e fogo preso, indo primeiro tomar sorvete ao Martinho.
CAPÍTULO VIII
Então começou para Godofredo uma existência abominável.
Tinham passado semanas e Machado voltara, ocupava agora, como sempre, a sua carteira no gabinete de reps verde. Godofredo temera sempre aquele encontro, não julgara possível que eles pudessem passar dias, um ao lado do outro, manejando os mesmos papéis, tocando-se pôr mil interesses comuns, com a idéia daquele dia nove de julho, aquele encontro sobre o sofá. Mas pôr fim tudo se passara convenientemente, e não havia atritos.
Na véspera da sua chagada Machado escrevera-lhe uma carta, polida, quase humilde, em que se percebia mesmo certo tom de tristeza; dizia-lhe que ia voltar, que no dia seguinte apareceria no escritório, e que esperava que toda a idéia do passado desaparecesse nas suas novas relações, e que estas fossem sempre dominadas pôr uma respeitosa cortesia; acrescentava que compreendendo porém as dificuldades desta nova situação, ele só a aceitava pôr algum tempo para salvar a dignidade e fazer calar a maledicência, reservando-se o deixar a firma logo que o pudesse fazer sem escândalo. Nesse dia, Godofredo foi mais cedo ao escritório, e fez uma coisa hábil: disse ao guarda-livros, diante do caixeiro, que houvera entre ele e o sr. Machado certas desinteligências, e que as suas relações tinham sofrido modificações.. Estas palavras vagas tinham pôr fim evitar a surpresa, os comentários do guarda-livros, quando os visse agora, defronte um do outro, secos, corteses, e tratando-se pôr senhor Alves e senhor Machado. O guarda-livros murmurou que sentia muito; e dali a instantes Machado apareceu. Foi um momento desagradável. Durante todo o resto do dia mal puderam dar atenção ao que faziam: e o menor movimento do Machado, o puxar do lenço, um passo ao soalho despertavam em Godofredo toda a sorte de lembranças desagradáveis. Uma ou duas vezes atravessou-o um desejo violento de o vituperar, acusá-lo de todas as tristezas que agora enchiam a sua vida: mas conteve-se, apenas se vendo impotente para engolir um ou outro suspiro.
A atitude do Machado foi respeitosa e triste. E quase não trocaram uma palavra. O quer que fosse de angustioso pesava no ar. E o estúpido do caixeiro tornava todo este embaraço mais saliente, teimando em andar em bicos de pés, como numa casa onde há um morimbundo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.