Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

E caminhando nos ladrilhos sonoros, desde a lareira até o arco da porta cerrado por uma cortina de couro, Tructesindo, com a branca barba espalhada sobre os braços cruzados, escutava Mendo Pais, que, na confiança de parente e amigo, jornadeara sem homens da sua mercê, cingindo apenas por cima do brial de lã cinzenta uma espada curta e um punhal sarraceno. Açodado e coberto de pó correra Mendo Pais desde Coimbra para suplicar ao sogro em nome do Rei e dos preitos jurados, que se não bandeasse com os de leão e com as senhoras Infantas. E já desenrolara ante o velho todos os fundamentos invocados contra elas pelos doutos Notários da Cúria - as resoluções do Concilio de Toledo! a bula do Apóstolo de Roma, Alexandre! o velho foro dos Visigodos!... De resto, que injúria fizera às senhoras Infantas seu real irmão, para assim chamarem hostes Leonesas a terras de Portugal? Nenhuma! Nem Regedoria nem renda dos castelos e vilas da doação de D. Sancho lhes negava o senhor D. Afonso. O Rei de Portugal só queria que nenhum palmo de chão português, baldio ou murado, jazesse fora de seu senhorio real. Escasso e ávido, El-Rei D. Monso?... Mas não entregara ele à senhora D. Sancha oito mil morabitinos de ouro? E a gratidão da irmã fora o Leonês passando a raia e logo caídos os castelos formosos de Ulgoso, de Contrasta, de Urros e de Lanhoselo! O mais velho da casa dos Sousas, Gonçalo Mendes, não se encontrara ao lado dos Cavaleiros da Cruz na jornada das Navas, mas lá andava em recado das Infantas, como mouro, talando terra portuguesa desde Aguiar até Miranda! E já pelos cerros de Além-Douro aparecera o pendão renegado das treze arruelas - e por trás, farejando, a alcatéia dos Castros! Carregada ameaça, e de armas cristãs, oprimindo o Reino - quando ainda Moabitas e Agarenos corriam à rédea solta pelos campos do Sul!... E o honrado Senhor de Santa Irenéia, que tão rijamente ajudara a fazer o Reino, não o deveria decerto desfazer arrancando dele os pedaços melhores para monges e para donas rebeldes! - Assim, com arremessados passos, exclamara Mendo Pais, tão acalorado do esforço e da emoção, que duas vezes encheu de vinho uma conca de pau e de um trago a despejou. Depois, limpando a boca às costas da mão trêmula:

- Ide por certo a Montemor, senhor Tructesindo Ramires! Mas em recado de paz e boa avença, persuadir vossa senhora D. Sancha e as Senhoras Infantas que voltem honradamente a quem hoje contam por seu pai e seu Rei!

O enorme senhor de Santa Irenéia parara, pousando no genro os olhos duros, sob a ruga das sobrancelhas, hirsutas e brancas como sarças em manhã de geada:

- Irei a Montemor, Mendo Pais, mas levar o meu sangue e o dos meus para que justiça logrequem justiça tem.

Então Mendo Pais, amargurado, ante a heróica teima:

- Maior dó, maior dó! Será bom sangue de Ricos-homens vertido por más desforras... SenhorTructesindo Ramires, sabei que em Canta-Pedra vos espera Lopo de Baião, o Bastardo, para vos tolher a passagem com cem lanças!

Tructesindo ergueu a vasta face - com um riso tão soberbo e claro que os alões rosnaram torvamente, e, acordando, o falcão esticou a asa lenta:

- Boa nova e de boa esperança! E, dizei, senhor Mordomo-Mor da Cúria, tão de feição e certaassim ma trazeis para me intimidar?

- Para vos intimidar?... Nem o Senhor Arcanjo S. Miguel vos intimidaria descendo do céu comtoda a sua hoste e a sua espada de lume! De sobra o Rei, Senhor Tructesindo Ramires. Mas casei na vossa casa. E já que nesta lide não sereis por mim bem ajudado, quero, ao menos, que sejais bem avisado.

O velho Tructesindo bateu as palmas para chamar os sergentes:

- Bem, bem, a cear, pois! À ceia, Frei Múnio!... E vós, Mendo Pais, deixai receios.

- Se deixo! Não vos pode vir dano que me anseie de cem lanças, de duzentas, que vos surjam acaminho.

E, enquanto o monge enrolava o seu pergaminho, se acercava da mesa - Mendo Pais ajuntou com tristeza, desafivelando vagarosamente o cinturão da espada:

- Só um cuidado me pesa. E é que, nesta jornada, senhor meu sogro, ides ficar de mal com oReino e com o Rei.

- Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino e como Rei, mas de bem com a honra e comigo!

Este grito de fidelidade, tão altivo, não ressoava no poemeto do tio Duarte. E quando o achou, com inesperada inspiração, o Fidalgo da Torre, atirando a pena, esfregou as mãos, exclamou, enlevado:

- Caramba! Aqui há talento!

Rematou logo o Capítulo. Estava esfalfado, à banca do trabalho desde as nove horas, a reviver intensamente, e em jejum, as energias magníficas dos seus fortes avós! Numerou as tiras fechou na gaveta à chave o volume do Bardo. Depois à janela, com o colete desabotoado, ainda lançou o brado genial num grave e rouco tom, como o lançaria Tructesindo: -... "de mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra e comigo E sentia nele realmente toda a alma de um Ramires, como eles eram no século XII, de sublime lealdade, mais presos à sua palavra que um santo ao seu voto, e alegremente desbaratando, para a manter, bens, contentamento e vida!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2122232425...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →