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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Quando eu tinha doze anos, vivíamos num último andar duma casa na Rua de S. Luís. Minha mãe saía à noite com três de minhas irmãs e recolhia-se muito tarde a fazer a ceia, que era muitas vezes o jantar. Creio que ela andava mendigando. Outras vezes fechava-nos todas na única alcova da casa, e ela ficava na saleta: creio que este facto era mais horrível que pedir esmola.

Aos catorze anos, estando eu sozinha em casa uma noite, fazendo camisas para embarque, ouvi um rangido de botas nas escadas próximas e estremeci. A porta foi aberta de fora com a chave, e eu ergui-me, espavorida, correndo à janela que se abria sobre o telhado. Lembraram-me, naquele instante, palavras que a mãe me tinha dito, e julguei-me perdida.

Quando lancei a vista à porta para me bem convencer da desgraça, vi um homem que caminhava para mim, dizendo que me não assustasse. Eu fui recuando até ao cantinho da casa e encolhi-me a tremer e a chorar.

Parece que o homem teve piedade de mim. Esteve a olhar-me com ar melancólico, sentou-se e limpou o suor da testa.

Perguntou-me quantos anos tinha; se minha mãe nada me tinha dito a respeito duma visita; se eu antipatizava com ele; se eu queria sair de tanta pobreza e da companhia de minha mãe, que me vendera e que tencionava viver do preço da minha honra.

Eu respondi soluçando a tais perguntas. O homem, que se mostrava condoído, chegou a chamar-me para junto dele, oferecendo-me uma cadeira. Fui sentar-me com muito medo; mas tranquilizei-me algum tanto quando vi que me não lançava as mãos. Uma vez que ele se inclinou para mim, deitando-me o braço à cintura, ergui-me de salto e ajoelhei, pedindo que me deixasse. Ergueu-me com brandura e disse-me: ‘Esteja sossegada, que eu não lhe faço mal’ - e passados instantes continuou: ‘A sua felicidade não é eu deixá-la; porque amanhã sua mãe a venderá a outro homem que se não compadeça da sua inocência e lhe despreze as lágrimas. A sua posição, menina, é muito desgraçada nesta casa. Eu vinha preparado para encontrá-la bem disposta a ceder ao destino que sua mãe lhe deu; vejo que não é fingida a sua dor. Quer, Marcolina, salvar-se das grandes vergonhas que a esperam? Saia já desta casa, aceite a minha amizade; venha para minha companhia, e depois pensará no que melhor lhe convier para ser menos infeliz. Confesso-lhe que a sua beleza me encanta; mas já não serei capaz de a querer sem que o seu coração a leva a ser minha amiga.’

Continuou a falar neste sentido longo tempo; e a final estando já de pé para sair, lançou-me ao regaço dinheiro em ouro e disse: ‘Quando sua mãe vier, diga-lhe que está pura, peça-lhe que não a venda, e obrigue-se a sustentá-la com a condição de não a vender. Esse dinheiro é o necessário para um mês; no princípio do mês que vem receberá igual quantia.’ E saiu, beijando-me na testa e murmurando, quando me viu estremecer ao contato da sua boca: ‘Pobre menina!’

- Era novo esse sujeito? - interrompi.

- Não, senhor. Teria cinquenta anos.

- Continua. Tua mãe quando chegou...

- Viu o ouro sobre a mesa e fez-se escarlate de infernal alegria. Olhou para mim e disse: ‘Não estás mal comigo?’ Rompi num pranto, que me afogava. Quis ela abraçar-me, chamando-me tola com modos carinhosos, e eu fugi para a alcova onde minhas irmãs estavam assentadas no enxergão.

- Das tuas irmãs, uma já devia ter treze anos nesse tempo.

- Essa não vivia conosco.

- Que destino tinha tido?

-O que minha mãe quisera dar-me. A mãe disse-me que ela estava na Casa Pia; mas, alguns meses depois, soube que ela estava na situação em que estou hoje.

- E está ainda?

- Não, senhor. Morreu de dezasseis anos.

- No hospital?

- Não, senhor, em minha casa.

- E as outras irmãs? - Logo lhe direi.

III

- Minha mãe quis que eu lhe contasse o que se passara entre mim e o Sr. Barão.

- Ah!, era barão, o sujeito?!

- Era barão; mas não o maldiga, que tinha boas qualidades.

- Veremos... Por enquanto, não há razão de queixa. Ora diz o mais.

- Contei à mãe o sucedido; menos o modo como ele me falara dela. Ouviu-me com admiração e disseme: “Se eu soubesse que ele tinha palavra e te dava mesada, saíamos destas águas-furtadas e podíamos viver regaladamente.” Acrescentou a estas palavras um plano vergonhoso que devia enriquecer-me em poucos anos.

Faz-me horror o que lhe ouvi!

No dia seguinte, minha mãe comprou-me um vestido de cassa, um mantelete em segunda mão, um chapéu de palha e outras miudezas. Mandou-me pentear, e vestir, para darmos um passeio. Atravessámos algumas ruas, que eu via pela primeira vez, e entrámos no pátio dum palacete. ‘Onde vamos?’, disse eu. ‘Aqui é que mora o Sr. Barão; é preciso sermos gratas.’ O guarda-portão, que já a conhecia, tinha subido a dar parte ao amo, e voltou quando minha mãe me estava dizendo: ‘Deves mostrar-te muito agradecida ao fidalgo e pede-lhe licença para mudares de casa e alugares outra onde ele possa entrar sem repugnância.’

(continua...)

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