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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

"Os meus dias corriam magoados, mas serenos, em Leça da Palmeira, onde se haviam reunido alguns parentes nossos de casas muito distantes umas das outras. Meu tio Fernão concorreu com minha prima Mafalda, que o jovial pai me tinha desenhado sem encarecimento. Fora a minha companheira dos brincos infantis. Viram-na os olhos da minha razão depois à verdadeira luz. Era bela e triste. A seriedade taciturna de Mafalda, se não fosse vaidade de raça, seria um dialogar permanente com o namorado anjo da sua inocência. "Se eu pudesse amá-la!", dizia eu a minha mãe, que se tornara para mim, naqueles dias menos oprimidos, uma segunda consciência. E minha mãe, com a suma delicadeza da sua virtude, pedia a Mafalda que me obrigasse a falar, que me fizesse ler alguns livros recreativos em voz alta. Instado por minha prima, escolhi a leitura da Noite do Castelo ou as Ciúmes do Bardo. Comecei a ler pelo livro; porém, à segunda página, dei de mão insensivelmente ao livro e declamei de cor com tamanho entusiasmo, e com a voz tão vibrante de lágrimas, que minha mãe rompeu em soluços e minha prima empalideceu de assustada da minha intimativa. Aqui tens tu um lance que eu não posso agora relembrar sem rir! O que tudo isto me parece, visto daqui, do alto dos meus tamancos, e através destes óculos de três degraus!

"Minha mãe impediu a continuação da leitura e Mafalda nunca mais desejou ouvirme. Observei mais arrefecida, e menos atenciosa, minha prima, desde aquela explosão de ciúmes, por conta do poeta Castilho. Isto inquietou-me tão de leve que nem a vaidade me magoou.

"Estávamos em Setembro e eu já tinha entrouxado as malas para voltar a Coimbra. Fui despedir-me dos sítios onde as horas me tinham sido mais tranquilas, na soledade. Velejei num barquinho rio acima e aproei à ribanceira, de onde se avistava o arruinado e já em parte desfigurado conventinho de extintos franciscanos. À sombra de um arco manuelino, que havia sido a portaria do arrasado templo, meditei nos frades, no convento, no refúgio dos desamparados do mundo, nas lápides profanadas que mãos ímpias arrancaram de sobre as cinzas de muitos corações, extintos com o segredo de sublimes torturas. Meditei, e maldisse a civilização, que fechara os áditos da paz quando a guerra sacudia as suas serpes mais inexorável; maldisse a ilustração, que aluíra a enfermaria dos empestados do vicio, quando a peste ardia mais devoradora. A minha angústia era ainda imensa, porque eu não podia dispensar-me de Deus, e dos homens, que apontavam o caminho do melhor mundo.

"Descendo o rio, lá ficavam ainda os olhos e as saudades nas ruinarias do convento. Desembarquei na ponte, onde minha mãe me estava esperando. Detive-me a passear com ela pelo braço e a referir-lhe as minhas ideias sobre os conventos. A virtuosa senhora rejubilava-se ouvindo-me e dizia, em raptos de contentamento, que eu estava da mão do Senhor e que, apesar do mundo, havia de trilhar sempre os vestígios de meus religiosos avós, alguns dos quais tinham morrido mártires da fé nas pelejas dos soldados de Cristo contra os Maometanos. Ouvia eu aprazivelmente a crónica de meus ascendentes, gloriosamente mortos na África e no Oriente, quando vi ao longe, na estrada do porto, à saída de Matosinhos, em direcção à ponte, uma senhora cavalgando um alentado cavalo, ao lado de um cavaleiro menos cuidadoso das arremetidas garbosas do seu.

"Minha mãe assestou a luneta e murmurou: "Valha-me Nossa Senhora dos Remédios!... Se me não engano..."

""Quem é?", atalhei eu. Minha mãe demorou a resposta. Os cavaleiros, no entanto, avizinharam-se a galope. Antes de conhecê-la, adivinhou-a o coração, que me repuxou à cabeça uma onda de sangue... Era Teodora, Teodora, deslumbrante de formosura, gentil como as magnificas quimeras do pincel inspirado, visão que me não parecia para olhos turvados de verem as fealdades desta vida... Não te espante o ardor desta linguagem. Eu fiz agora pé atrás vinte e quatro anos da minha vida, e senti-me reviver naquele momento... Agora, espera um pouco... Deixa-me tomar fôlego,recordando minha mulher e meus filhinhos."

X

Afonso, passados dois minutos, continuou, demudado já o semblante da jovialidade

com que principiara: "Teodora reconheceu-me. A turbação do meu ânimo era como uma vertigem, e assim mesmo vi-lhe todos os lances dos olhos, todas as linhas alteradas daquele adorável rosto. Fitou-me. Estremeceu; vi-a estremecer na quase paragem convulsiva que fez o cavalo. E eu busquei o apoio do ombro de minha mãe e senti-me comprimido nos braços dela. E a magia satânica do olhar da bela mulher empederniu-me; arrefeci; dai a pouco era fogo vivo a minha fronte; cuidava que a via ainda; e ela tinha passado. Pus então a mão sobre o meu coração e já lá encontrei a de minha mãe.

(continua...)

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