Por Eça de Queirós (1888)
- V. exc.ª, segundo me disseram, é o grande amigo do snr. Carlos da Maia... São como irmãos...
- Sim, muito amigos...
A rua estava deserta, com alguns garotos apenas á porta alumiada da Trindade. Na noite escura a alta fachada do Alliança lançava sobre elles uma sombra maior. Todavia o snr. Guimarães baixou a voz cautelosa: - Aqui está o que é... V. exc.ª sabe, ou talvez não saiba, que eu fui em Paris intimo da mãi do snr. Carlos da Maia... V. exc.ª tem pressa, e não vem agora a proposito essa historia. Basta dizer que aqui ha annos ella entregou-me, para eu guardar, um cofre que, segundo dizia continha papeis importantes... Depois naturalmente, ambos tivemos muitas outras coisas em que pensar, os annos correram, ella morreu. N'uma palavra, porque v. exc.ª está com pressa: eu conservo ainda em meu poder esse deposito, e trouxe-o por acaso quando vim agora a Portugal por negocios da herança de meu irmão... Ora hoje justamente, alli no theatro, comecei a reflectir que o melhor era entregal-o á familia...
O Cruges mexeu-se impaciente:
- Ainda te demoras?
- Um instante! gritou Ega, já interessado por aquelles papeis e pelo cofre. Vai andando.
Então o snr. Guimarães, á pressa, resumiu o pedido. Como sabia a intimidade do snr. João da Ega e de Carlos da Maia, lembrára-se de lhe entregar o cofresinho para que elle o restituisse á familia...
- Perfeitamente! acudiu Ega. Eu estou mesmo em casa dos Maias, no Ramalhete.
- Ah, muito bem! Então v. exc.ª manda um criado de confiança ámanhã buscal-o... Eu estou no Hotel de Paris, no Pelourinho. Ou melhor ainda: levo-lh'o eu, não me dá incommodo nenhum, apesar de ser dia de partida...
- Não, não, eu mando um criado! insistiu o Ega estendendo a mão ao democrata.
Elle estreitou-lh'a com calor.
- Muito agradecido a v. exc.ª! Eu junto-lhe então um bilhete e v. exc.ª entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou á irmã.
Ega teve um movimento d'espanto:
- Á irmã!... A que irmã?
O snr. Guimarães considerou Ega tambem com assombro. E abandonando-lhe lentamente a mão:
- A que irmã!? A irmã d'elle, á unica que tem, á Maria!
Cruges, que batia as solas no lagedo, enfastiado gritou da esquina:
- Bem, eu vou andando para o Gremio.
- Até logo!
O snr. Guimarães, no emtanto, passava os dedos calçados de pellica preta pelos longos fios da barba, fitando o Ega, n'um esforço de penetração. E quando Ega lhe travou do braço, pedindo-lhe para conversarem um pouco até ao Loreto, o democrata deu os primeiros passos com uma lentidão desconfiada.
- Eu parece-me, dizia o Ega sorrindo, mas nervoso, que nós estamos aqui a enrodilhar-nos n'um equivoco... Eu conheço o Maia desde pequeno, vivo até agora em casa d'elle, posso afiançar-lhe que não tem irmã nenhuma...
Então o snr. Guimarães começou a rosnar umas desculpas embrulhadas que mais enervavam, torturavam o Ega. O snr. Guimarães imaginava que não era segredo, que todas essas coisas da irmã estavam esquecidas, desde que houvera reconciliação...
- Como vi, ainda não ha muitos dias, o snr. Carlos da Maia com a irmã e com v. exc.ª, na mesma carruagem, no caes do Sodré...
- O quê! Aquella senhora! A que ia na carruagem?
- Sim! exclamou o snr. Guimarães irritado, farto emfim d'essa confusão em que se debatiam. Aquella mesma, a Maria Eduarda Monforte, ou a Maria Eduarda Maia, como quizer, que eu conheci de pequena, com quem andei muitas vezes ao collo, que fugiu com o
Mac-Gren, que esteve depois com a besta do Castro Gomes... Essa mesma!
Era ao meio do Loreto sob o lampeão de gaz. E o snr. Guimarães de repente estacou, vendo os olhos do Ega esgazearem-se de horror, uma terrivel pallidez cobrir-lhe a face.
- V. exc.ª não sabia nada d'isto?
Ega respirou fortemente, arredando o chapéo da testa sem responder. Então o outro, embaçado, terminou por encolher os hombros. Bem, via que tinha feito uma tolice! A gente nunca se devia intrometter nos negocios alheios! Mas acabou-se! Imaginasse o snr. Ega que aquillo fôra um pesadêlo, depois da versalhada do sarau! Pedia desculpa sinceramente - e desejava ao snr. João da Ega muitissimo boas noites.
Ega, como a um clarão de relampago, entrevira toda a catastrophe: e agarrou avidamente o braço do snr. Guimarães, n'um terror que elle abalasse, desapparecesse, levando para sempre o seu testemunho, esses papeis, o cofre da Monforte, e com elles a certeza – a certeza por que agora anciava. E através do Loreto, vagamente, foi balbuciando, justificando a sua emoção, para tranquillisar o homem, poder lentamente arrancar-lhe as coisas que soubesse, as provas, a verdade inteira.
- O snr. Guimarães comprehende... Isto são coisas muito delicadas, que eu suppunha absolutamente ignoradas de todos... De modo que fiquei embatucado, fiquei tonto, quando o ouvi assim de repente fallar d'ellas com essa simplicidade... Porque emfim, aqui para nós, essa senhora não passa em Lisboa por irmã de Carlos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.