Por Eça de Queirós (1888)
camelia na casaca, que, de mão fechada no ar como se agitasse o pendão das Quinas, lamentava aos berros que nós portuguezes, possuindo este nobre estuario do Tejo e tão formosas tradições de gloria, deixassemos esbanjar, ao vento do indifferentismo, a sublime herança dos avós!...
- É patriotismo, disse o Ega. Fujamos!
Mas o marquez reteve-os, gostando tambem de um bocado de Quinas. E foi o pobre marquez que o patriota pareceu interpellar, alçando na ponta dos botins o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora ahi, que, agarrando n'uma das mãos a espada e na outra a cruz, saltasse para o convés d'uma caravella a ir levar o nome portuguez através dos mares desconhecidos? Quem havia ahi, heroico bastante, para imitar o grande João de Castro, que na sua quinta de Cintra arrancára todas as arvores de fructo, tal a era a isenção da sua alma de poeta?...
- Aquelle miseravel quer-nos privar da sobremesa! exclamou Ega.
Em torno correram risos alegres. O marquez virou costas, enojado com aquella patriotice reles. Outros bocejavam por traz da mão, n'um tedio completo de «todas as nossas glorias». E Carlos, enervado, preso alli pelo dever de applaudir o Alencar, chamava o Ega para irem abaixo ao botequim espairecer a impaciencia - quando viu o Eusebiosinho que descia a escada, enfiando á pressa um paletot alvadio. Não o encontrara mais desde a infamia da Corneta, em que elle fôra «embaixador». E a cólera que tivera contra elle n'esse dia reviveu logo n'um desejo irresistivel de o espancar. Disse ao Ega:
- Vou aproveitar o tempo, emquanto esperamos pelo Alencar, a arrancar as orelhas áquelle maroto!
- Deixa lá, acudiu Ega, é um irresponsavel!
Mas já Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atraz, inquieto, temendo uma violencia. Quando chegaram á porta, Eusebio mettera para os lados do Carmo. E alcançaram-no no largo da Abegoaria, áquella hora deserto, mudo, com dois bicos de gaz mortiços. Ao vêr
Carlos fender assim sobre elle, sem paletot, de peitilho claro na noite escura, o Eusebio, encolhido, balbuciou atarantadamente: «Olá, por aqui...»
- Ouve cá, estupôr! rugiu Carlos, baixo. Então tambem andaste mettido n'essa maroteira da Corneta? Eu devia rachar-te os ossos um a um!
Agarrára-lhe o braço, ainda sem odio. Mas, apenas sentiu na sua mão de forte aquella carne mollenga e tremula, resurgiu n'elle essa aversão nunca apagada - que já em pequeno o fazia saltar sobre o Eusebiosinho, esfrangalhal-o, sempre que as Silveiras o traziam á quinta. E então abanou-o, como outr'ora, furiosamente, gozando o seu furor. O pobre viuvo, no meio das lunetas negras que lhe voavam, do chapéo coberto de luto que lhe rolára nas lages, dançava, escanifrado e desengonçado. Por fim Carlos atirou-o contra a porta d'uma cocheira.
- Acudam! Aqui d'el-rei, policia! rouquejou o desgraçado.
Já a mão de Carlos lhe empolgára as guelas. Mas Ega interveio:
- Alto! Basta! O nosso querido amigo já recebeu a sua dóse...
Elle mesmo lhe apanhou o chapéo. Tremendo, arquejando, de bruços, Eusebiosinho procurava ainda o guarda-chuva. E, para findar, a bota de Carlos atirada com nojo, estatelou-o nas pedras, para cima d'uma sargeta onde restavam immundicies e humidade de cavallo.
O largo permanecia deserto, com o gaz adormecendo nos candieiros baços. Tranquillamente os dois recolheram ao sarau. No peristylo, cheio de luz e plantas, cruzaram-se com o patriota de barbas em bico, rodeado d'amigos, em caminho para o botequim, limpando ao lenço o pescoço e a face, exclamando com o cansaço radiante d'um triumphador:
- Irra! custou, mas sempre lhes fiz vibrar a corda!
Já o Alencar estaria gorgeando! Os dois amigos galgaram a escada. E com effeito Alencar apparecera no estrado, onde ardia ainda o candelabro de duas velas.
Esguio, mais sombrio n'aquelle fundo côr de canario, o poeta derramou pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado e lento: e um silencio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia e de tanta solemnidade.
- A Democracia! annunciou o auctor d'Elvira com a pompa d'uma revelação.
Duas vezes passou pelos bigodes o lenço branco, que depois atirou para a mesa. E levantando a mão n'um gesto demorado e largo:
Era n'um parque. O luar Sobre os vastos arvoredos,
Cheios de amor e segredos...
- Que lhe disse eu? exclamou o Ega, tocando no cotovêlo do marquez. É sentimento... Aposto que é o festim!
E era com effeito o festim, já cantado na Flôr de Martyrio, festim romantico, n'um vago jardim onde vinhos de Chypre circulam, caudas de brocado rojam entre macissos de magnolias, e das aguas do lago sobem cantos ao gemer dos violoncellos... Mas bem depressa transpareceu a severa idéa social da Poesia. Emquanto, sob as arvores radiantes de luar, tudo são «risos, brindes, lascivos murmurios» - fôra, junto ás grades douradas do parque, assustada com o latir dos molossos, uma mulher macilenta, em farrapos, chora,
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.