Por Eça de Queirós (1888)
- Oh, Proudhon entre nós, acudiu Ega rindo, cita-se muito, é já um monstro classico. Até os conselheiros d'Estado já sabem que para elle a propriedade era um roubo, e Deus era o mal...
O democrata encolheu os hombros:
- Grande homem, senhor! Homem immenso! São os tres grandes pimpões d'este seculo: Proudhon, Garibaldi, e o compadre!
- O compadre! exclamou Ega, attonito.
Era o nome d'amizade que o snr. Guimarães dava em Paris a Gambetta. Gambetta nunca o via, que não lhe gritasse de longe, em hespanhol: «Hombre, compadre!» E elle tambem, logo: «Compadre, caramba!» D'ahi ficára a alcunha, e Gambetta ria. Porque lá isso, bom rapaz, e amigo d'esta franqueza do sul, e patriota, até alli!
- Immenso, meu caro senhor! O maior de todos!
Pois Ega imaginaria que o snr. Guimarães, com as suas relações do Rappel, devia ter sobretudo o culto de Victor Hugo...
- Esse, meu caro senhor, não é um homem, é um mundo!
E o snr. Guimarães ergueu mais a face, ajuntou infinitamente grave:
- É um mundo!... E aqui onde me vê, ainda não ha tres mezes que elle me disse uma coisa que me foi direita ao coração!
Vendo com deleite o interesse e a curiosidade do Ega, o democrata contou largamente esse glorioso lance que ainda o commovia:
- Foi uma noite no Rappel. Eu estava a escrever, elle appareceu, já um pouco trôpego, mas com o olho a luzir, e aquella bondade, aquella magestade!... Eu ergui-me, como se entrasse um rei... Isto é, não! que se fosse um rei tinha-lhe dado com a bota no rabiosque.
Levantei-me como se elle fosse um Deus! Qual Deus! não ha Deus que me fizesse levantar!... Emfim, acabouse, levantei-me! Elle olhou para mim, fez assim um gesto com a mão, e disse, a sorrir, com aquelle ar de genio que tinha sempre: Bonsoir, mon ami!
E o snr. Guimarães deu alguns passos dignos, em silencio, como se aquelle bonsoir, aquelle mon ami, assim recordados, lhe fizessem mais vivamente sentir a sua importancia no mundo.
De repente Alencar, que bracejava n'um grupo, rompeu para elles, pallido, d'olhos chammejantes: - Que me dizem vocês a esta pouca vergonha? Aquelle infame alli ha meia hora, com o infolio, a rosnar, a rosnar... E toda a gente a sahir, não fica ninguem! Tenho de recitar aos bancos de palhinha!...
E abalou, rilhando os dentes, a exhalar mais longe o seu furor.
Mas algumas palmas cançadas, dentro, fizeram voltar o Ega. O estrado ficára novamente vazio, com as duas velas ardendo no candelabro. Um cartão em grossas letras, que um criado collocara no piano, annunciava um «intervallo de dez minutos» como n'um
circo. E n'esse instante a snr.ª condessa de Gouvarinho sahira pelo braço do marido, deixando atraz um sulco largo de comprimentos, d'espinhas que se vergavam, de chapéos de burocratas rasgadamente erguidos. O commissario do sarau azafamava-se procurando duas cadeiras para ss. exc.as A condessa porém foi reunir-se a D. Maria da Cunha, que ella vira, com as Pedrosos e a marqueza de Soutal, refugiada n'um vão de janella.
Ega immediatamente acercou-se do rancho intimo, esperando que as senhoras se beijocassem.
- Então, snr.ª condessa, ainda muito commovida com a eloquencia do Rufino?
- Muito cansada... E que calor, hein?
- Horrivel. A snr.ª baronesa d'Alvim sahiu ha pouco, com uma dôr de cabeça...
A condessa, que tinha os olhos pisados e uma prega de velhice aos cantos da boca, murmurou:
- Não admira, isto não é divertido... Emfim, já agora é necessario levar a cruz ao Calvario.
- Se fosse uma cruz, minha senhora! exclamou o Ega. Infelizmente é uma lyra!
Ella riu. E D. Maria da Cunha, n'essa noite mais remoçada e viva, ficou logo toda banhada n'um sorriso, com aquella carinhosa admiração pelo Ega, que era um dos seus sentimentos.
- Este Ega!... Não ha mal que lhe chegue!... E diga-me outra coisa, que é feito do seu amigo Maia? Ega vira-a momentos antes, no salão, puxar pela manga de Carles, cochichar com Carlos. Mas conservou um ar innocente:
-Está ahi, anda por ahi, assistindo a toda essa litteratura.
De repente os olhos sempre bonitos e languidos de D. Maria da Cunha rebrilharam com uma faisca de malicia:
- Fallai no mau... N'este caso seria fallar do bom. Emfim ahi nos vem o Principe Tenebroso!
E era com effeito Carlos que passava, se encontrára diante dos braços do conde de Gouvarinho, estendidos para elle com uma effusão em que parecia renascer o antigo affecto. Pela primeira vez Carlos via a condessa, desde a noite em que no Aterro,
abandonando-a para sempre, fechára com odio a portinhola da tipoia onde ella ficava chorando. Ambos baixaram os olhos, ao adiantar a mão um para o outro, lentamente. E foi ella que findou o embaraço, abrindo o seu grande leque de pennas de avestruz:
- Que calor, não é verdade?
- Atroz! disse Carlos. Não vá v. exc.ª apanhar ar d'essa janella.
Ella forçou os labios brancos a um sorriso:
- É conselho de medico?
- Oh, minha senhora, não são as horas da minha consulta! É apenas caridade de christão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.