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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Fiasco completo, declarou Carlos que se aproximára do Ega e do rancho.

Foi para D. Maria da Cunha uma alegria, uma surpreza! Até que emfim se via o snr. Carlos da Maia, o Principe Tenebroso! Que fizera elle durante esse verão? Todo o mundo a esperal-o em Cintra, alguem mesmo com anciedade... Um chut furioso do amador de

barbas grisalhas emmudeceu-a. E justamente Cruges, depois de bater dois accordes bruscos, arredára o môcho, esgueirava-se do estrado, enxugando as mãos ao lenço. Aqui e além algumas palmas resoaram, molles e de cortezia, entre um grande murmurio d'allivio.

E o Ega e Carlos correram á porta, onde já esperavam o marquez, o Craft, o Taveira - para abraçar, consolar o pobre Cruges que tremia todo, com os olhos esgazeados.

E immediatamente, no silencio atento que redominava, um sujeito muito magro, muito alto, surgiu no tablado, com um manuscripto na mão. Alguem ao lado do Ega disse que era o Prata, que ia fallar sobre o Estado agricola da provincia do Minho. Atraz, um criado veio collocar sobre a mesa um candelabro de duas velas: o Prata, d'ilharga para a luz, mergulhou no caderno: e d'entre o perfil triste e as folhas largas um rumor lento foi escorrendo, rumor de reza n'uma somnolencia de novena, onde por vezes destacavam como gemidos - «riqueza dos gados..., esphacelamento da propriedade..., fertil e desprotegida região...»

Começou então uma debandada sorrateira e formigueira, que nem os chuts do commissario do sarau, vigilante e de pé sobre um degrau do estrado, podiam conter. Só as senhoras ficavam; e um ou outro burocrata idoso, que se inclinava zelosamente para o murmurio de reza, com a mão em concha sobre a orelha.

Ega, que fugia tambem «ao vecejante paraiso do Minho», achou-se em frente do snr. Guimarães.

- Que massada, hein?

O democrata concordou que aquelle preopinante não lhe parecia divertido... Depois, mais sério, com outra idéa, segurando um botão da casaca do Ega:

- Eu espero que v. exc.ª ha pouco não ficasse com a impressão de que eu sou solidario ou me importo com meu sobrinho...

Oh! decerto que não! Ega vira bem que o snr. Guimarães não tinha pelo Damaso nenhum enthusiasmo de familia.

- Asco, senhor, só asco! Quando elle foi a primeira vez a Paris, e soube que eu morava n'uma trapeira, nunca me procurou! Porque aquelle imbecil dá-se ares d'aristocrata... E como v. exc.ª sabe, é filho d'um agiota!

Puxou a charuteira, ajuntou gravemente:

- A mãi, sim! Minha irmã era d'uma boa familia. Fez aquelle desgraçado casamento, mas era d'uma boa familia! Que, com os meus principios, já v. exc.ª vê que tudo isso de fidalguia, pergaminhos, brazões, são para mim blague e mais blague! Mas emfim os factos são os factos, a historia de Portugal ahi está... Os Guimarães da Bairrada eram de sangue azul.

Ega sorriu, n'um assentimento cortez:

- E v. exc.ª então parte brevemente para Paris?

- Amanhã mesmo, por Bordeus... Agora que toda essa cambada do marechal de Mac-Mahon, e do duque de Broglie, e do Descazes foi pelos ares, já se póde lá respirar...

N'esse instante Telles e o Taveira, passando de braço dado, voltaram-se, a observar curiosamente aquelle velho austero, todo de preto, que fallava alto com o Ega de marechaes e de duques. Ega reparou: o democrata, de resto, tinha uma sobrecasaca de casimira

nova; o seu altivo chapéo reluzia; e Ega ficou de bom grado a conversar com aquelle gentleman correcto e venerando que impressionava os seus amigos.

- A republica com effeito observou elle, dando alguns passos ao lado do snr. Guimarães, esteve alli um momento compromettida!

- Perdida! E eu, meu caro senhor, aqui onde me vê, para ser expulso por causa d'umas verdadesinhas que soltei n'uma reunião anarchista. Até me affirmaram que n'um conselho de ministros o marechal de MacMahon, que é um tarimbeiro, batera um murro na mesa e dissera: Ce sacré Guimaran, il nous embête, faut lui donner du pied dans le derrière! Eu não estava lá, não sei, mas affirmaram-me... Em Paris, como os francezes não sabem pronunciar Guimarães, e eu embirro que me estropiem o nome, assigno Mr.Guimaran. Ha dois annos, quando fui á Italia, era Mr. Guimarini. E se fôr agora á Russia, cá por coisas, hei de ser Mr. Guimaroff...Embirro que me estropiem o nome!

Tinham voltado á porta do salão. Longas bancadas vazias punham dentro, no brilho pesado do gaz, uma tristeza de abandono e tedio; e no estrado o Prata continuava, de mão no bolso, com o nariz sobre o manuscripto, sem que se sentisse agora surdir um som

d'aquelle espantalho esguio. Mas o marquez, que descia do fundo, atabafando-se no seu cache-nez de sêda, disse ao Ega ao passar que o homemzinho era muito pratico, sabia da póda, e lá tinha ficado ás voltas com Proudhon.

Ega e o democrata recomeçaram então os seus passos lentos na ante-sala onde o susurro de conversas mal abafadas crescia, como n'um palco, entre fumaças furtivas de cigarro. E o snr. Guimarães chasqueava, achando uma boa bêtise que se citasse Proudhon, alli n'aquelle theatreco, a proposito d'estrumes do Minho...

(continua...)

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