Por Eça de Queirós (1888)
Então Ega appellou para o bom senso do snr. Guimarães, para a sua experiencia das coisas d'honra. Comprehendia elle que dois cavalheiros, indo desafiar um homem a sua casa, lhe agarrem no pulso, o forcem violentamente a assignar uma carta em que elle se declara bebedo?...
O snr. Guimarães, agradado com aquella deferencia pelo seu tacto e pela sua experiencia, confessou que o caso, pelo menos em Paris, seria pouco natural.
- E em Lisboa, senhor! Que diabo, isto não é a Cafraria! E diga-me o snr. Guimarães outra coisa, de gentleman para gentleman: como considera seu sobrinho? um homem irreprehensivelmente veridico?
O snr. Guimarães cofiou as barbas, declarou lealmente:
- Um refinado mentiroso.
- Então! gritou Ega em triumpho, atirando os braços ao ar.
De novo Alencar interveio. A questão parecia-lhe satisfactoriamente finda. E não restava senão os dois apertarem-se a mão fraternalmente, como bons democratas...
Já de pé, atirou a genebra ás guelas. Ega sorria, estendia a mão ao snr. Guimarães. Mas o velho demagogo, ainda com uma sombra na face enrugada, desejou que o snr. João da Ega (se n'isso não tinha duvida) declarasse, alli diante do amigo Alencar, que não lhe achava a elle, Guimarães, cara de bebedo...
- Oh meu caro senhor! exclamou Ega, batendo com o dinheiro na mesa para chamar o criado. Pelo contrario! O maior prazer em proclamar diante do Alencar, e aos quatro ventos, que lhe acho a cara d'um perfeito cavalheiro e d'um patriota!
Então trocaram um rasgado aperto de mãos - emquanto o snr. Guimarães affirmava a sua satisfação por conhecer o snr. João da Ega, moço de tantos dotes e tão liberal. E quando s. exc.ª quizesse qualquer coisa, politica ou litteraria, era escrever este endereço bem conhecido no mundo:
- Redaction du RAPPEL, Paris!
Alencar abalára. E os dois deixaram o botequim, trocando impressões do sarau. O snr. Guimarães estava enojado com a carolice, a sabujice d'esse Rufino. Quando o ouvira palrar das azas da princeza e da cruz do adro, quasi lhe gritára cá do fundo: «Quanto te pagam para isso, miseravel?» Mas de repente Ega estacou na escada, tirando o chapéo:
- Oh snr.ª baroneza, então já nos abandona?
Era a Alvim que descia devagar, com a Joanninha
Villar, atando as largas fitas d'uma capa de pellucia verde. Queixou-se d'uma dôr de cabeça que a torturava, apesar de ter gostado loucamente do Rufino... Mas uma noite toda de litteratura, que estafa! E agora, para mais, ficára lá um homemzinho a fazer musica classica...
- É o meu amigo Cruges!
- Ah! é seu amigo? Pois olhe, devia-lhe ter dito que tocasse antes o Pirolito.
- V. exc.ª afllige-me com esse desdem pelos grandes mestres... Não quer que a vá acompanhar á carruagem? Paciencia... Muito boa noite, snr.ª D. Joanna!... Um servo seu, snr.ª baroneza! E Deus lhe tire a sua dôr de cabeça!
Ella voltou-se ainda no degrau, para o ameaçar risonhamente com o leque:
- Não seja impostor! O snr. Ega não acredita em Deus.
- Perdão... Que o Diabo lhe tire a sua dôr de cabeça, snr.ª baroneza!
O velho democrata desapparecera discretamente. E da ante-sala Ega avistou logo ao fundo, no tablado, sobre um môcho muito baixo que lhe fazia roçar pelo chão as longas abas da casaca - o Cruges, com o nariz bicudo contra o caderno da Sonata, martellando
sabiamente o teclado. Foi então subindo em pontas de pés pela coxia tapetada de vermelho, agora desafogada, quasi vazia: um ar mais fresco circulava: as senhoras, cançadas, bocejavam por traz dos leques.
Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo um rancho intimo, a marquesa de Soutal, as duas Pedrosos, a Thereza Darque. E a boa D. Maria tocou-lhe logo no braço para saber quem era aquelle musico de cabelleira.
- Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges.
O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o não conheciam. E era composiçao d'elle, aquella coisa triste?
- É de Beethoven, snr.ª D. Maria da Cunha, a Sonata pathetica.
Uma das Pedrosos não percebera bem o nome da Sonata. E a marqueza de Soutal, muito séria, muito bella, cheirando devagar um frasquinho de saes, disse que era a Sonata pateta. Por toda a bancada foi um rastilho de risos suffocados. A Sonata pateta! Aquillo
parecia divino! Da extremidade o Vargas gordo, o das corridas, estendeu a face enorme, imberbe e côr de papoula:
- Muito bem, snr.ª marqueza, muito catita!
E passou o gracejo a outras senhoras, que se voltavam, sorriam á marqueza, entre o frou-frou dos leques. Ella triumphava, bella e séria, com um velho vestido de velludo preto, respirando os saes - emquanto adiante um amador de barba grisalha cravava n'aquelle rancho ruidoso dois grandes oculos d'ouro que faiscavam de cólera.
No emtanto, por toda a sala, o susurro crescia. Os encatarrhoados tossiam livremente. Dois cavalheiros tinham aberto a Tarde. E cahido sobre o teclado, oom a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre Cruges, suando, estonteado por aquella desattenção rumorosa, atabalhoava as notas, n'uma debandada.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.