Por Eça de Queirós (1940)
A Whitehall Review, o mais elegante jornal hebdomadário de Londres, um órgão de alta sociedade, publica no seu último número, num lugar proeminente, a declaração seguinte:
«Pede-se-nos para declarar que Sir Chames Tempest se valerá dos únicos meios que a Igreja Católica lhe fornece para se lavar da desonra que foi lançada sobre ele e a sua família, e que intentará uma separação judicial. Igualmente se nos pede para declarar que Sir Charles Tempest não foi a Paris em perseguição dos fugitivos, mas ficou tranquilamente na sua propriedade de Northamptonshire, sendo o último a saber do que se passava –tão pouco suspeitava o infeliz gentleman a existência do mal.»
E o jornal acrescenta, como por sua conta e risco: «A esposa infiel e o seu amante estão em Paris. Todas as simpatias estão com o infeliz Sir Charles.»
Este extraordinário parágrafo, que tão estranho parece aos nossos hábitos meridionais, é a conclusão de um facto que tem causado grande escândalo. É simples em si, como verão. A mulher de Sir Tempest fugiu (como tantas outras fogem hoje em dia) com um amante – ele mesmo casado com uma adorável senhora de vinte e dois anos, íntima amiga da princesa de Gales.
O que fez escândalo foi pertencer a fugitiva a uma das mais respeitáveis famílias católicas de Inglaterra e passar por ser uma das mulheres mais sérias da aristocracia inglesa. O facto em si, digo, é banal, e não merece uma linha de comentário: a grande sensação provém de que alguns jornais, por esta ocasião, lembraram-se de fazer uma espécie de revista retrospectiva da moralidade inglesa durante os últimos dez anos e chegaram à conclusão, muito exacta, que neste último período a imoralidade, sobretudo na sociedade mais rica, tem tomado tais proporções que Paris, Madrid, Viena, Nápoles, as cidades clássicas do adultério e do escândalo, ficam humildemente na sombra perante a colossal corrupção de Londres. Que tudo quanto o vício tem inventado de mais mórbido e de mais excêntrico floresce em Londres era sabido; mas supunha-se (os estrangeiros supunham, ao menos) que a sociedade cultivada tinha no mais alto grau as qualidades de honestidade, de fidelidade, de pudor, de probidade doméstica, que foram sempre um dos grandes orgulhos ingleses. Pois bem, pelo que dizem os mais bem informados, os últimos dez anos têm trazido uma transformação dissolvente da honestidade inglesa. Os adultérios, as fugas, os raptos, as seduções, os divórcios, os crimes de família, acumulam-se de ano para ano, dando à alta sociedade inglesa o aspecto sucessivamente decomponente de um fruto que apodrece. Enquanto a mim, sempre o pensei: mas não esperava vê-lo impresso e com cores tão carregadas nas mais sérias revistas e pelos moralistas mais estimados.
Basta observar um pouco as maneiras da inglesa moderna para se ver que ela poderá ser tudo – uma hábil cavaleira, uma excelente caçadora, um forte cocheiro, uma adorável amante, uma excelente atiradora à pistola, um óptimo companheiro de viagem, um atrevido parceiro para uma partida de bacará –, tudo, menos uma esposa e uma mãe. A maneira como se vestem, o atrevimento dos olhares, o hábito das conversações picantes, o vício do namoro, o gosto pelas bebidas fortes, a paixão pelos exercícios masculinos, a avidez de independência, o desdém público – tudo revela, a quem as conhece, uma tendência irresistível para o amor livre. A isto junte-se o temperamento ardente, uma imaginação excitada, uma natureza voluntária – e compreender-se-á a situação. A única coisa que retém ainda é o medo da opinião, do escândalo, da impressão; no dia em que este salutar receio diminuir, ou por cair em descrédito ou por o impulso da paixão ser mais forte – a Inglaterra voltará aos tempos mais devassos da sua história, e repetir-se-á a época fatal dos Stuarts.
Contra esta corrupção a corte procura reagir por uma áspera severidade: assim é sabido que, quando se apresentou à rainha o programa do último concerto real em Windsor, ela mesma, por seu punho, riscou o nome de Madame Adelina Patti, declarando que nunca admitiria no paço uma mulher que conhecidamente tinha um amante; o que não impede que as aventuras amorosas de Madame Patti lhe tenham dado em Londres uma espécie de auréola heróica – a ponto que a sua simples aparição em cena é saudada por aclamações que parecem dirigir-se menos à cantora ilustre que à heroína célebre de um drama conjugal.
Sinto não ter novidades literárias ou dramáticas a dar-lhes. As últimas semanas têm sido estéreis: o abuso das controvérsias políticas parece ter diminuído a produção artística – e as forças intelectuais, que em tempos calmos se empregam no romance ou no poema, voltam-se neste período de excitação pública para o artigo de jornal ou para o capítulo de revista.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.