Por Eça de Queirós (1870)
A cama do alemão tinha ficado, como disse, por baixo do meu buraco de observação.O meu vizinho deitou-se e soprou a vela. O quarto ficou às escuras, e eu senti os colchões que rangiam com o peso do corpo que se ajeitava para dormir.
— Ah! Tu amas o murmúrio dos espíritos invisíveis?... — ex clamei eu dirigindomementalmente ao filósofo que me ficava do outro lado do muro. — Aprazem-te as ondulações sonoras das moléculas da vida animal que vagueiam dispersas no espaço, procurando osopro misterioso que as condense para entrarem na corrente dos seres vivos? Queres encadear ao teu espírito esses elos informes e incoercíveis, que ligam o mundo das coisas conhecidas ao mundo dos seres ignotos? Ora vamos lá a ver como tu em pregas as tuasfaculdades de médium...
E pensando isto, bati-lhe com os nós dos dedos na parede três pancadinhas secas,metodicamente espaçadas, como as dos sinais maçónicos. Senti roçar a mão dele pelo papel que forrava o muro, como quem procurasse apalpar algum sinal do rumor que ouvira.Entrei então a repetir com sucessiva frequência o rebate que lhe dera percorrendo diferentes pontos da parede que servia de fundo ao armário.Percebi que ele se sentava na cama. Ouvi estalar um fósforo. Acendeu-se a luz. Parei. Houve uma pausa, durante a qual me conservei silencioso e imóvel. O meu vizinho apagou finalmente a luz ao cabo de alguns minutos, e eu recomecei a bater devagarinho: erepetidamente como primeiro fizera. Ele, tendo escutado por al gum tempo às escuras, acendeu outra vez a vela e começou a exa minar detidamente o espaço da parede, junto do qual lhe ficava a cama.No momento em que a chama da vela perpassava na mão de le por defronte do meu braço, soprei-lhe de repente e apaguei a luz.O alemão, que se achava de joelhos em cima da cama a revis tar a parede, expediu um pequeno grito, que me pareceu mais de surpresa que de tenor, conquanto o acompanhasse um estrondo pesado e extremamente significativo. O que produzira esse estron do fora obaque do corpo dele caindo da cama abaixo.
Logo depois ouvi a voz do vizinho perguntando com decisão e firmeza:- Quem está aí? Respondi-lhe: — Sou eu.- Quem és tu?
— E tu quem és?- Frederico Friedlann, cidadão prussiano. — Ah! — disse eu. — Viajo por conta da primeira fábrica de produtos químicos de Budapeste, dos quaissou encarregado de tornar conhecidos dos grandes industriais da Europa.
— Bem! — observei.Ele continuou impassivelmente: — Contou-me um judeu meu amigo que havia em Lisboa três prédios de que ele tinha notícia, os quais se achavam abandonados depois de algum tempo por terem ganhado famade serem habitados por almas do outro mundo. Resolvi morar suces sivamente nas casas que ele me indicou e é esta a primeira que habito. Componho um livro com investigações arespeito do espiritismo. Poderei saber agora a quem me dirijo?
— Pois não! — tornei-lhe eu. — Chamo-me fulano, e vivo dos rendimentos das minhas propriedades, ora viajando, ora resi dindo em Lisboa, e ocupando-me de quando em quando com a polí tica ou com a literatura, quando não tenho outra coisa menos insí pida e menos inútil em que agitar a minha ociosidade e o meu tédio. Não sou espiritista.
— Pois faz mal! O espiritismo é um sistema e pode bem suce der que venha ainda a seruma religião.
— Puff. — exclamei rindo. — O quê! — continuou ele. — O materialismo, guiado de um la do pelas conquistas dasciências físicas e naturais e de outro lado pelo relaxamento dos costumes contemporâneos e pela depressão sucessiva e assustadora da moral, vai comendo no campo da filo sofia oespaço não já muito vasto em que residia a fé. Novas cren ças e novas doutrinas virão sucessivamente substituir as crenças e as doutrinas mortas por que se regulava o sobrenatural. O ho mem, que segundo todas as probabilidades, não poderá nunca prescindirdo maravilhoso, desse atractivo supremo da sua imagi nação, irá então naturalmente buscar ao espiritismo, modificado e aperfeiçoado pela ciência futura, a teoria de uma tal ou qual sobrevivência que o lisonjeie, e a base de correlações ainda não estu dadas dos seres que existem com aqueles que os precederam e com os que se lhe hão-de seguir. Os espiritistas de hoje serão, de entre todos os filósofos contemporâneos que não querem aceitar em absolutoo dogma estéril desconsolador da matéria omnipotente, os únicos que hão-de colaborar na filosofia do futuro.- Ora há-de dar-me licença que lhe pergunte uma coisa...
— Tem-me às suas ordens. — Sem com isto querer fazer agravo ao seu juízo!- Estimarei muito satisfazer a sua curiosidade, qualquer que seja a natureza dela.
— Acredita em alguma das coisas em que esteve aí falando o homem que veio ajudá-lo a mudar a cama?Esta pergunta era capciosa. Eu queria desenganar-me se estava falando com um doido, com um visionário, com um monomaníaco, ou simplesmente com um homem de espíritoextravagante, com um excêntrico.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.