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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

Com efeito era necessário dignidade – e não era digno estar ele ali escutando. Voltou então ao quarto às apalpadelas – e tendo topado com o sofá, sentou-se. Agora não havia rumor, e um ar abafado pesava no quarto. E aquela escuridão trouxe-lhe idéias de doença... No dia seguinte podia ele estar talvez, assim num quarto, às escuras, prostrado num leito; e só, sem ninguém, tratado pela Margarida. Isto causou-lhe um grande horror. Começou a lembrar-se de histórias de ferimentos que ouvira. Um golpe de espada ao princípio fazia apenas um frio – as dores eram depois, longas, nas noites longas, quando os colchões aquecem e o corpo se não deve mover... Então pensou em tudo que dissera o Nunes ao Carvalho: era a primeira vez que o Machado a abraçava, pôr brincadeira. E se isto fosse verdade? Também ela lho dissera, num grito de dor: era a primeira vez. Podia ser bem apenas uma leviandade, um galanteio, o que os ingleses chamam uma flirtations . Deveria perdoar? Não. Mas não era então motivo para haver um duelo. Bastava-lhe expulsar Machado de sua casa. E então outras coisas acudiam-lhe: nunca, como ultimamente, Ludovina fora mais amante. Outrora era ele que lhe devia fazer festas, a provocá-la... Ultimamente era ela, que às vezes, sem motivo, lhe atirava os braços ao pescoço. Podia ele afirmar que ela o não amava? Não. E não era fingido, ele não era tolo, sabia bem conhecer uma emoção sincera. Pôr que consentia então ela na corte do outro? Quem sabe! Coquetismo, vaidade... Em todo o caso isso merecia castigo. Nunca mais a veria; e bater-se-ia com o outro... Depois pensou que nunca manejara uma espada. E o Machado tinha dado lições de esgrima. Decerto era ele que ficaria ferido. E o mesmo terror voltava-lhe. Parecia-lhe que não temeria tanto, a morte brusca, uma bala através do coração. Mas uma ferida grave, que o retivesse na cama semanas, com toda a sua lenta marcha, a febre, a inflamação, o perigo de gangrena. Era horrível. Toda a sua carne tremia, se encolhia a essa idéia. Mas enfim acabou-se, era a honra que o pedia.

De repente ouviu vozes no corredor, risos, todo um barulho cordial de amigos que se despedem. O coração batia-lhe. Tinha caminhado para a porta do quarto. Uma luz apareceu. Era o Medeiros com uma vela, com que alumiava os outros.

— Tudo resolvido – disse entrando.

Atrás dele entrava o Carvalho, dizendo também:

— Está tudo decidido.

Godofredo olhava-os, pálido, a tremer, de nervoso.

— Não te bates – disse o Medeiros pondo o castiçal sobre a mesa.

Que te disse eu logo? – exclamou Carvalho, radiante. Tudo tinha de ficar na mesma, a não haver senso comum.

E foi desta vez ainda, o Medeiros, que explicou a conferência. O Nunes Vidal portara-se com um cavalheirismo extraordinário. Começara pôr dizer que se estivesse convencido que havia ali uma traição do Machado, um crime de adultério com a mulher do seu sócio, ele não se meteria nisso. Dissera-lhes que se eles exigiam o duelo, eles tinham normas de aceitar tudo, sem discutir, hora, e sítio, e estocadas. E, chegado ao terreno, Machado tomaria a espada, deixar-se-ia ferir, como um gentleman. Mas então Nunes apelara para eles, como homens de honra e de bom senso.

— Não foi isto que ele disse, Carvalho?

— E homens de sociedade – acrescentou Carvalho.

— Justamente, e homens de sociedade. Apelou para nós, se nós devíamos consentir um duelo, quando não havia motivos, e quando o Machado, numa carta que o Nunes me deu a ler, lhe afirmava sob a sua sagrada honra de homem, que a sra. dona Ludovina era inocente, perfeitamente inocente. Não houvera mais que umas cartas tolas trocadas, sem importância, e aquele abraço... Ora agora, dizia o Nunes: o que faz um duelo? Compromete a sra. dona Ludovina, faz crer ao público que houve realmente adultério, torna ridículo o sr. Alves e prejudica a firma comercial...

— E o dilema do Nunes – lembrou do lado o Carvalho.

— É verdade, o dilema – gritou Medeiros, recordando-se. – O Nunes apresentou este dilema: os senhores pedem a espada, se houve adultério o duelo à espada é ainda pouco; se o não houve é demais. De maneira que resolvemos que não houvesse duelo...

Godofredo não dizia nada. Mas uma sensação de paz e de serenidade invadia-o silenciosamente. Aquelas grandes afirmações do Nunes, um rapaz de tanta honra, quase o convenciam de que realmente não houvera senão um galanteio. Ele mesmo o dissera: se estivesse convencido que havia adultério, não se teria metido nisso. E não, que era um verdadeiro fidalgo. Ora se era um simples galanteio não havia realmente motivo para que se batessem, e isto dava-lhe um alívio, mil idéias abomináveis desapareciam, outras surgiam, de repouso, de tranqüilidade, talvez de felicidade ainda. Decerto não perdoaria a sua mulher aquele simples galanteio. Não tornaria a falar ao Machado. Mas a vida ser-lhe-ia menos amarga pensando que eles realmente o não tinham traído.

(continua...)

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