Por Eça de Queirós (1900)
- O Sr. Manuel Duarte tem gosto; tem muito gosto! E então o Joaquim que não sele a égua; jánão vou ao Sanches Lucena. Oh, senhores, quando pagarei eu esta infame visita? Há três meses!... Enfim, por dois dias mais a bela D. Ana não envelhece; e o velho Lucena também não morre.
E o Fidalgo da Torre, que decidira arriscar o beijo folgazão, retomou a pena, arredondou o seu final com elegante harmonia:
"A moça, furiosa, gritou: Fu! Fu! vilão! E o beguino, assobiando, aligeirou as sandálias pelo córrego, na sombra das altas faias, enquanto que por todo o fresco vale, até Santa Maria de Craquede, os atambores mouriscos, tararã! ratatã! convocavam a mesnada dos Ramires, na doçura da tarde..."
III
Durante a longa semana, nas horas da calma, o Fidalgo da Torre trabalhou com aferro e proveito. E nessa manhã, depois de repicar a sineta no corredor, duas vezes o Bento empurrara a porta da livraria, avisando o Sr. Doutor "que o almocinho, assim à espera, certamente se estragava". Mas de sobre a tira de almaço Gonçalo rosnava "já vou!" - sem despegar a pena, que corria como quilha leve em água mansa, na pressa amorosa de terminar, antes do almoço, o seu Capítulo I.
Ah! e que canseira lhe custara, durante esses dias, esse copioso Capítulo, tão difícil, com o imenso Castelo de Santa Irenéia a erguer; e toda uma idade esfumada da História de Portugal a condensar em contornos robustos; e a mesnada dos Ramires a apetrechar, sem que faltasse uma ração nos alforjes, ou uma garruncha nos caixotes, sobre o dorso das mulas! Mas felizmente, na véspera, já movera para fora do Castelo o troço de Lourenço Ramires, em socorro de Montemor, com um vistoso coriscar de capelos e lanças em torno ao pendão tendido.
E agora, nesse remate do Capítulo, era noite, e o sino de recolher tangera, e a almenara luzira na Torre Álbarrã, e Tructesindo Ramires descera à sala térrea da alcáçova para cear - quando fora, diante da cárcova, com três toques fortes anunciando filho de algo, uma buzina apressada soou. E, sem que o vílico tomasse permissão do senhor, o alçapão da levadiça rangeu nas correntes de ferro, ribombou cavamente nos apoios de pedra. Quem assim chegava em dura pressa era Mendo Pais, amigo de Afonso II e mordomo da sua Cúria, casado com a filha mais velha de Tructesindo, D. Teresa - aquela que, pelo ondeante e alvo pescoço, pelo pisar mais leve que um vôo, os Ramires chamavam a Garça Real. O Senhor de Santa Irenéia correra ao patim para acolher, num abraço, o genro amado - "membrudo Cavaleiro, com os cabelos ruivos, a alvíssima pele da raça germânica dos visigodos..." E, de mãos enlaçadas, ambos penetraram nessa sala de abóbada, alumiada por tochas que toscos anéis de ferro seguravam, chumbados aos muros.
Ao meio pousava a maciça mesa de carvalho, rodeada de escanhos até o topo, onde se erguia, diante dum áspero mantel de linho coberto de pratos de estanho e de pichéis luzidios, a cadeira senhorial com o Açor grossamente lavrado nas altas espaldas, e delas suspensa, pelo cinturão tauxiado de prata, a espada de Tructesindo. Por trás negrejava a funda lareira apagada, toda entulhada de ramos de pinheiro, com a prateleira guarnecida de conchas, entre bocais de sanguessugas, sob dois molhos de palmas trazidas da Palestina por Gutierres Ramires, o de Ultramar Rente a um esteio da chaminé, um falcão, ainda emplumado, dormitava na sua alcândora; e ao lado, sobre as lajes, numa camada de juncos, dois alões enormes dormiam também, com o focinho nas patas, as orelhas rojando. Toros de castanheiro sustentavam a um canto um pipo de vinho. Entre duas frestas engradadas de ferro, um monge, com a face sumida no capuz, sentado na borda de uma arca, lia, à claridade do candil que por cima fumegava, um pergaminho desenrolado... Assim Gonçalo adornara a soturna sala Afonsina com alfaias tiradas do tio Duarte, de Walter Scott, de narrativas do Panorama. Mas que esforço!... E mesmo, depois de colocar sobre os joelhos do monge um fólio impresso em Mogúncia por Ulrick ZelI, desmanchara toda essa linha tão erudita, ao recordar, com um murro na mesa, que ainda a Imprensa se não inventara em tempos de seu avô Tructesindo, e que ao monge letrado apenas competia "um pergaminho de amarelada escrita..."
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.